A implantação da duplicata escritural abre uma janela para redução de risco e, consequentemente, para a oferta de crédito mais barato. A avaliação foi feita pelo CEO da ABBC (Associação Brasileira de Bancos), Leandro Vilain, durante entrevista ao Capital Insights, programa da Broadcast, em parceria com a CNN Brasil Money, que vai ao ar hoje, às 19h.
Ele explicou que o instrumento reduz incertezas e assimetrias, diminui a probabilidade de fraudes e de dupla cessão do mesmo recebível. "Isso se traduz em redução de risco para financiadores e abre a oportunidade do crédito mais barato", afirmou.
O novo modelo, de acordo com Vilain, tende a ampliar o acesso de pequenas empresas ao mercado de capitais e a melhorar a eficiência na concessão de financiamento ao formalizar, rastrear e dar maior segurança ao título de crédito.
O presidente da ABBC acrescentou que o mercado opera, neste momento, em fase de teste e que a implementação da duplicata escritural segue em evolução até o fim de janeiro, período em que sistemas e rotinas serão ajustados.
Ao tratar da inadimplência durante a entrevista, o executivo atestou que os atrasos nos pagamentos ganharam tração a partir do agronegócio, que teria sido o primeiro setor a dar alerta de deterioração. "A inadimplência se propagou para pessoas jurídicas", afirmou.
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Do lado das famílias, de acordo com o CEO da ABBC, a inadimplência da pessoa física ultrapassou 5%, patamar que ele classificou como "muito alto". Para o executivo, a queda gradual do juro ao longo do tempo pode oferecer algum alívio do endividamento, mas o processo exige estabilidade.
Vilain afirmou ainda que o mercado entendeu o alongamento da curva de juros e ponderou que a velocidade de queda da taxa básica "não é a que queríamos". Na avaliação do executivo, o desafio é calibrar o ciclo de crédito e de juros diante de um cenário ainda incerto.
"É difícil acertar o ponto certo para cortar crédito", disse, observando que o ambiente deve ser construído de forma a permitir que inflação e juros caiam sem criar instabilidade.
Vilain alertou, durante a conversa, que o país "pode estar se aproximando de uma crise fiscal" e que a sensibilidade do mercado ao tema pode levar a uma pressão sobre expectativas, curva de juros e condições financeiras.
O CEO da ABBC também comentou a rápida adaptação do país às inovações financeiras. Nesse contexto ele citou a rápida aceitação do PIX e do Open Finance.
"O Brasil adapta-se fácil às tecnologias digitais e sempre foi vanguarda na tecnologia bancária", disse, emendando que o PIX foi o motor do enorme movimento de inclusão financeira no Brasil e que os EUA têm que entender que o benefício desse instrumento é inegável.
Sobre o Open Finance, ele avaliou que o sistema é uma tentativa de atacar a falta de informação que encarece e dificulta a concessão de crédito no Brasil. Na sua percepção, esse mecanismo "ainda está numa jornada".
FGC x Banco Master
Sobre os desdobramentos do caso Master, Vilain afirmou que o FGC (Fundo Garantidor de Créditos) funcionou e que as instituições também responderam adequadamente à crise.
Ele disse que a ABBC trabalha com o Banco Central em aperfeiçoamentos regulatórios e lembrou que o regulador editou medidas de conservadorismo para emissores.
Para o presidente da ABBC, o episódio reforçou a necessidade de monitorar a qualidade do ativo e de evitar que os bancos apliquem dinheiro de clientes em "alto risco".
Vilain acrescentou que há discussões em curso sobre o papel dos distribuidores e observou que a liquidação de instituições é a última alavanca a ser usada, citando que o BC pode atuar para evitar desfechos desse tipo. Uma boa notícia, de acordo com o executivo, é que o mercado está capitalizado e sem volatilidade.
Ele destacou, ainda, a maior resiliência do sistema, embora com desafios relevantes na frente de inadimplência, juros e incerteza fiscal.