MPDFT recebe denúncias e abre apuração de supostos crimes da médium Maira

Na Mira

Após receber denúncia, MP instaurou notícia de fato para apurar caso. PCDF também realiza inquérito civil para investigar conduta de médium

01/09/2026 02:32

Metrópoles
MPDFT recebe denúncias e abre apuração de supostos crimes da médium Maira

O Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT) recebeu, por meio da ouvidoria, denúncias contra Maira Rocha, médium que comanda a Casa de Caridade Inácio Daniel, localizada em Águas Claras, no Distrito Federal. Ela é acusada — por dezenas de vítimas — de forjar cartas psicografadas de pessoas falecidas. 

O órgão instaurou uma notícia de fato e a Promotoria de Justiça Criminal vai analisar os casos. A informação foi confirmada pelo MPDFT ao Metrópoles nesta segunda-feira (31/08). 

“O MPDFT recebeu manifestação com informações sobre supostos crimes atribuídos a Maíra Alexandrina (nome de Maira Rocha). A partir do relato, foi instaurada uma Notícia de Fato, atualmente em análise por uma Promotoria de Justiça Criminal.”, informou o órgão.

A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) também abriu inquérito policial para investigar o trabalho da médium. 

“Informo que na presente Delegacia (11ªDP) encontra-se um inquérito instaurado para apurar os fatos que ocorreram na cidade do Núcleo Bandeirante no ano de 2019. Em que pese o extenso lapso temporal, o registro da ocorrência ocorreu no dia 21/09/2025 e a investigação encontra-se em andamento. Esta investigação que tramita nesta delegacia (11ªDP) possui apenas uma vítima”.

Psicografia imprecisa

Diversos ex-frequentadores e membros influentes do meio espiritualista afirmam categoricamente que as psicografias de Maira são profundamente imprecisas e repletas de conceitos errôneos e mal interpretados coletados às pressas na internet.

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Os atingidos explicam que, no auge do desespero, a imensa carga emocional impede a percepção imediata das falhas e das discrepâncias. Contudo, superado o impacto inicial, a constatação da má-fé se torna cristalina.

Diversos ex-frequentadores do centro espírita, que preferiram não se identificar, perceberam que as informações dos textos psicografados por Maira são retirados de postagens no Instagram, Facebook e outras redes. Algumas das mensagens, inclusive, contém informações falsas.

Em uma nota publicada no site oficial do lugar, a equipe explica como funciona a elaboração das cartas. De acordo com as regras, qualquer pessoa pode receber uma mensagem de um ente querido. Para isso, basta inserir o nome em um livro disponível nas sessões. Em seguida, é necessário comparecer a mais um evento e, “caso seja permitido à quem se foi ditar uma carta, a Maira irá escrever e te entregar”.

O serviço é gratuito, porém, não é garantido que todos irão receber o recado. Conforme explica a Casa de Inácio Daniel, “o telefone só toca de lá pra cá, ou seja, você só receberá a carta se quem for escrever tiver permissão para isso”.

Entretanto, muitos dos que receberam o serviço afirmam que a realidade não é bem essa. O conteúdo dos textos vêm de publicações feitas em alguma rede social, segundo relatos obtidos pelo Metrópoles.

É o caso de Paulo*, de 52 anos, que recebeu um bilhete de sua falecida mãe, Gabriela*. Ao ler o conteúdo escrito por Maira Rocha, ele se emocionou bastante, mas só depois percebeu que algumas informações estavam erradas e que outras haviam sido retiradas do Instagram e do Facebook.

O texto começa: “Meus amados filhos, lembro que quando pequenos eu ensinava a Salve Rainha com a régua na mão, era preciso viu”. Um comentário na conta pessoal de Gabriela no Facebook diz exatamente a mesma coisa: “Lembro como se fosse hoje, ela batendo a régua na perna e nos ensinando a Salve Rainha”.

O padrão segue ao longo de todo o texto. O problema maior é quando a carta, supostamente ditada pela falecida, cita o nome de uma neta que simplesmente não existe. A família acredita que é porque uma das noras fez algumas publicações falando que amava a filha, Fernanda*— só que esta é de outro casamento, ou seja, não é neta de Gabriela. A mensagem ainda esqueceu de mencionar o nome de alguns netos.

Uma contradição percebida pela família é que a Juliana*, irmã de Gabriela, usa o nome Julie na sua conta pessoal no Facebook, e esse mesmo apelido aparece no texto. No entanto, a família afirma que a mulher jamais teria chamado a irmã assim.

Outro trecho mostra que Maira realizava um verdadeiro trabalho de apuração antes das psicografias.  Um parágrafo — que foi retirado de uma comunidade de ciclistas no Facebook — demonstra que a médium realizava de fato uma pesquisa aprofundada sobre a vida da pessoa morta e todo o seu círculo social.

Maira buscava informações até mesmo em comunidades do Facebook

A mesma carta ainda traz mais duas similaridades com duas postagens feitas na rede social. A primeira parabeniza um dos filhos pela formatura na graduação. Um post aberto ao público repete a mesma informação.

Psicografia parece ter sido tirada de comentários do Facebook

Outro recorte mostra o mesmo filho comentando sobre como ele se parece com a mãe. A carta de Maira traz exatamente a mesma comparação.

Carta compara como filho se parece com mãe, após próprio filho fazer esse comentário publicamente