Embora não tenha as condições para governar sozinho na Alemanha - onde nenhum partido da extrema-direita chegou ao poder desde 1945 -, a AfD obteve 44,3% dos votos, um resultado histórico que está a transformar o panorama político do país.
Um eufórico Ulrich Siegmund, candidato da AfD ao cargo de primeiro-ministro, declarou na festa eleitoral do partido que "esta é uma noite histórica".
"Fizemos história. Este é um sinal para toda a Alemanha. É um movimento que atravessa todo o país. É claro que temos um mandato para governar. Estenderemos a mão àqueles que quiserem solucionar connosco os problemas que foram criados neste país", afirmou.
A copresidente do partido, Alice Weidel, afirmou com um sorriso rasgado que "com Uli Siegmund, temos o primeiro-ministro da Alemanha".
"Vamos assumir a responsabilidade de governar aqui na Saxónia-Anhalt e também a nível federal, o mais tardar após as eleições gerais de 2029", acrescentou o também membro do partido, Tino Chrupalla.
A AfD venceu em 2024 as eleições no estado federado da Turíngia, no leste do país, mas não chegou a governar devido ao "cordão sanitário" formado pelos outros partidos.
A euforia da liderança do AfD não é surpreendente, tendo em conta que, nas eleições legislativas federais de 2025, o partido se tornou o segundo maior a nível nacional - ou seja, o líder da oposição - e lidera atualmente as sondagens das intenções de voto.
O candidato da União Democrata-Cristã (CDU) na Saxónia-Anhalt, o primeiro-ministro Sven Schulze, mostrou-se dececionado com o resultado do partido, reduzido para metade, para 17%, em comparação com 2021, reconhecendo que o partido sofreu "um duro golpe".
"O vencedor das eleições, o AfD, é agora a força política mais forte no parlamento estadual da Saxónia-Anhalt", admitiu, acrescentando que os líderes partidários no estado federado, "e não só, devem agora enfrentar" o resultado.
O líder do grupo parlamentar da CDU na câmara baixa do parlamento federal (Bundestag), Thorsten Frei, considerou a clara vitória do AfD "um ponto de viragem para o país".
"Nunca antes vivemos uma situação em que um partido classificado como `extremista de direita`, confirmado pelo Gabinete Regional para a Proteção da Constituição tenha obtido uma maioria", sublinhou.
Lars Klingbeil, o colíder do Partido Social-Democrata (SPD), que obteve 9,2% dos votos, afirmou: "O resultado é também um motivo para refletirmos sobre as políticas que seguimos aqui em Berlim, sobre o rumo reformista do Governo federal" de coligação entre conservadores e sociais-democratas.
O resultado implica que poderá haver uma maioria sem a AfD, mas a sua contundente vitória torna pouco viável uma aliança estável de vários partidos, na qual teriam de participar um partido conservador como a CDU, do chanceler Friedrich Merz, e uma formação de origem marxista, como A Esquerda, a quinta força política, com 8,5% dos votos até agora escrutinados.
A secretária-geral da CDU, Franziska Hoppermann, reiterou: "Não se podem manter conversações sérias com um partido que tem um problema grave de antissemitismo, que quer um modelo de sociedade completamente diferente do nosso e que nos acusa de fazer política fascista".
A líder do grupo parlamentar do partido A Esquerda no Bundestag, Heidi Reichinnek, afirmou que a CDU tem agora de decidir "de que lado da história está".
Os Verdes obtiveram cerca de 8,9% dos votos e o FDP, partido liberal que fazia parte do Governo de coligação de Sven Schulze juntamente com o SPD, não conseguiu entrar no parlamento regional, ao passo que a pró-russa Aliança Sahra Wagenknecht (BSW) garantiu um lugar por uma estreita margem, com 5,2% dos votos.
Com a entrada do BSW no parlamento regional, o AfD ficou ainda mais distante da maioria absoluta de 42 mandatos. No entanto, a CDU, A Esquerda, os Verdes e o SPD também não têm maioria absoluta, o que faz dos populistas de esquerda uma força potencialmente decisiva no parlamento da Saxónia-Anhalt.
A linha que o partido defendeu, e que no domingo foi reiterada pela copresidente do BSW, Amira-Mohamed Ali, é a de eleger um Governo de especialistas e suprapartidário que governa com maiorias variáveis e em diálogo com todos os partidos.
Também é possível outro cenário: que Ulrich Siegmund seja eleito primeiro-ministro numa terceira votação no parlamento, na qual só necessitaria de uma maioria simples, o que será possível se não houver um acordo entre os outros partidos.