Como o ataque às Torres Gémeas afetou as crianças

Jacob Fortinsky tinha quase quatro anos quando viu as Torres Gémeas de Nova Iorque colapsarem, após terem sido atingidas por dois aviões comerciais, no ataque terrorista de 11 de setembro de 2001. Estava a ver desenhos animados na televisão com a irmã gémea, Sarah, quando as sirenes dos bombeiros chamaram a sua atenção. Momentos depois, quando a primeira torre desabou, a onda de choque fez estilhaçar os vidros do apartamento dos gémeos, que viviam a um quarteirão dos edifícios icónicos de Nova Iorque, e uma nuvem de poeira invadiu o apartamento.

Momento em que o segundo avião colide com as Torres Gémeas, no dia 11 de Setembro, de 2001

Momento em que o segundo avião colide com as Torres Gémeas, no dia 11 de Setembro, de 2001 Getty Images

A mãe e a ama pegaram nos gémeos, e na irmã de dois anos, e fugiram do apartamento. Nas escadas do prédio, juntaram-se aos vizinhos em pânico que desciam as escadas para se refugiarem na sala da caldeira, na cave do edifício. Uma das primeiras memórias de Jacob Fortinsky é a de mostrar à irmã gémea como devia colocar um pano molhado, que um dos vizinhos distribuiu, para tapar a boca e o nariz e assim servir de filtro contra o pó no ar.

Horas depois, quando estavam a salvo na casa de um primo em Nova Jérsia, foram necessários vários banhos para que a poeira cinzenta que se lhes colou ao corpo fosse levada pela água. Nos meses seguintes, os gémeos revelam sinais de ansiedade: tinham receio que outros edifícios altos caíssem e Jacob estremecia perante lume, até mesmo das velas do Shabat, o dia de descanso do Judaísmo, celebrado pela família sexta-feira à noite.

Crianças afetadas

Anos depois, Jacob Fortinsky, atualmente com 28 anos, desenvolveu asma. “ É difícil saber com 100% de certeza se foi provocado pelo ataque de 11 de setembro, mas obviamente teve um impacto no meu corpo”, diz ao New York Times. Ainda hoje vive na expectativa de correr mais risco de desenvolver cancro do pulmão, devido às poeiras libertadas pela queda das Torres do World Trade Center e que foram consideradas tóxicas.

É isso mesmo que um novo estudo científico quer descobrir. Depois de terem sidos avaliados os efeitos das poeiras tóxicas nos bombeiros e paramédicos, os primeiros a chegarem ao local do ataque terrorista, um projeto de investigação pretende avaliar o impacto que as mesmas tiveram nas cerca de 25 mil crianças que viviam ou estudavam nas imediações das Torres Gémeas, em 2001. O Programa de Saúde do World Trade Center está na fase de localizá-las para iniciar o estudo. 

A corporação de bombeiros de Nova Iorque perdeu 343 bombeiros no dia do ataque. Muitos mais adoeceram nos anos seguintes A corporação de bombeiros de Nova Iorque perdeu 343 bombeiros no dia do ataque. Muitos mais adoeceram nos anos seguintes Mark Schiefelbein / AP

Mais de 2100 bombeiros e paramédicos que acorreram para socorrer as vítimas naquele dia adoeceram com doenças respiratórias e cancro, devido à exposição das poeiras que, segundo os cientistas continham mais de 2.500 contaminantes, incluindo chumbo, mercúrio e amianto.

Pelo menos 2.100 bombeiros pediram a reforma por invalidez devido a problemas respiratórios e cancro, segundo o médico do Departamento de Bombeiros de Nova Iorque, David Prezant. Mais de 5.000 receberam tratamento para doenças como asma, bronquite crónica, enfisema e fibrose pulmonar.

Mais casos de cancro e depressão

As crianças também foram expostas de forma prolongada: durante os meses seguintes ao ataque os escombros das torres libertaram fumos e poeiras que se depositaram nas condutas dos ares condicionados, tapetes e pátios das creches e escolas da área. A exposição teve uma consequência: aumentou o nível de substâncias tóxicas no organismo.

Segundo os estudo do investigador Leonard Trasande, da escola médica Langone Saúde, da Universidade de Nova Iorque, ao fim de dez anos do ataque, as crianças que viviam na área apresentavam níveis elevados no sangue de dioxinas e de PFAS (químicos sintéticos), ambos associados ao desenvolvimento de cancro e a alterações no sistema imunitário.

Muitas adoeceram. Dois anos depois do ataque terrorista, que na Torres Gémeas matou mais de 2.700 pessoas, o Departamento de Saúde da Câmara de Nova Iorque criou um registo para avaliar a saúde de quem vivia na zona. Cerca de 77 mil pessoas inscreveram-se e responderam a questionários ao longo dos anos, três mil eram crianças. Os dados indicam que 25% destas foram diagnosticadas com asma, em comparação com 16% da população geral da mesma idade. Mais: 50% receberam tratamento para depressão.

Jacob Fortinsky lembra-se de perguntar aos pais se as outras torres de apartamentos poderiam também cair, como as Torres Gémeas. A irmã, Sarah, acordava à noite assustada com pesadelos: sonhava que um monstro feito de poeira e vidro a queria apanhar. Pouco mais de um mês depois do ataque, os pais decidiram deixar Nova Iorque pelos subúrbios, em Westchester.