Gigante russo que processa 20 milhões de encomendas por dia é o novo alvo da Ucrânia

A importância da Wildberries vai além do comércio eletrónico. Juntamente com outras plataformas, representa o equivalente a 8,5% do Produto Interno Bruto russo e ocupa um papel central nos planos do Kremlin para estimular o crescimento económico num contexto marcado pela guerra

A Wildberries, a maior plataforma de comércio eletrónico da Rússia e frequentemente apelidada de “Amazon russa”, tornou-se alvo da ofensiva ucraniana. Nos últimos dias, a Ucrânia atacou quatro armazéns da empresa com recurso a drones, numa campanha que aproxima a guerra de milhões de consumidores russos e atinge uma das maiores engrenagens da economia do país.

Fundada há menos de duas décadas como um pequeno negócio familiar a operar a partir de um apartamento nos arredores de Moscovo, a Wildberries transformou-se na principal retalhista online da Rússia. A empresa afirma processar cerca de 20 milhões de encomendas por dia em centros logísticos que ocupam uma área combinada de três milhões de metros quadrados.

Em conjunto com a Ozon, a sua principal concorrente, a Wildberries sustenta uma parte significativa da chamada “economia de plataformas” russa, assegurando emprego a cerca de quatro milhões de pessoas, mais de 5% da força de trabalho do país.

Segundo a Reuters, os ataques poderão provocar perdas significativas para milhares de empresas que comercializam produtos através da plataforma, bem como perturbações para clientes que recorrem ao serviço para adquirir roupa, eletrodomésticos, medicamentos, cosméticos e outros bens.

A importância da Wildberries vai além do comércio eletrónico. Juntamente com outras plataformas, representa o equivalente a 8,5% do Produto Interno Bruto russo e ocupa um papel central nos planos do Kremlin para estimular o crescimento económico num contexto marcado pela guerra.

O responsável económico da presidência russa, Maxim Oreshkin, acompanha diretamente o setor e chegou a descrever plataformas como a Wildberries e a Ozon como uma nova forma de economia planificada, gerida por algoritmos em vez de instituições lideradas por pessoas, como acontecia na era soviética.

A empresa foi criada em 2004 por Tatyana Kim e pelo então marido, Vladislav Bakalchuk. Tatyana Kim, nascida em Grozny em 1975, no seio de uma família de origem coreana, trabalhou como professora de inglês antes de fundar o negócio. Mãe de sete filhos, apresenta-se como uma empresária autodidata que construiu o império graças à sua intuição e tornou-se, segundo a Forbes, a mulher mais rica da Rússia, com uma fortuna estimada em sete mil milhões de dólares.

Este ano, a empresa reforçou ainda mais a sua posição ao estabelecer uma parceria com o VTB, o segundo maior banco da Rússia, que adquiriu uma participação de 5% no WB Bank, o braço financeiro da Wildberries, com possibilidade de aumentar essa posição. Em paralelo, a empresa está a construir uma nova sede com 400 metros de altura no distrito financeiro Moscow City, que deverá tornar-se o edifício mais alto da capital russa quando estiver concluído, em 2030.

Moscovo tem acusado a Ucrânia de tentar criar instabilidade na sociedade russa ao atacar refinarias e infraestruturas logísticas, enquanto Kiev sustenta que as operações em território russo visam enfraquecer o esforço militar do Kremlin e pressionar o fim do conflito.

Enquanto isso, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou nos últimos dias que os alvos mais recentes eram centros logísticos envolvidos no fornecimento de componentes para drones e outro equipamento destinado às forças russas.