Inclusão de homoafetivos e veto a mulheres no púlpito - 06/08/2026 - Cotidiano - Folha

Com poucos dias de diferença, duas decisões de igrejas presbiterianas escancararam o quanto o campo evangélico brasileiro é mais diverso do que parece. De um lado, a Igreja Presbiteriana Unida aprovou a inclusão de pessoas homoafetivas como membros plenos de suas comunidades. De outro, a Igreja Presbiteriana do Brasil reiterou o veto à ordenação de mulheres, mantendo-as fora do púlpito.

Essas denominações não estão entre as maiores em número de fiéis. Justamente por isso ajudam a enxergar um movimento mais amplo: o crescimento do pluralismo religioso. Quem ainda imagina os evangélicos como um bloco homogêneo não está prestando atenção.

Engana-se também quem acha que essa diversificação é exclusividade das igrejas do chamado protestantismo histórico, mais ligadas à classe média. No universo pentecostal, processos semelhantes estão em curso. Em geral, as grandes denominações preservam posições conservadoras. Mas, nas margens, surgem alternativas que dialogam de forma mais direta com mudanças de costumes.

Um exemplo é a Igreja Cidade Refúgio, fundada em São Paulo pelo casal de pastoras Lanna Holder e Rosania Rocha. Trata-se de uma igreja pentecostal no estilo musical, culto e interpretação bíblica. A diferença é que é composta majoritariamente por pessoas LGBTQIA+.

Da perspectiva sociológica, essas diferenças revelam a capacidade do cristianismo de se adaptar às demandas da população brasileira. Em vez de um bloco compacto, vemos um mosaico de igrejas conservadoras, moderadas e progressistas disputando fiéis e legitimidade pública.

Esse mosaico não se limita à doutrina. Ele aparece no território, na arquitetura, na música, no tipo de culto e no perfil do público. Há comunidades que resistem a mudar a liturgia, a arquitetura e a doutrina, como a Congregação Cristã no Brasil. E há as chamadas "igrejas de parede preta", com estética de casa de shows e culto pensado para a geração das redes sociais.

De fora, esse quadro parece apenas mercado religioso: líderes espertos adaptando a teologia para agradar aos consumidores e manter templos cheios. De fato, há concorrência religiosa, uso de técnicas de comunicação e de marketing. Mas, sozinha, essa explicação é fraca. Ela ignora que os fiéis buscam coerência entre seu estilo de vida, suas crenças e a identidade da igreja à qual pertencem.

Quem tem alguma vivência religiosa sabe que oportunismo existe, mas não dá conta da vida cotidiana da fé. O envolvimento comunitário, a rotina de culto, as obrigações morais, as expectativas de coerência entre crer e viver exigem um grau de compromisso que não combina com a imagem de puro "negócio da fé".

A chave para entender esse cenário é a modernidade. Quando o Estado e a Igreja se separam e vigora a liberdade religiosa, rompe-se o monopólio de uma religião oficial. Pessoas e grupos podem organizar suas crenças e práticas a partir de suas convicções e identidades. A partir desse momento, pluralismo deixa de ser exceção e vira regra.

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Peter Berger falava em "dossel sagrado" quando uma única religião recobria toda a sociedade. Hoje, a imagem mais adequada é a de uma infinidade de guarda-chuvas: diversas igrejas e tradições convivendo, competindo e, às vezes, se ignorando sobre o mesmo território. Não há mais uma só narrativa religiosa autorizada, mas várias.

Isso não significa que a religião esteja necessariamente mais fraca ou mais forte. Significa que ela mudou de forma. Parte se ajusta às expectativas de mudança; parte se radicaliza na defesa de valores tradicionais.

É nesse contexto que decisões tão diferentes quanto a inclusão de fiéis homoafetivos e a proibição de mulheres no púlpito acontecem quase ao mesmo tempo. Para alguns, isso é sinal de avanço. Para outros, de decadência. Para a sociologia, é um indicativo claro: a sociedade brasileira está religiosamente mais plural. Se isso é boa ou má notícia, depende do guarda-chuva sob o qual cada pessoa decide se abrigar.