
Filipa AraújoVice-Presidente Interna da JUNITEC - Júnior Empresas do Instituto Superior TécnicoSetembro 10, 2026 12:58
Por Filipa Araújo, Vice-Presidente Interna da JUNITEC – Júnior Empresas do Instituto Superior Técnico
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Durante anos, Portugal incentivou os jovens a apostar em áreas caracterizadas pela inovação, como as engenharias, a tecnologia ou as ciências. Hoje, os profissionais destes setores tornaram-se dos mais desejados pelas empresas, de forma a dar resposta aos desafios associados à transformação digital. Não obstante, apesar da elevada procura por parte das organizações, muitos jovens continuam a considerar o estrangeiro como o destino mais provável (e favorável) para iniciar e construir uma carreira.
Nas últimas décadas, Portugal fez um investimento significativo na qualificação das novas gerações. Segundo o estudo ‘Ensino superior e emprego jovem em Portugal: tendências, resultados e comparações internacionais’, publicado em maio deste ano pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, a percentagem de jovens com ensino superior aumentou de cerca de 11% em 1998 para 43% em 2024. Este avanço representa uma conquista incontornável, criando uma geração com competências fundamentais para responder aos desafios de setores estratégicos, como a indústria tecnológica, a energia, a mobilidade ou o setor aeroespacial. Ainda assim, persistem as dificuldades em transformar as qualificações do talento jovem em oportunidades profissionais que estejam à altura da ambição de quem estudou.
O ‘Education and Training Monitor 2025’, da Comissão Europeia, demonstra que, paralelamente, Portugal tem intensificado o investimento nas áreas CTEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), com uma percentagem de estudantes do ensino superior acima da média europeia. No entanto, o país enfrenta dificuldades em responder às necessidades destes profissionais especializados, principalmente nas áreas da engenharia e tecnologias de informação. Parecem existir, de facto, ainda algumas barreiras para atrair e fidelizar o talento português, que encontra, muitas vezes, no estrangeiro, condições profissionais mais atrativas.
A engenharia é um dos melhores exemplos desta realidade. Atualmente, Portugal depende de engenheiros para áreas e funções fundamentais, como desenvolver tecnologia, modernizar a indústria ou responder a desafios associados à transição energética. Mas uma carreira não se constrói apenas com uma vaga de emprego: os jovens engenheiros querem projetos que os desafiem e alinhados com os seus valores, equipas que valorizem novas ideias, condições de trabalho flexíveis e uma cultura aberta e inovadora.
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A somar a estas necessidades, a remuneração surge como um fator decisivo. Um estudo da Randstad sobre a Geração Z no mercado de trabalho, divulgado em junho de 2026, revela que cerca de 93% dos jovens em Portugal consideram que os salários praticados não são justos face ao custo de vida, num contexto em que a habitação e a perda de poder de compra condicionam cada vez mais a autonomia das novas gerações. Mesmo em áreas onde existe, em Portugal, grande procura por profissionais, a diferença salarial em relação a outros mercados europeus faz com que muitos jovens decidam realocar as suas carreiras para o estrangeiro, obtendo maior independência financeira e condições de trabalho mais alinhadas com as suas necessidades.
Perante esta realidade, Portugal deve ambicionar ser um país onde faça sentido ficar. Empresas, universidades e decisores políticos são peças-chave na criação de percursos profissionais mais promissores, na aproximação entre conhecimento e mercado e no desenvolvimento de ecossistemas onde a inovação possa florescer. É crucial ouvir as necessidades dos jovens e proporcionar condições para que estes possam ficar e inovar dentro do próprio país.
No final, a questão não é como impedir os jovens de partir, mas sim como criar espaço para que concretizem o seu potencial. Reter talento não significa, por isso, pedir aos jovens que escolham Portugal por obrigação, mas, antes, fazer com que permanecer seja uma escolha naturalmente mais atrativa.