Visão | Clooney veio de barco, Maggie trouxe o problema e a política esteve sempre sentada na primeira fila | Festival de Veneza 2026 — Reflexos da Abertura

George Clooney recebeu o Leão de Ouro, chamou “caquistocracia” à América de Trump e conseguiu que 20 mil pessoas cercassem o Palazzo del Cinema; Maggie Gyllenhaal perguntou por que razão quase não há mulheres na Competição; a Palestina entrou pela porta que a organização preferia deixar entreaberta; e a passadeira vermelha confirmou que Veneza continua capaz de discutir o estado do mundo sem dispensar smokings, vestidos com asas e gritos de fãs por estrelas tanto do cinema como das séries de televisão

Veneza abriu ontem oficialmente a sua 83.ª Mostra com uma daquelas noites em que o cinema quase correu o risco de ser o assunto menos discutido num festival de cinema. George Clooney chegou de barco ao cais do Excelsior, recebeu um Leão de Ouro de Carreira na Sala Grande e falou, ao longo do dia, de Trump sem dizer Trump, alterações climáticas, jornalismo, autoritarismo, filhos, casamento e até do seu Batman. Maggie Gyllenhaal, presidente do júri, tratou, entretanto, de perguntar por que raio uma competição internacional em 2026 consegue reunir vinte filmes e praticamente esquecer que existem realizadoras. E a Palestina continuou a pairar sobre o Lido, apesar de não haver bandeira para o recordar. Nada mau para uma abertura de um festival que prossegue até 12 de setembro. 

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Clooney, ou como insultar um governo com elegância 

Clooney é provavelmente a única criatura viva capaz de transformar uma simples conferência de imprensa sobre a decadência da democracia americana num exercício de charme italiano. Aos 65 anos, explicou que os EUA vivem uma “caquistocracia”, palavra suficientemente erudita para insultar um governo sem parecer que se perdeu a educação em casa. Significa, resumidamente, ser governado pelos menos qualificados. Não pronunciou o nome Donald Trump. Também não era preciso pôr legendas. 

O ator lembrou 1968, os assassinatos de Martin Luther King e Robert Kennedy, a violência política americana e garantiu continuar convencido de que estes períodos acabarão um dia. Espera pelas eleições intercalares de novembro como um contrapeso e de 2028 alguma recuperação da normalidade. Falou ainda da recusa absurda da ciência climática por parte de dirigentes políticos e observou, com uma lógica quase embaraçosamente simples para estes tempos, que mesmo que os negacionistas estivessem certos, limpar o planeta continuaria a ter a inconveniência terrível de criar empregos, melhorar o ar e tornar a vida ligeiramente menos tóxica. 

Depois chegou a noite e o homem deixou temporariamente o ativista e o cidadão político à porta da Sala Grande para voltar a ser George Clooney, profissão que desempenha há décadas com admirável competência. Cerca de 20 mil pessoas terão cercado a zona da passadeira vermelha, quase o dobro do público do ano anterior, segundo os números divulgados no Lido. Clooney apareceu com Amal e Laura Dern, sentou-se junto dos fotógrafos, pediu uma máquina emprestada para fotografar quem o fotografava, distribuiu autógrafos e conversou com fãs. Jonathan Bailey e Damien Hardung encarregaram-se entretanto de provar que a televisão também já possui o seu próprio sistema planetário de estrelas: parte do público juvenil gritava pelos atores de Bridgerton e Maxton Hall com uma devoção antigamente reservada aos Beatles e, em certos países, aos avançados-centro. 

Laura Dern entregou-lhe o Leão de Ouro de Carreira e recordou que os dois se conheceram num clássico absolutamente indispensável à História da Sétima Arte chamado Grizzly II, filme inacabado sobre um urso assassino. É reconfortante saber que uma das carreiras mais sólidas de Hollywood também começou perto de um urso que nem sequer conseguiu acabar o filme. 

Clooney respondeu com a melhor frase da noite: “Ninguém chega a lugar nenhum sozinho.” Recordou os 45 anos de profissão, confessou que aquilo que retrospetivamente parece uma carreira cuidadosamente arquitetada começou sobretudo com a necessidade bastante prosaica de pagar a renda e não regressar ao Kentucky e agradeceu a atores, argumentistas, realizadores e técnicos que o ajudaram a parecer melhor do que provavelmente julgava ser. 

Depois abandonou o agradecimento protocolar e chegou ao verdadeiro centro da cerimónia. O cinema, disse, junta há décadas pessoas de países que discordam politicamente de quase tudo. “Ninguém ri ou chora numa língua diferente.” Falou de jornalistas que alguns poderes gostariam de silenciar e de artistas que insistem em lembrar que alguém que nunca conhecemos também merece a nossa empatia. Os filmes não baixam a inflação — finalmente alguém reconheceu os limites do audiovisual —, mas conseguem fazer-nos perceber que cada pessoa é protagonista de uma história que não é a nossa. Um prémio honorífico transformou-se, sem grandiloquência excessiva, numa defesa bastante clara da cultura perante os novos autoritarismos. 

Maggie Gyllenhaal abriu a porta que ninguém queria abrir 

Do outro lado desta Veneza politicamente carregada estava Maggie Gyllenhaal. Bastaram poucas horas para, afinal, a presidente do júri, em conferência de imprensa, demonstrar que não veio ao Lido apenas escolher um Leão de Ouro e aprender a pronunciar difíceis títulos coreanos. Confrontada com a presença quase residual de mulheres realizadoras na Competição, começou com uma piada seca: aparentemente, chegara-se finalmente à conclusão de que os homens fazem melhores filmes. Depois acabou a brincadeira. 

“Existe um problema sistémico”, afirmou. É mais difícil às mulheres financiar filmes e os temas resultantes de experiências femininas podem continuar a ser considerados, pelos eternos porteiros do gosto, menos dignos de “alta arte”. A pergunta ficou no ar: quem decide o que vale? Veneza tem este ano apenas Woman Unknown, de May el-Toukhy, entre os filmes integralmente realizados por mulheres, a que se juntou posteriormente NAZA, co-realizado por Rachel Szor e Yuval Abraham. Para um festival que gosta de se apresentar como termómetro da modernidade cinematográfica, a temperatura está aqui alguns graus abaixo do século XXI. 

Gyllenhaal foi igualmente certeira quando lhe perguntaram se os cineastas devem ser políticos. O mundo está “em estado de emergência”, reconheceu, mas o cinema cria empatia e um olhar honesto sobre a experiência humana acaba inevitavelmente por possuir uma dimensão política. Resposta consideravelmente mais inteligente do que fingir que um festival pode fechar as portas da sala e deixar Gaza, Ucrânia, Trump, os autoritarismos, as migrações e as alterações climáticas entregues ao bengaleiro. 

A Palestina, precisamente, entrou na Mostra antes dos primeiros créditos. O coletivo Venice4Palestine voltou a pedir que a bandeira palestiniana seja hasteada no Lido, depois de Alberto Barbera ter recusado a iniciativa invocando o protocolo institucional italiano. O coletivo responde que a própria Mostra apresenta filmes identificados como palestinianos e acusa a Bienal de deixar aos artistas o risco das tomadas de posição que a instituição prefere não assumir. É uma discussão incómoda, séria e inevitável num festival cuja programação o próprio Barbera já definiu como uma das mais políticas dos últimos anos. 

Asas brancas, Rupert Murdoch e o estado do mundo 

Entretanto, a passadeira vermelha cumpriu escrupulosamente a sua função constitucional. Bianca Balti apareceu com enormes asas brancas, demonstrando que mesmo num festival preocupado com guerras, autoritarismos e desigualdade de género continua a existir espaço para alguém chegar vestido como se Madonna tivesse produzido uma adaptação de Barbarella. Werner Herzog passou por ali, o júri desfilou, modelos pousaram, influencers trabalharam heroicamente os telemóveis e os fotógrafos voltaram a provar que nenhuma crise civilizacional resiste completamente a um bom decote. Greta Scarano e Nicolas Maupas conduziram a cerimónia admitindo algum nervosismo, uma raridade simpática numa indústria onde toda a gente costuma fingir que controla tudo. Depois entrou Ink, de Danny Boyle, sobre Rupert Murdoch, Larry Lamb e a transformação do The Sun numa máquina industrial de vender escândalo, sexo, crime e emoção. Convenhamos: abrir um festival dominado desde as primeiras horas por discussões sobre poder, verdade, manipulação e democracia com um filme sobre Rupert Murdoch já ultrapassa a simples coincidência. Parece programação editorial. 

Veneza começou assim: Clooney com o Leão, Maggie com perguntas, Barbera com problemas, Gaza sem bandeira, Bianca Balti com asas e Danny Boyle com Murdoch. O Lido pode continuar cheio de barcos privados, vestidos impossíveis, cocktails caros e fotógrafos a berrar nomes de estrelas, mas ninguém conseguiu fingir que 2026 ficou do outro lado da laguna. E estamos apenas no princípio.