Os alunos dos liceus nas ruas, confrontos com a polícia, barricadas, um governo desorientado, violências e vandalismos desmesurados; é mais uma reposição à francesa.
Vê-se um governo de centro-direita a acusar a extrema-esquerda de subversão, sindicatos de polícia, muito à direita, a exigir mão dura.
Ouve-se, também, que as queixas dos estudantes fazem sentido ante a degradação das condições de ensino.
Admite-se que a ansiedade dos jovens quanto a perspectivas de carreira e emprego tem toda a razão de ser.
Há, aliás, em França, uma mão cheia de razões para o descontentamento de toda a gente.
Do preços dos combustíveis aos desacordos intratáveis sobre a revisão do sistema de pensões chega-se à crueza estatística: o défice do orçamento deve ficar este ano em 5,4% do Produto Interno Bruto e, pelo quinto ano consecutivo, Paris superará os 3% estipulados pela União Europeia.
A dívida pública, em níveis recorde desde o pós-guerra, passará, possivelmente, dos actuais 119% do PIB para 122% em 2027 e o juro das obrigações da República assinala a degradação ao ultrapassar 4,90%.
Os 43 mil milhões de euros em cortes de despesa, salvaguardando o sector militar, que o primeiro-ministro Sébastien Lecornu preconiza na proposta de orçamento de estado, apresentada quinta-feira, dificilmente contarão com apoios políticos suficientes num debate parlamentar que irá até ao final do ano.
De resto, pouco importa, porque, em Abril, a primeira volta das eleições presidenciais é para Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon, pelo que indicam todas as sondagens.
Le Pen, confrontada com o descalabro das contas públicas, advoga a adopção de «uma regra de ouro», a aprovar em referendo, para conter o défice orçamental até a dívida pública baixar para 60% do PIB.
Mélenchon, por sua vez, defende «congelar» da dívida pública da França detida pelo Banco Central Europeu, transformando-a em «dívida perpétua a taxa zero»
O dia-a-dia, entretanto, faz-se de denúncias como as veiculadas pelo diário digital de esquerda
Mediapart acerca de afirmações anti-judaicas do presidente da «Convergência Nacional» Jordan Barbella em 2013, em mensagens privadas enviadas através do «Messenger».
Passados 13 anos, o delfim de Marine Le Pen, agora com 31 anos, nega tudo, denuncia falsificações grosseiras, uma operação de difamação disseminada pela mão-negra dos poderes instituídas – a clássica «barbouzerie» – e processa os acusadores.
Marine saiu em defesa de Bardella e aconselhou os maldizentes a tomarem cuidado e a protegerem os seus fatos com «Kevlar», fibra sintética com provas dadas em coletes anti-bala.
Mélechon, por seu turno, começou por jurar «não perdoar» a «selvajaria policial» contra os estudantes e baixou o tom, apelando em nome da «França Insubmissa», à «não-violência nos métodos de luta».
É uma péssima «reprise»; mais do que uma recaída sem qualquer sentido, pior do que uma repetição desconexa, a França, toma o Marquês de Sade à letra, e agita-se num desvario.
Texto escrito segundo o Acordo Ortográfico de 1945