FMI trocou Ricardo Reis por argentina para alto cargo - 10/09/2026 - Economia - Folha

O FMI (Fundo Monetário Internacional) descartou, na última hora, o principal candidato a se tornar seu novo economista-chefe após descobrir que ele havia feito críticas às políticas econômicas do presidente dos EUA, Donald Trump, segundo pessoas informadas sobre o processo.

O fundo preparava, no início deste verão no Hemisfério Norte (inverno no Brasil), o anúncio de que Ricardo Reis, professor da LSE (London School of Economics), assumiria o cargo de diretor de pesquisa e conselheiro econômico quando, de repente, recuou. A mudança de última hora foi motivada por declarações anteriores do português em que ele criticava as tarifas comerciais norte-americanas, disseram três pessoas a par do assunto ao Financial Times.

Em julho, o FMI nomeou para o cargo a argentina Silvana Tenreyro, ex-integrante do comitê de política monetária do Banco da Inglaterra e outra economista altamente conceituada da LSE. Tenreyro assumiu o cargo no mês passado.

Reis é citado com frequência sobre questões econômicas pela imprensa portuguesa e internacional. Após o anúncio das tarifas do "dia da libertação", em 2 de abril, pelo presidente dos Estados Unidos, em abril do ano passado, O português alertou que as cobranças elevariam os preços para os consumidores norte-americanos e desencadeariam uma nova onda de inflação.

Embora a diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, seja responsável pelas nomeações para cargos de alto escalão na instituição, os Estados Unidos podem exercer forte influência informal por serem seu maior acionista. Georgieva abandonou a prioridade por igualdade de gênero e mudanças climáticas após ser criticada pelo secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, que pediu ao fundo que se concentrasse em suas responsabilidades centrais: a estabilidade macroeconômica e financeira.

A retirada de Reis da disputa gerou preocupação entre algumas das pessoas informadas sobre o assunto quanto à possibilidade de o cargo ser entregue a um economista com vínculos com o governo Trump, embora esses temores tenham diminuído após a nomeação de Tenreyro, em julho. Tanto o português quanto a argentina publicam seus trabalhos com frequência nas revistas acadêmicas de economia mais seletivas.

Em abril do ano passado, Reis alertou no X (antigo Twitter) que o peso das tarifas do "dia da libertação" recairia sobre os consumidores norte-americanos, opinião amplamente compartilhada por economistas.

Um mês depois, ele previu que "os preços nos Estados Unidos vão subir por causa das [...] tarifas", em um podcast da instituição portuguesa de pesquisa Fundação Francisco Manuel dos Santos e apontou que as tarifas de Trump "elevariam imediatamente os preços dos produtos importados" e também tornariam a produção nos Estados Unidos "mais difícil, mais cara e mais ineficiente".

Tenreyro também afirmou que as tarifas teriam impacto negativo sobre o crescimento, mas fez críticas menos contundentes do que Reis.

Um porta-voz do FMI não quis comentar o processo de contratação para o cargo de economista-chefe e disse ao FT que a organização seguia uma prática de "sigilo rigoroso sobre as identidades ou os detalhes específicos dos candidatos concorrentes" e que o processo seletivo para o cargo havia sido "rigoroso e competitivo".

O FMI estava "muito satisfeito" com a nomeação de Tenreyro, acrescentou o porta-voz. "Ela traz ao fundo uma rara combinação de excelência acadêmica e ampla experiência na formulação de políticas monetárias e macroeconômicas."

Reis não quis comentar.

O episódio reflete temores mais amplos sobre o tratamento dado nos Estados Unidos a economistas e acadêmicos, muitos dos quais criticaram as políticas comerciais do governo Trump.

No ano passado, Trump instou o presidente-executivo do Goldman Sachs, David Solomon, a demitir o economista-chefe do banco, Jan Hatzius, depois que este afirmou que as tarifas prejudicariam a economia dos EUA.

Folha Mercado

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No início deste ano, o assessor de Trump na economia Kevin Hassett disse que economistas do Fed (Federal Reserve, o BC dos EUA) de Nova York deveriam ser "punidos" por um relatório que sustentava que empresas e consumidores norte-americanos estavam arcando com a maior parte dos custos das tarifas dos EUA. Mais tarde, Hassett recuou parcialmente em suas declarações.

As tarifas estão no centro da estratégia econômica do governo Trump para impulsionar a indústria dos Estados Unidos.

Embora muitas das tarifas mais agressivas tenham sido consideradas ilegais pela Suprema Corte no início deste ano, o governo continua usando o comércio como instrumento para punir tanto inimigos quanto aliados. O mais recente foi o Canadá, que passou a ter uma sobretaxa de 50% sobre seus produtos após fracassar as negociações com o governo Trump.

A inflação nos Estados Unidos está agora em 3,7%, quase o dobro da meta do Fed, em parte devido ao impacto das políticas comerciais e da guerra no Irã sobre os preços ao consumidor.

O principal conselheiro econômico do FMI lidera uma equipe de mais de 100 economistas e ajuda a definir a agenda de políticas da instituição. O papel central do fundo na promoção do livre comércio, juntamente com a integração financeira, é visto por muitos como incompatível com a ênfase do governo Trump em tarifas e segurança econômica nacional.

Em entrevista ao FT em junho, Pierre-Olivier Gourinchas, antecessor de Tenreyro, afirmou que a economia mundial corria riscos devido à guerra econômica de "retaliações sucessivas" que estava eclodindo entre os países.