Era de esperar, com norte-americanos perdidos num impasse frente ao Irão e aliados europeus e canadianos incapazes de responderem à procura, que se sumissem os sistemas e munições com que a Ucrânia contava para suster as vagas de ataques de mísseis russos.
Esta semana tornou-se evidente que a Rússia está em condições de causar danos irremediáveis antes da chegada do Inverno às infraestruturas ucranianas de energia, água e transportes, às redes de produção, armazenamento e distribuição de armamento.
A Crimeia ocupada está sob fogo intenso, mas ataques russos paralisaram totalmente a navegação comercial nos portos ucranianos de Odessa e Nikolaiev e bloquearam a exportação de cerca de 67 milhões de toneladas de cereais e óleos vegetais.
Em rotas alternativas a seca impossibilita a navegação no Danúbio e através do porto romeno de Constanta, por camiões e comboios via Eslováquia, Hungria, Bulgária poderão movimentar-se, eventualmente, aproximadamente metade dos seis milhões de toneladas mensais que transitavam pelo Mar Negro.
Na guerra de atrito Kiiv tem apostado com êxito nos ataques a refinarias e centros logísticos, mas, apesar de êxitos pontuais, tem sido incapaz de reduzir a produção de mísseis e drones russos.
A Rússia, além de dispor de fornecimentos norte-coreanos, produz cerca de 120 mísseis balísticos e mais de 6 mil drones explosivos por mês, segundo estimativas publicitadas pelos serviços de informações de Kiiv.
Os ataques às plataformas móveis de lançamento de mísseis balísticos de curto-alcance «Iskander» (500 km) dão escassos resultados e Kiiv carece de autorização da «Starlink» para orientar via satélite ataques em território russo.
A força aérea – dispondo, provavelmente, de centena e meia de caças, sobretudo «F-16» e «Mirage 2000-5», além de alguns «MiG-29» e «Sukhoi-27» – tem um desempenho limitado na defesa contra ataques de mísseis de cruzeiro, balísticos e drones.
Os sistemas «PATRIOT», norte-americano, e «SAMP/T», franco-italiano, são essenciais para deter ataques de mísseis balísticos, em especial dos hipersónicos «Kinjal», ou de mísseis de cruzeiro «Tsirkon», também capazes de superar os 6 000 km/h.
Nem Washington, nem nenhum estado europeu está, contudo, em condições de fornecer mais unidades e garantir um abastecimento adequado de mísseis, inclusivamente para derrube dos «S-400», mísseis terra-ar e antibalísticos utilizados por Moscovo para ataques a alvos terrestres.
Os «PATRIOT» da defesa antiaérea ucraniana têm consumido entre 60 mísseis de intercepção «PAC-3» por mês e, em alguns casos,150 mísseis. A capacidade de produção da «Lockheed Martin» ronda 60 unidades/mês e a primeira fábrica europeia de «PATRIOT» só abrirá em Setembro, na Alemanha.
O Irão e outros eventuais conflitos obrigam Washington a salvaguardar inventários suficientes e os demais aliados da NATO não arriscam abrir mão dos seus meios de defesa.
O protótipo de míssil antibalístico ucraniano «Freia», desenvolvido com apoio de nove países europeus, poderá, por sua vez, vir a estar disponível em meados do próximo ano.
A constatação da impotência ficou a descoberto na noite de terça-feira e madrugada desta quarta-feira: 24 mísseis balísticos e 4 mísseis hipersónicos de cruzeiro «Tsirkon» foram lançados sobre a capital ucraniana e nenhum foi abatido.
A superioridade russa no bombardeamento aéreo e sua intensidade – 376 mísseis de todas as classes em Julho, segundo Kiiv – não se têm traduzido, contudo, em avanços significativos no terreno.
As forças russas ocupam cerca de 20% do território ucraniano, as conquistas e recuos em escassas dezenas de quilómetros traduzem-se numa carnificina que possivelmente custa entre 8 700 e 9 800 mortos russos por mês e 1 100 a 1 225 mortes ucranianas.
Apesar de não serem visíveis sinais de reforço da capacidade ofensiva russa, a pressão acentua-se sobre as posições ucranianas disseminadas em Donetsk, nas áreas fronteiriças de Sumi e Kharkiv, no Nordeste, e a Sul, em Zaporijjia e Dniepropetrovsk.
A vulnerabilidade extrema da Ucrânia aos ataques de mísseis russos, além de infernizar a vida de civis, expõe, ainda, as suas linhas de abastecimento militar e a rotação de efectivos muito escassos a riscos de isolamento e exaustão.
Esta guerra, tal como a guerra do Irão, apresenta características próprias dos sistemas caóticos.
Desde logo, revelou-se altamente sensível às condições iniciais que levaram a desenvolvimentos impensados como se constatou no fracasso da ofensiva russa de Fevereiro de 2022 contra Kiiv.
A copiosas frustrações pela mobilização de grandes meios para escassos resultados e inesperadas consequências de eventos aparentemente triviais têm vindo a suceder-se surpresas pelos esforços constantes dos combatentes para surpreender e dizimar o adversário.
A fricção, o choque dos planos com as realidades, já fora definida pelo general prussiano Carl von Clausewitz como atributo essencial do conflito armado no seu tratado inacabado «Da Guerra», publicado em 1832.
Von Clausewitz advertiu, ainda, que «toda a acção se realiza, por assim dizer, numa espécie de crepúsculo que, por vezes, confere às coisas um aspecto nebuloso ou lunar, uma dimensão exagerada, um cariz grotesco.»
Apesar da desproporção de recursos entre russos e ucranianos é, portanto, muito limitada a previsibilidade do desenrolar da guerra a médio prazo.
Será tão fulcral a interação dos sistemas de alianças quanto a sustentabilidade dos regimes de Moscovo e Kiiv ante crescentes dificuldades económicas e sociais.
No imediato, porém, agiganta-se o risco de colapso das linhas de defesa ucranianas.