Casavam com militares russos para ficarem com as indemnizações: eis o escândalo das "viúvas-negras" na Rússia

Após a invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022, o Kremlin incentivou ativamente os recrutas russos a casar, possivelmente para reforçar o apoio familiar ou criar uma motivação adicional para combater

Quando Maria foi informada pelos militares russos de que o seu pai, Yury, de 59 anos, tinha sido atingido a tiro na linha da frente da guerra na Ucrânia e que mais tarde tinha morrido devido aos ferimentos, ficou devastada e duplamente chocada.

Não só desconhecia que o pai se tinha alistado no exército, como foi também informada de que ele se tinha casado apenas dois dias antes de ser enviado para o combate.

“Ainda estou em choque e continuo sem conseguir aceitar o que aconteceu”, contou Maria, entre lágrimas, sentada à mesa da cozinha do seu pequeno apartamento em São Petersburgo. “Ao princípio parecia um sonho. Ainda hoje, por vezes, acordo a pensar que devo ter sonhado tudo isto. Mas está mesmo a acontecer”, acrescentou, emocionada.

A noiva, que Maria garante nunca ter conhecido nem sequer ouvido o pai mencionar, era 22 anos mais nova do que ele e tornou-se a sua herdeira legal, passando assim a ter direito à indemnização oficial.

“Nunca sequer falei com esta mulher”, afirmou Maria, de 37 anos. A CNN utiliza apenas o seu primeiro nome por razões de privacidade.

“Nem sei o que lhe dizer porque suspeitei imediatamente que se tratava de um esquema.” A CNN tentou contactar a viúva de Yury para obter um comentário.

Quando um soldado russo morre em combate, os seus familiares mais próximos recebem indemnizações pagas pelos militares a partir de cinco milhões de rublos (64 mil dólares), uma compensação destinada a tranquilizar os recrutas de que, se - e muitas vezes quando - acontecer o pior, os seus entes queridos ficarão protegidos.

Mas cresce a preocupação na Rússia de que este benefício esteja a ser cada vez mais explorado por burlões sem escrúpulos - apelidados pelas autoridades russas e pelos meios de comunicação estatais de “viúvas-negras”. Estas mulheres seduzem homens vulneráveis para casamentos fictícios antes de os enviarem para a guerra e, caso os novos maridos morram, reclamam as indemnizações, excluindo outros familiares.

Casamentos em leitos de morte

Nos últimos meses, a opinião pública russa ficou chocada com vários relatos de recrutas que terão sido alegadamente levados a casar através de esquemas antes de morrerem na linha da frente, ou até de casamentos celebrados nos próprios leitos de morte.

Num dos casos de “viúva-negra” mais divulgados no ano passado, uma enfermeira que trabalhava num hospital militar foi despedida depois de ser acusada de casar com cinco soldados que estavam ao seu cuidado antes de estes morrerem devido aos ferimentos, com o objetivo de receber as respetivas indemnizações.

Trata-se de uma prática que atingiu um ponto sensível numa sociedade cada vez mais alarmada com o impacto da guerra em curso na Ucrânia - que o Kremlin continua a designar como uma “operação militar especial” - na vida dentro da Rússia.

Num contexto de agravamento da situação económica, escassez de combustíveis, aumento constante das perdas humanas e ataques ucranianos em território russo, a condenação destes burlões intensificou-se, multiplicando-se os apelos públicos a uma resposta oficial.

“As famílias dos participantes na Operação Militar Especial precisam de proteção contra criminosos descarados, contra as chamadas ‘viúvas-negras’, contra burlões financeiros, telefónicos e predadores que perseguem quem recebeu indemnizações”, afirmou Leonid Slutsky, um destacado deputado do parlamento russo, normalmente alinhado com o Kremlin, acrescentando que estes “crimes” já atingiram “proporções graves”.

Conselhos cínicos

Após a invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022, o Kremlin incentivou ativamente os recrutas russos a casar, possivelmente para reforçar o apoio familiar ou criar uma motivação adicional para combater. A campanha pró-casamento enquadrava-se também na promoção dos chamados valores tradicionais defendidos pelo Presidente russo, Vladimir Putin, num contexto de declínio demográfico na Rússia.

As autoridades procuraram facilitar casamentos rápidos para soldados recentemente alistados, dispensando o habitual período de aviso prévio, enquanto a televisão estatal transmitia cerimónias coletivas organizadas por responsáveis locais para simplificar o processo.

Casar com um soldado, sobretudo com um recruta prestes a ser destacado — cuja esperança média de vida nas linhas da frente, descritas como um “triturador de carne”, é atualmente extremamente reduzida — chegou mesmo a ser apresentado como uma forma de conseguir comprar casa na Rússia.

Num videocast gravado na cidade siberiana de Tomsk, no ano passado, uma agente imobiliária russa deu um conselho de um cinismo surpreendente a quem pretendia comprar habitação.

“Tenho 30 anos, mas se quiser comprar um apartamento, onde é que vou buscar o dinheiro?”, perguntou a apresentadora, Darya Cherdantseva.

“É simples”, respondeu a agente, Marina Orlova. “Encontra um homem que esteja a servir na Operação Militar Especial e, quando ele morrer, recebes oito milhões de rublos (102 mil dólares)”, disse, rindo-se.

“Muitas mulheres estão a comprar apartamentos baratos dessa forma. É negócio”, acrescentou Orlova.

As duas acabaram por ser julgadas, condenadas a longas penas de trabalho comunitário e obrigadas a pedir desculpa aos soldados e às suas esposas.

Revolta generalizada

Os tribunais russos também intervieram noutros casos mediáticos, como o conflito muito divulgado entre a mãe de um soldado russo de Ryazan e uma mulher da região que ele conheceu e com quem casou durante um curto período de licença da frente de combate.

O soldado, Georgy Kostyrko, conheceu Angelina Varyukhina pela internet e casou com ela dez dias depois, antes de regressar à sua unidade.

Segundo a mãe de Kostyrko, a nova mulher começou pouco depois a publicar fotografias e vídeos nas redes sociais com outros homens e o filho apresentou um pedido de divórcio. Contudo, morreu em combate antes de o processo estar concluído, deixando-a como beneficiária legal da indemnização por morte.

Varyukhina apresentou uma versão diferente, afirmando que as acusações sobre o breve casamento eram uma tentativa de “manchar” a sua reputação e que ela e Kostyrko se reconciliaram depois de um desentendimento. Disse ainda que as imagens com outros homens foram publicadas apenas para provocar ciúmes em Georgy.

O estatuto de familiar direto de Varyukhina acabou por ser anulado pelos tribunais, mas o caso gerou enorme indignação.

Também surgiram casos chocantes em que membros das forças de segurança russas terão estado envolvidos na organização de esquemas de “viúvas-negras”, alegadamente em conluio com mulheres para enviar os maridos recém-recrutados para missões de elevado risco em troca de uma parte das indemnizações caso fossem mortos.

Num desses casos, no ano passado, os meios de comunicação russos noticiaram uma investigação em Primorsky Krai, no extremo oriente do país, sobre um alegado esquema envolvendo um alferes, um sargento e um contabilista militar. Os três foram acusados de recrutar homens vulneráveis, incluindo órfãos e pessoas sem familiares próximos, organizando casamentos para eles. Alegadamente, esses recrutas eram depois enviados para posições da linha da frente particularmente perigosas, onde tinham maior probabilidade de morrer em combate. Desde então, não houve atualizações públicas sobre o caso.

De regresso a São Petersburgo, Maria mostrou à CNN o antigo apartamento do pai, entretanto vendido. Está convencida de que ele também foi burlado e perdeu a casa.

Maria levou a CNN ao antigo apartamento do pai. Este foi vendido após a morte dele e ela diz que não tem nenhum dos seus pertences que lhe sirva de recordação. CNN

Por trás de uma porta partida, os novos proprietários garantiram que a compra foi legítima e que nunca chegaram sequer a conhecer o vendedor. Mas o dinheiro e a viúva, tal como o pai de Maria, desapareceram.

“Já não resta absolutamente nada, e isso é incrivelmente doloroso”, disse Maria, em lágrimas.

“Não tenho uma única coisa que me faça lembrar dele, apenas as chaves do apartamento, que já nem sequer funcionam, e mais nada.”

Katharina Krebs e Ana Archen contribuíram para este artigo