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Mas o que aconteceu depois? Conte.
O que aconteceu? Aconteceu que eu fui dar com ele no armário. Esteve escondido lá dentro durante horas, com medo de ser apanhado. Mas esperto, como tinha tudo planeado, levou uma data de caixas de bolachas para quando lhe desse fome. E comia devagarinho, a tentar não fazer barulho. E foi assim que eu descobri, porque eu comecei a ouvir um rato dentro do roupeiro. Era o meu Zé. Era o meu Zé a roer as bolachinhas.
E isso acontecia muitas vezes, esconder-se de vocês?
Não. Naquela altura ainda era pequenito, embora já tivesse bem a noção das malandrices que fazia.
Mila, mas que tipo de malandrice é que estamos a falar?
Dessa vez, foi ter partido o prato sem querer. Coitado. Depois à medida que ia crescendo, ia arriscando mais. Atirava balões de água para os vizinhos no Carnaval, ia atrás dos pássaros do jardim com a pressão de ar. Rapazes.
Isso numa altura em que a Mila já se tinha separado de Vicente Valbom, certo?
Sim, mas estas coisas também aconteceu na minha casa.
Mila, como é que acha que ele reagiu ao vosso divórcio? Que era muito novinho.
Era pequenino. O meu Zé, 23 aninhos. Na altura não teve a noção do que estava a acontecer. Quer dizer, acho eu. Pelo menos nós fizemos tudo para não mostrar que estávamos separados. Depois a coisa azedou quando o Vicente teve a Margarida com a sua nova mulher. Mas mais tarde, encaixou-lhe bem o papel de irmão mais velho.
Falou no medo que ele tinha de ser apanhado. As malandrices do Zé davam direito a castigo?
Não eram bem castigos. Se ele fizesse alguma coisa que nós não achássemos correta, havia uma conversa sobre isso e normalmente eram retirados os privilégios sobre o brinquedo mais querido durante um período de tempo. PlayStation, os treinos de futebol, o carro.
Mila, e entre si e o Vicente, quem é que era ou quem é que continua a ser o mais permissivo? A Mila acha que ele se portava de forma diferente quando estava com um ou com o outro, depois do divórcio?
O que eu lhe posso dizer? Cada um de nós deu-lhe a educação que achou que era a melhor.
Eu só sei que é muito meu filho e estou a morrer de saudades dele. E de certeza que ele também ama muito a senhora. Mila, é impossível imaginar como se sentirá uma mãe que não sabe do paradeiro do filho há um mês. Mas todos aqui neste estúdio acreditamos que ele está bem, que vai correr tudo bem com ele, consigo. Estamos aqui para si. Mila, estamos aqui a ver algumas fotografias do Zé, bem novinho. Aqui esta, por exemplo. Cá para mim, o rapaz tem os olhos do pai, não acha?
Talvez. Mas também tem muitas coisas da mãe.
Tem. E aqui esta foto com ele, um bocadinho mais velho, abraçado à irmã, Margarida, que também é conhecida por Guigas. Outra na praia com o pai, o Vicente. Muitos giras, que boas memórias, de certeza. Mila, só responda se quiser, como é óbvio, mas temos que falar aqui sobre um incidente recente, muito grave, que aconteceu. Como é sabido, Vicente Valbom foi vítima de um atentado no Fórum Lisboa, mas felizmente encontra-se bem, livre de perigo, a recuperar no Hospital de Santa Maria. Mila, apesar de tudo o que já passou com o seu ex-marido, ficou preocupada quando soube o que lhe aconteceu, imagino eu.
Não desejo mal a ninguém.
Pois, claro. E como é que soube do acontecimento?
Na televisão. Vi na televisão.
E não ficou desolada?
Eu acho que toda a gente sabe que o Vicente é um homem, como é que eu vou dizer isto? É um homem especial. Diferente. Quem o conhece mesmo bem sabe que essa peculiaridade tem um lado mais negro.
O que quer dizer com isso?
Eu, como já lhe disse, eu não desejo mal ao Vicente, mas também não tenho pena dele. Isso não tenho. Fiquei feliz por saber que ele está bem, mas quer que lhe diga? Na verdade, isto do atentado não me surpreendeu. Sabe que mais? Acho que era uma questão de tempo até acontecer.
Sim, um atentado a um candidato à Câmara de Lisboa não acontece propriamente todos os dias.
Pois, mas quando o Vicente quer muito uma coisa, não olha a meios para chegar lá. E esta história toda fez-me pensar se não terá sido uma resposta a algo que ele fez antes. Não sei. É difícil dizer isto em voz alta e ouvir-me, principalmente estando aqui, em direto, num programa de televisão. Mas aquilo que aconteceu ao Zé, aquilo que aconteceu ao meu Zé eu quase que chego a culpar meu ex-marido por ele ter sido raptado.
"O Candidato Perfeito" é um podcast de ficção para ouvir em oito episódios. Uma coprodução Coyote Wadi e Observador, de autoria de David Neto e Manuel Pureza. Com as vozes de José Raposo, Tiago Tiotónio Pereira, Susana Brandão, Madalena Almeida e a minha, Paulo Calatré. A música do genérico é de Artur Costa. Episódio seis: Ao Vivo.
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Houve um atentado. A violência política é absolutamente inaceitável, independentemente das afiliações partidárias, das escolhas políticas de cada um, a segurança dos cidadãos, dos portugueses, tem que ser uma prioridade. Portanto, enquanto não nos sentirmos seguros, perdemos tudo. Um agradecimento à convidada de hoje, Mila Sousa, por ter estado conosco numa altura particularmente difícil da sua vida. Muito obrigada, Mila.
Obrigada eu. Também foi um gosto ter estado aqui à conversa consigo.
E nós voltamos amanhã, depois do jornal do almoço. Muito obrigada por estar sempre conosco. Até amanhã.
Vicente, não devia estar a ver isso.
Este otário foi brilhante. Já a Mila, enfim.
Trouxe o que pediu.
Maravilha.
Como é que se sente?
Estou ótimo. Pronto para fazer um Ironman.
Bem, a polícia parece um bocado perdida com tudo isto. Tenho um contacto na PJ que me disse que o homem detido vai ser transferido hoje para Monsanto. Ainda ninguém percebeu se ele teve ou não interferência direta no ataque.
A mim ninguém me chega. Sou uma velha raposa. E sempre bem acompanhado por esta jovem raposa. Sofia, eu preciso que me vejas aqui os sinais vitais. O que foi? Foi o primeiro ataque que presenciaste? Vieste só trabalhar, então. Como é que está a ser a reação dos media a isto?
Bem, estaria a mentir se não dissesse que isto nos está a ajudar. O Vicente foi vítima do ataque mais mediático do século. Ganhou a compaixão de muita gente que não gostava de si.
Só não ganhei a compaixão da minha ex-mulher. Lembra-me de ligar à Mila assim que sairmos daqui. Vá, chama lá o médico para me vir dar alta.
Vicente, eu não quero insistir, mas acha mesmo que é boa ideia sair já do hospital?
Sofia, deixa-te disso, foi só um raspão. O gajo aprendeu a disparar naquele jogo, a mandar tirinhos às naves no Spectrum.
É a sua vida que está em jogo, Vicente.
Eu vou tentar dizer isto de uma maneira, como é que vocês dizem agora? Usando comunicação não violenta. Agradeço a tua preocupação com a minha vida e com a minha saúde, mas já te provei algumas vezes que sou um gajo rijo, ou não? Por que achas que eu te fui buscar para liderar isto?
Porque acredita no meu trabalho.
E qual é o objetivo principal do teu trabalho?
Elegê-lo como presidente da Câmara.
Ora bem. E o que é que um futuro presidente da Câmara não faz?
Como assim não faz?
Não fica numa cama de hospital a gemer porque levou meia dúzia de pontos no ombro. Chama lá o caralho do médico para ele me tirar daqui. Temos muita coisa para fazer. Nunca vi tanta gente na rua a seguir um transporte.
Estás contente? Era isto que querias, não era? Ter a atenção de toda a gente.
Não, agora já não tens vontade de dar à língua?
Sabes qual é o problema de haver tanta câmera atrás de ti? É que de certeza que já toda a gente sabe que agrediste um polícia. Vou gostar de ver como é que os guardas de uma prisão de segurança máxima te recebem depois de terem visto isto nas notícias.
O que faz mais confusão isto tudo, sabes o que é? Como é que um gajo da rentela, desempregado há sete anos, consegue chegar a um dos gajos mais ricos do país?
Não é por isso mesmo? Não tem nada a perder.
Mas pra que tudo isto? Sabes que o Valbom Henrique é um cara de cu?
Estás bem, Vicente? Vicente?
Está a ficar verde. Para a carrinha! Eu não posso parar a carrinha aqui, inspetora. Para a carrinha, homem, vai-te sensuciar. Mas eu não--
Carros de apoio, daqui é carrinha de transporte. Nós temos que parar imediatamente, que o passageiro está a passar mal.
QSL transporte, vamos parar e comunicar, chamam uma ambulância. Transporte, estás à escuta?
Não, por favor. Ambulância não.
Então, o que se está a passar?
Vocês, eu avisei-vos. Eu disse que quem está atrás disto é alguém muito acima.
Mais acima de quem? Quem é que se está a pagar, caralho? Pare a carrinha!
Rádio Informa, é a nossa estação.
Interrompemos o programa para dar conta de uma notícia de última hora. Após grande aparato na saída do detido no caso do desaparecimento de José Valbom rumo ao estabelecimento prisional de Monsanto, a carrinha que o transportava parece ter parado na berma da Avenida Fernandes Neto. Ainda não se sabe a razão para tal ter acontecido, mas ao aparelho policial que acompanhava o transporte, juntaram-se ainda mais carros de polícia que prontamente cortaram a via em ambos os sentidos. Isto causou o caos numa das artérias mais movimentadas de Lisboa. De momento, ainda não se verificou a chegada do Centro de Inativação de Explosivos e Segurança em Subsolo, mas não se exclui a possibilidade de existir um engenho explosivo. Este é mais um acontecimento pouco comum associado ao atentado a Vicente Valbom, pai do desaparecido José Valbom e candidato à corrida à Câmara Municipal de Lisboa. Estamos em constante contacto com o local e voltaremos a esta notícia assim que houver desenvolvimentos.
Rádio Informa é a nossa estação.
Quem diria que levar com um balázio de raspão trazia tanto amor e carinho do eleitorado? Já viste estas manchetes?
Sim, não se fala de outra coisa.
Se não desistiu da campanha quando o filho foi raptado, é mais do que garantido que não vai desistir agora. Esta malta dos comentários não é parva, não senhor.
O assessor do Aníbal Freitas escreveu-me. Diz: "Estamos dispostos a adiar o debate das rádios até que o engenheiro Valbom se sinta em condições para o fazer." Pronto, já deve saber que teve alta.
Estão por tudo, esses cabrões. Não respondas. Deixa-os tremer. Vamos aproveitar a onda de amor e carinho à vítima do atentado. Esta deve ser a única pessoa do país que quer que eu tome um banho de imersão com uma torradeira ligada. Mas que merda foi aquela de eu ser culpado? Andas a partir os comprimidos em pó e a metê-los pelo nariz, ou o quê? Tens um gajo a comer-te das mãos durante a entrevista toda, só a fazer perguntas de merda e a dar todas as oportunidades para brilhar e tu fechas o programa a dizer aquilo, estás parvo ou o quê? Não digas asneiras. Não fosse eu ter sido vítima de um atentado e ainda me fodias isto na última volta. Não. O que é que eu ia lá ficar a fazer? A ver as notícias num cubo preso à parede e a comer gelatinas e sopa sem sal? Vamos a caminho. Não. Porque não, Mila, já te disse. Sofia, faz-me um favor. Nunca te cases e divorcies. Já nem me lembro porque é que casei com esta gaja. Porque era novo e estúpido, foi isso. Não vai acontecer nada. Já te disse, Mila, fica descansada, ele vai aparecer. Tenho a certeza. Não há de faltar muito.
Uma subida constante no preço não apenas dos recursos energéticos, mas também de alguns bens alimentares, resultante da intervenção militar que se prolonga há mais de um ano. Por cá, o candidato à presidência da Câmara Municipal de Lisboa, Vicente Valbom, saiu hoje do Hospital de Santa Maria, onde esteve brevemente internado após ter sido vítima de um atentado durante um comício de campanha.
Vai ser uma recuperação atípica, porque eu não posso parar. Tenho de continuar na estrada, a falar com os lisboetas e ouvir o que querem e o que precisam pra voltarem a sentir que nossa cidade é o melhor lugar pra viver. Como já foi no passado e infelizmente agora está longe disso.
Está a falar da segurança de Lisboa, Vicente Valbom. Acha que o ataque de que foi vítima, de certa forma, sublinhou este tema, que tem sido uma bandeira da sua candidatura?
Eu quero agradecer o cuidado e a atenção de toda a equipa médica do hospital, que me atendeu com um profissionalismo e uma simpatia exemplares e que, de certa forma, me deram força pra continuar esta empreitada, reta final até às eleições de domingo.
O seu adversário contactou-o, desejou-lhe as melhoras?
Sim, a minha equipa foi contactada pela equipa do senhor Aníbal Freitas, a quem agradeço a preocupação com o meu estado de saúde, mas aproveito a oportunidade aqui convosco para lhe responder que eu estou muito bem e pronto pra luta.
Sou? Estava a ver que me atendias.
Estás a ver as notícias? O meu pai já saiu do hospital. Como se não chegasse tudo o que aconteceu até agora, o senhor engenheiro ainda é vítima de um tiroteio. Às vezes parece que estou a viver numa simulação. No outro dia fui à Labareda. Tenho a certeza que já conhecia o nome de algum lugar. Tu já lá foste?
Não, Guigas. Não tenho o hábito de ir a clubes de strip. Não tinha, pelo menos, agora é mais difícil.
Mas sabias que era um puticlub.
Precisas de alguma coisa? Ligaste com alguma intenção ou foi só para me pores ao corrente da atualidade?
Calma, Filipe. Não é preciso falares comigo dessa maneira. Queria conversar, fazer-te companhia.
Não é preciso. Não te esqueças que tenho um gato. E o PornHub.
Porra, ainda bem que essa pulseira eletrónica não é no braço. Se você imagina o GPS na aplicação: cima, baixo, cima, baixo. Tipo uma suricata à espreita na savana.
Não sejas parva. Sabes perfeitamente que a minha alcunha no liceu não era suricata, era le pistón.
Também calma. Eu só te conheci na faculdade, mas quanto muito eras o ioiô.
Eish.
Mas agora que já podemos fazer piadas sobre isto, posso começar a ler as que tenho aqui na lista?
Vai, arranca.
Sentes que agora finalmente estás a cumprir o que o teu pai sempre disse, que não vais a lado nenhum, literalmente.
Eish, Guigas, tu és fundo.
Então e esta: sabes que bateste no fundo quando olhas para baixo e vês que não-- Espera aí que chegou alguém com pressa. Calma, já vai! A sério, desde que o meu pai se meteu nesta merda das eleições.
Guigas? Guigas? Guigas, então?
Quem é?
"O Candidato Perfeito" é um podcast de ficção para ouvir em oito episódios, produzido pela Coyote Vadio e pelo Observador. É escrito por David Neto e Manuel Pureza, com realização de Manuel Pureza, direção de elenco de Rita Tristão da Silva e assistência à realização de Clara Godinho. A direção de som, sonoplastia e música do genérico são de Artur Costa. José Raposo é Vicente Valbom, Tiago Teotónio Pereira é José Valbom, Madalena Almeida é Margarida Valbom, Vera Moura é Sofia Rito, Paulo Calatré é João Durães, Susana Brandão é Teresa Macedo, Sara Matos é Inês Oliveira, Vicente Wallenstein é Filipe Delgado, Pedro Laginha é César Pontes, Carla Andrino é Mila Valbom, Francisco Beatriz é Aníbal Freitas. Este episódio tem participação especial de Carla Jorge de Carvalho, Miguel Cordeiro, Ricardo Conceição, Rita Camarneiro, Clara Godinho, Manuel Pureza e Rita Tristão da Silva.