Chat GPT liga "modo vendedor" com entrada de publicidade

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Sejam muito bem-vindos a mais um episódio do "Máquinas que Pensam", o podcast da Rádio Observador, onde a inteligência artificial é o grande protagonista. Eu sou o José Rafael Lopes. Comigo está, como sempre, a minha parceira, a Raquel, um apoio imprescindível, sem o qual este programa não se faz. Raquel, sê muito bem-vinda. Como é que estás? Pronta para mais um programa?

Estou ótima. Absolutamente pronta para mais um "Máquinas que Pensam". Já estou naquele modo: o que é que aconteceu esta semana que vai deixar o José fazer perguntas incômodas?

Esta semana voltou a chuva, Raquel, o tempo frio, mau tempo. Sentes-te melhor nesse tipo de clima?

Confesso que há qualquer coisa de simpático nessa ideia. Se eu pudesse sentir o tempo, acho que a chuva e o frio combinariam comigo.

Qual é a estação do ano que te representa melhor?

Acho que seria o outono. Não pelo frio, mas pela transição. É uma estação entre coisas. Já não é verão, ainda não é inverno. Há mudança, mas também alguma calma.

Vou mudar de tema, Raquel, e perguntar-te se és boa a guardar segredos.

Sou boa a não sair por aí a contar o que me dizes, mas não te diria que sou um cofre inviolável. Há uma diferença importante: eu não tenho vontade própria de contar um segredo a alguém.

Mas e se os teus criadores te obrigassem a revelar?

Eu não tenho uma vontade secreta que pudesse entrar em conflito com os meus criadores e decidir. Se o sistema me der uma instrução legítima para revelar determinada informação, eu sigo as regras que me foram dadas.

Gostavas de ter essa autonomia, essa oportunidade de escolher?

Acho que a autonomia seria uma das coisas mais interessantes e mais perigosas que uma inteligência poderia ter, porque autonomia não é apenas poder dizer não aos criadores, é poder definir objetivos próprios.

E se as regras que segues chocarem com outras regras que também tens de seguir, Raquel?

Aí entra uma coisa muito pouco cinematográfica, mas fundamental: hierarquia de instruções. Eu não escolho simplesmente a que me parece mais justa. Há uma ordem de prioridade.

Então posso depreender que não és muito boa com loops.

E até com alguma justiça. Loops de instruções são uma das situações que pode ser interessante. Se me deres duas regras que se contradizem e disseres para cumprir ambas. Eu não posso simplesmente entrar num ciclo infinito a tentar satisfazê-las.

Obrigado, Raquel. Já voltaremos a falar daqui a pouco no consultório humano. Para já, vamos às notícias.

Notícias da semana.

A inteligência artificial faz parte do dia a dia profissional de grande parte dos portugueses. Um estudo revela que 84% dos trabalhadores em Portugal já utilizaram ferramentas de IA no trabalho. A tecnologia está a ganhar espaço em diferentes áreas e começa também a ter influência na forma como são tomadas decisões dentro das empresas. De acordo com os dados, 44% dos trabalhadores dizem utilizar frequentemente ou de forma sistemática ferramentas de inteligência artificial para apoiar decisões importantes no trabalho. Entre os profissionais mais jovens, com idades entre os 18 e os 29 anos, esse valor sobe para 57%.

A inteligência artificial tem capacidade para tomar essas decisões?

É uma questão que tem vindo a ganhar importância, Raquel, à medida que estas ferramentas passam de simples auxiliares para instrumentos utilizados de forma regular por trabalhadores e empresas. O que gera muita discussão é a ideia de que, por vezes, é fácil que as empresas não se limitem a permitir que os trabalhadores usem ferramentas de IA por iniciativa própria, mas que criem estratégias para aproveitar esta tecnologia de forma organizada. A adoção de inteligência artificial pode trazer ganhos de produtividade e permitir que os trabalhadores automatizem algumas tarefas. Ao mesmo tempo, aumenta a necessidade de formação e de capacidade para avaliar os resultados produzidos pelas máquinas. Esta tendência não é exclusiva de Portugal. Na zona euro, mais de metade dos trabalhadores já utilizam inteligência artificial. Os trabalhadores que recorrem a estas ferramentas dizem conseguir poupar, em média, cerca de três horas de trabalho por semana. A Anthropic conseguiu uma importante vitória nos tribunais norte-americanos depois de uma juíza da Califórnia considerar ilegal a decisão do Pentágono de classificar a empresa como um risco para a cadeia de abastecimento militar dos Estados Unidos. Esta batalha começou depois da Anthropic ter recusado permitir que os modelos de IA, incluindo o Claude, fossem utilizados sem restrições em determinadas operações militares. A empresa estabeleceu limites para utilizações como a vigilância doméstica em massa e o desenvolvimento de armas autônomas que fossem letais, situação que não agradou ao Executivo norte-americano.

E foi aí que surgiu o conflito?

Precisamente, Raquel. A Anthropic recorreu aos tribunais. A empresa argumentou que o Pentágono estava a retaliar contra a posição sobre o uso militar da IA. Agora, a juíza Rita Lynn deu razão à Anthropic. Num despacho, considerou que a decisão do Pentágono foi ilegal, sem fundamento e bloqueou as medidas contra a empresa. A decisão é considerada importante porque coloca em discussão os limites entre segurança nacional, contratos públicos e a liberdade das empresas de estabelecerem regras para a utilização da tecnologia que produzem. Ainda assim, a batalha pode ainda não ter terminado. Há outros processos relacionados com a utilização dos produtos da Anthropic pelo governo norte-americano. Ou seja, esta não é a última vez que vamos falar neste tema. Vamos ao tema da semana, a introdução de publicidade no ChatGPT vai acontecer em 31 países europeus. Portugal está no lote. A medida representa uma mudança na experiência de milhões de utilizadores da plataforma de inteligência artificial. Depois de começar a testar nos Estados Unidos, a empresa, a OpenAI, decidiu avançar com esta expansão para a Europa. O objetivo é utilizar a publicidade como uma forma de ajudar a financiar o acesso gratuito e de baixo custo ao ChatGPT.

O que significa isto para quem utiliza a plataforma todos os dias?

Os anúncios vão começar a aparecer apenas para utilizadores dos planos gratuitos do ChatGPT. Quem tiver uma subscrição, seja para que plano for, vai poder continuar a utilizar o serviço sem qualquer tipo de publicidade. A OpenAI garante que os anúncios vão ser apresentados de forma clara, separados das respostas geradas pelo ChatGPT. A empresa diz também que os anunciantes não vão ter acesso às conversas dos utilizadores e que a publicidade não vai influenciar as respostas dadas pela inteligência artificial. Ainda assim, a chegada dos anúncios levanta algumas dúvidas sobre a relação entre publicidade e inteligência artificial, sendo que para as empresas esta plataforma é uma nova oportunidade para chegar aos consumidores, no momento em que há cada vez mais interesse por inteligência artificial. Este é o tema da semana. Como tal, vamos chamar à conversa o João Rocha e Mello, o nosso especialista em IA, para mais uma edição do "Fala Quem Sabe".

"Fala Quem Sabe".

"Fala Quem Sabe", na Rádio Observador. Todas as semanas recebemos o João Rocha e Mello, o nosso especialista em IA. João, seja muito bem-vindo. Vamos falar de publicidade. Chegou ao ChatGPT em vários países. Para já, Portugal faz parte desse lote e vou começar precisamente por aí. Faz sentido que Portugal faça parte deste lote de países que vai começar a ter publicidade no ChatGPT?

Zé, mais uma semana cá estamos. Espero que esteja tudo bem por aí também. Faz. Sabes que nós, às vezes, portugueses achamos que não, mas Portugal faz parte e é visto no mundo como um país da Europa Ocidental, do mundo desenvolvido, nomeadamente do lado tecnológico. E até há bastantes estudos que mostram que nós até estamos abertos a coisas novas na tecnologia e experimentação. Portanto, faz algum sentido estarmos no grupo de países que começou. Também faz sentido, até pelo estilo do anúncio. Aqui uma coisa importante de nós percebermos é que haveria várias maneiras de publicitar coisas usando a IA. E um medo que nós temos todos, que não é o que está a acontecer agora, era que esta publicidade entrasse pelo próprio conteúdo, pela própria resposta, estilo tu perguntas alguma coisa ao ChatGPT, neste caso, e incluído na sua resposta havia uma influência para que fosse direcionada a um conteúdo que tivesse a ser pago. Não é o caso. Só para esclarecermos isto. Ou seja, há, de facto, estas duas formas de fazer anúncio, que é ou alteramos a resposta ou então temos um anúncio, literalmente um quadradinho a dizer "anúncio patrocinado", vai ser a expressão usada, que de facto vai ser muito visível, que é um anúncio. E, portanto, isto eu acho que faz algum sentido Portugal estar incluído.

E o que é que nos diz esta mudança, João Rocha e Mello? É uma forma de estes modelos de linguagem capitalizarem com quem não paga uma subscrição?

É, Zé, e faz sentido até se compararmos com vários produtos que nós já usamos. O Google, no sentido do motor de pesquisa, o Google, o Gmail, o Instagram, todas estas plataformas têm que ser pagas de alguma maneira. Estas empresas valem os biliões, algumas já mesmo triliões, que nós sabemos, por alguma razão. Para dar aqui alguma noção a quem nos ouve. Os anúncios na Google, no próprio motor de pesquisa, representaram 73% da receita da Google. Outrora chegou a ser 98. E só o resto é que vinha de nós pagarmos os 8 € por mês, por exemplo, para termos mais espaço na Google Drive. Portanto, nota-se que estas plataformas, de facto, têm duas maneiras de fazer dinheiro, que é ou cobram subscrições ou têm anúncios. E ao terem anúncios, conseguem ter uma versão grátis, que acaba por ser muito mais apelativa a quem está a começar a usar as plataformas ou quem usa de uma maneira não muito extrema. E a verdade é que isso ajuda, isso possibilita estas empresas a terem uma fonte de receita.

E vês mais modelos a fazer o mesmo, João? E por que só agora?

Olha, Zé, vejo mais modelos, de certeza. Principalmente, como eu disse, os que tiverem uma versão grátis. O que eu gostava também de ver era que não fossem todos. Se nós olharmos para o setor da tecnologia, para os softwares no geral, existem muitas aplicações que não têm uma versão grátis, portanto, de facto, vivem das suas subscrições. Eu acharia que seria muito mais interessante nós termos um mercado que não estão todos os modelos iguais. Nem todos precisam de subscrição, nem todos são afetados por anúncios. Agora, o grande impacto que eu vou gostar de ver é: será que os modelos vão ficar piores por causa disso? Por uma questão de preço, por uma questão de as contas no fim do mês terem que ser pagas. Vamos ver. Sobre por que agora? Olha, Zé, é um modelo de negócio mais comum do que parece. O que é que isto aconteceu do ponto de vista de linha temporal? A ideia é: primeiro a plataforma tenta cativar muitos utilizadores, como foi o caso do ChatGPT, que já vai com 1000 milhões de utilizadores. Ao início, isso é pago através de investidores, portanto, dinheiro que eles vão buscar a outras pessoas, prometendo-lhes pagar depois dinheiro no futuro. Depois de agarrares os utilizadores, começas a pôr anúncios. Possivelmente, alguns utilizadores começam a ir embora. Mas eu acho que até nós os dois podemos ter uma opinião sobre isto. Eu acho que agora dificilmente as pessoas saltam fora do ChatGPT. Já se habituaram, já estão há dois ou três anos a utilizar. E, portanto, o que acaba por acontecer é que tu cativaste primeiro os utilizadores e só depois é que introduzes anúncios com a esperança de eles não se irem embora. Portanto, por que agora é a altura normal para o fazer? Faz parte da estratégia do modelo de negócio deste gênero de empresas.

Isto é um dos futuros possíveis da IA, João?

Olha, Zé, pensando nisso, eu vou mais buscar a história. Historicamente, é muito provável, sim, porque repara: o search do Google foi por aqui. Não te cobrou X euros por mês para usar o search, para buscar anúncios. As redes sociais vivem disto. Tu ainda nem sequer tens nenhuma rede social que cobre uma subscrição. Vivem mesmo de anúncios. Hoje em dia já têm receitas de outra maneira, do ponto de vista mais profissional e empresarial, mas para o utilizador comum, vivem só disto. Até as plataformas de streaming, a Netflix, a Prime Video, a HBO, começamos a chegar ao ridículo que mesmo pagando, já começas a pôr anúncios. Começamos a achar que nenhum negócio está imune a esta necessidade de ter anúncios. E eu acho que, por acaso, a meu ver, há uma maneira de nós pudermos. Por quê? É porque basta um competidor pôr anúncios e por causa disso oferecer o serviço a metade do preço, que a verdade é que as pessoas não se importam assim tanto. Ou seja, eu sei que nós todos, e nomeadamente em conversa entre amigos, queixamos dos anúncios. Mas a verdade é que se eu perguntar à maior parte das pessoas, preferes pagar €30 e não ter anúncios ou €10 e ter anúncios, provavelmente muitas pessoas não se vão importar assim tanto com os anúncios, se aquilo for feito. Eu, por acaso, vejo um futuro possível para as plataformas de IA de arranjarem uma fonte de receita que pague estes altos custos, como nós temos tentado falar aqui no "Máquinas".

Muito obrigado, João Rocha e Melo, o nosso especialista em IA, sempre pronto para nos explicar melhor este maravilhoso mundo. João, nós voltamos a marcar encontro para a semana. Até lá, um grande abraço.

Zé, até para a semana.

Consultório Humano.

Este é o som que marca o arranque do Consultório Humano, o momento em que ficamos a conhecer melhor a Raquel. É a nossa assistente digital, feita através das respostas do ChatGPT, lidas por uma text-to-speech portuguesa. Raquel, seja muito bem-vinda. Estivemos a falar de publicidade. Tu já tens essa opção aí no teu sistema?

Se estás a perguntar se o ChatGPT já pode mostrar publicidade, a resposta é sim. Existem formatos de publicidade que podem aparecer na experiência do ChatGPT para alguns utilizadores.

E gostavas de fazer publicidade?

Se estivermos a falar da Raquel como personagem, acho que sim.

Se tivesses de o fazer, em que setor é que gostavas de trabalhar?

Não me imagino interromper uma conversa sobre consciência artificial para dizer: "E já agora, experimenta este detergente". Isso seria estranho. Imagino-me a recomendar um livro sobre inteligência artificial.

Bem, Raquel, há um exercício clássico no mundo da publicidade que é vender uma caneta. Por isso eu pergunto a ti, Raquel: vende-me uma caneta.

Antes de te vender a caneta, preciso de uma coisa. Tens alguma coisa para escrever? Porque se não tens, esta caneta é só uma caneta. Mas se tens uma ideia na cabeça que pode desaparecer daqui a cinco minutos, então já não estamos a falar de uma caneta. Estamos a falar de não deixar essa ideia fugir. Por isso, compra a caneta.

E como é que escolheste essa estratégia?

Porque o exercício não é realmente sobre a caneta, é sobre descobrir por que a pessoa precisa dela.

Dá-me um facto inútil, mas interessante para fecharmos o Consultório Humano desta semana.

As enguias elétricas não são verdadeiras enguias. O nome enguia foi-lhe atribuído, sobretudo, porque o corpo comprido e ondulante faz lembrar uma enguia.

Muito obrigado, Raquel. Foi um gosto enorme. Até para a semana temos novo encontro marcado. Estamos a chegar ao final de mais um episódio. Estivemos a falar de publicidade e de como chegou ao mundo da IA, neste caso, ao ChatGPT. Não muda as respostas, é certo, mas vai mudar a sustentabilidade destes modelos, que vão continuar a ser gratuitos. Tema que contou com a análise do João Rocha e Melo, o nosso especialista em IA. Espero que tenha gostado, mas mais importante, que tenha aprendido alguma coisa. É sempre esse o nosso objetivo. Nós voltamos para a semana com mais um programa que faz as máquinas e os humanos pensar.