Cláudio Castro acompanhava pedidos da Refit e cobrava providências, diz PF

Manoela Alcântara

Investigadores apontam atuação pessoal do então governador do Rio de Janeiro em prol da empresa, investigada por fraude tributária

03/09/2026 20:49

Vinícius Schmidt/Metrópoles
Ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro

O ex-governador Cláudio Castro (PL) acompanhava pessoalmente pedidos da Refit ao governo do Rio de Janeiro e cobrava providências sobre a tramitação de documentos, segundo a Polícia Federal.

Os investigadores apontam que ele mantinha um canal direto com representantes do grupo de Ricardo Magro, além do próprio empresário, para tratar de demandas da empresa.

As conversas foram encontradas no celular de Castro e envolvem Marcos Joaquim Gonçalves Alves, advogado identificado pela PF como representante dos interesses da refinaria. Segundo os investigadores, Alves recorria ao então governador para obter informações e orientações sobre protocolos, reuniões e andamento de pedidos.

A Refit, antiga Refinaria de Manguinhos, é investigada por suspeitas de fraudes tributárias, lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio. A PF apura se agentes públicos favoreceram a continuidade das operações do grupo apesar de irregularidades na importação e na comercialização de combustíveis.

Entre no canal de WhatsApp da Coluna Manoela Alcântara

Na última segunda (31/8), a 5ª Vara Empresarial do Rio decretou a falência de quatro empresas do Grupo Refit, entre elas a Refinaria de Petróleos Manguinhos.

Os registros constam de um documento encaminhado pela PF ao Supremo Tribunal Federal (STF) e tornado público nesta quinta-feira (3/9), após a retirada do sigilo pelo ministro Alexandre de Moraes. As informações embasaram a segunda fase da Operação Sem Refino, que teve Castro entre os alvos em agosto.

Em uma das conversas, de 24 de novembro de 2020, Alves pergunta se uma petição apresentada à Casa Civil havia chegado ao governador. Castro responde “Ainda não”, e acrescenta: “Já cobrei aqui”.

Para a PF, o episódio sugere “tratamento diferenciado concedido a pleitos de uma empresa privada por meio de interlocução direta com a mais alta autoridade do Estado, afastando-se dos canais administrativos ordinários”.

O advogado já havia pedido informações sobre o documento em 20 e 23 de novembro. No dia 24, antes da resposta sobre a cobrança, escreveu a Castro: “Tá de mal de mim”. O então governador respondeu em duas mensagens: “Eu???” e “Jamais”.

Em outra conversa, de 5 de abril de 2021, Alves procura Castro para retomar uma reunião sobre a regularização fiscal da Refit. O advogado pergunta se deveria falar com outro interlocutor ou se o próprio governador conduziria o assunto.

“Eu toco por aqui”, responde Castro. Na avaliação dos investigadores, a mensagem indica atuação pessoal do então governador em uma demanda de interesse do conglomerado.

A PF afirma que a relação entre Castro e a Refit “não se limitava ao contato protocolar inerente ao relacionamento entre autoridades públicas e agentes econômicos”.

Segundo o documento, os contatos permitiam acompanhar pedidos da empresa, facilitar reuniões com autoridades e monitorar a tramitação de demandas do grupo.

A investigação também atribui à Casa Civil uma orientação para barrar inscrições estaduais de empresas concorrentes da Refit. A PF cita os casos da Tobras Distribuidora de Combustíveis, que usa o nome Terrana, da Tramp Oil e da Branson Holdings.

Segundo os investigadores, as empresas não tiveram inscrições autorizadas “por influência de diretriz exarada diretamente da Casa Civil”.