Francisco Balsemão, o senador

Do Le Monde, L’Express, Nouvel Observateur, Libération, aos gigantes norte-americanos, passando pelos vizinhos europeus, espanhóis, alemães, ingleses, italianos. Como — por exemplo — foi o caso de Oriana, não a fada mas a Fallaci, que foi expressamente contar ao dr. Balsemão que Cunhal, dez minutos antes, acabara de lhe garantir que “nunca haveria em Portugal uma democracia burguesa”: Cunhal fizera-o nesse dia e ao vivo, diante do gravador da jornalista, na sede do PCP em Lisboa. Sim, a grande plateia internacional da comunicação pasmava — eu vi — ao ouvir aquele director, doublé de proprietário, doublé de político… ao mesmo tempo que se estarrecia face ao que no exterior do edifício do Expresso, com vista para o Marquês de Pombal, ia ocorrendo, país fora: golpes, inventonas, prisões, ocupações de vespertinos, assaltos a rádios, saques a embaixadas, greves diárias, manifestações e contramanifestações, um parlamento sequestrado, a quase asfixia de Lisboa, um país dividido: no norte havia mocas e incendiavam-se sedes comunistas, no sul fervia a revolução no caldo de esquerdas inimigas. A imprensa estrangeira estarrecia-se, nós não tínhamos tempo: ouvíamos, reportávamos, contávamos, entrevistávamos, 24 horas non stop. De tal forma que um dia o “Dr. Balsemão” percebeu que era preciso outro Expresso, para escoar a prodigamente vertiginosa informação que a Rua Duque de Palmela atraía como absolutamente mais ninguém no país, mas que não durava até ao sábado seguinte!

Chamou-se “Expresso Extra”, existiu no fogo de 1974/5 e “saía” às quartas-feiras.

5. Francisco Balsemão respirava informação, possuía um agudo sentido da notícia, sabia construí-la, tinha a boa percepção dos tempos e dos ritmos da entrevista, uma curiosidade imparável, “cheirava” bem o ar, aspirava bem o tempo. Tinha faro, intuição, talento. Tinha paixão. Sempre ofegante, apressado, desorganizado, impontual — nunca o conheci de outra maneira — era por vezes leve, por vezes ligeiro. Não parece ter tido grande importância: jornalista dos pés à cabeça, adorava o que fazia e fazia-o bem.

E era hábil. Recordo — e hoje sorrio — como “convivia”, e aparentemente até com placidez, numa espécie de tácita “aliança” entre o então PPD e um assanhado MRPP maioritário na redação, para o qual os comunistas do PCP eram os odiados “revisionistas” (eram piores que isso, claro), o PS era “fascista”, o PPD não tinha direito de cidade, vomitavam o CDS. Mas, no número 37 da Duque de Palmela, o casamento de conveniência entre o maoísmo militante e os patrões do PPD vigorou, espantando o mundo: produzia-se o melhor jornal desse tempo (e do seguinte).

Mas o patrão, sem nunca perder as boas maneiras, às vezes zangava-se mesmo. Não gostava do erro, detestava o atraso. Era ouvi-lo, clamando penosamente pelos corredores que “aquilo não era o Scala de Milão”, quando de manhã deparava com salas semivazias e à tarde com estados de alma variados — ele queria jornalistas e não tenores. O certo é que tais estados de alma — reais, muitas vezes — arriscavam a hora da saída das diversas prosas rumo à gráfica Mirandela que era, nesses tempos de glória e inferno, onde se imprimia o jornal. À sexta-feira à noite alguns de nós esperavam no restaurante Pabe, na porta ao lado do Expresso, ou em mais modestas moradas, que o jornal se materializasse, como um pão saindo do forno. Com uma ânsia reeditada a cada edição; com uma epifania ao manusear o papel aberto diante de nós.

6. Um dia, no seu amplo gabinete, enquanto me ditava uma “notícia” com o objectivo de testar os meus (sofríveis) conhecimentos na matéria — mal tinha entrado no Expresso — vendo-me pôr papel na máquina de escrever, travou-me o gesto: “Aqui escreve-se sempre dos dois lados do papel… É para poupar”. O efeito era horrível, mas que importância? “Poupava-se.”

E, depois, passou a mandar-me — era o termo — a todo lado: que reportasse o que visse e ouvisse! Dos quartéis que eu frequentava como se fossem pastelarias, às noitadas no Restelo, no prédio alto onde então habitava o Conselho da Revolução; do COPCON, aos comandos militares do país; dos Passos Perdidos da Assembleia da República às sedes dos partidos políticos onde entrevistava, um após outro, os seus líderes, deputados, estrategas: toda essa gente, enfim, pronta a construir o edifício da democracia civilista e pluripartidária que tão a custo se tentava erguer.

O primeiro-ministro

7. Segunda história: o voto democrático venceu a rua revolucionária, Mário Soares ganhou as primeiras eleições de Abril de 1975 e um ano depois as legislativas: havia uma Constituição, iria haver um Parlamento, um governo, um Presidente da República, num concerto de votos livres e democráticos.

E em 1979 Francisco Sá Carneiro escreveria a terceira história. Contra ventos e marés, e cercado por todos os lados — políticos, militares, partidários, mediáticos — o líder da primeira Aliança Democrática ganhou, governou, voltou a ganhar. E mercê de uma tragédia nacional, corporizada num avião que não devia cair, Francisco Sá Carneiro seria substituído por outro Francisco no comando do país e do PSD. A substituição não foi amável: não fora automático, pelo contrário, convencer o partido de que seria ele o autor do resto da terceira história. A bênção de que necessitava como “sucessor natural” não fora nem rápida, nem unânime.

Mesmo apesar de Eanes ter feito saber ainda antes da sua reeleição para a Presidência da República que o “sucessor” era Balsemão, e apesar do poderoso apoio de Alberto João Jardim (Madeira) e Mota Amaral (Açores), amparados nas principais estruturas do PSD, o céu da AD estava nublado. Ou eram as veleidades do próprio Freitas do Amaral, líder do CDS então coligado com o PSD, em sentar-se em São Bento; ou era o grupo de alguns ex-ministros do PSD — “fidelíssimos” a Sá Carneiro — devidamente coligado com a oligarquia centrista, preferindo vê-la na chefia do futuro governo; ou era ainda esse influente Eurico de Melo que defendia o ex-titular das Finanças, Aníbal Cavaco Silva, para chefiar o futuro governo, opondo-se assim a qualquer outro nome.

Balsemão suava.