"Há muito tempo que não víamos o nosso setor ensombrado por dúvidas relacionadas com nomeações e comportamentos mais ou menos éticos de elementos ligados a estruturas de arbitragem. Eu sou da geração do [processo judicial] Apito Dourado e acredito que contribuí, tal como outros colegas, para a transformação da forma como o adepto olhava para o setor e o futebol português, mas o que se está a passar traz algumas sombras e faz-nos recuar ao passado", reconheceu à agência Lusa o antigo 'juiz' e atual comentador televisivo, de 47 anos e com jogos dirigidos na II Liga.
A arbitragem nacional está a ser investigada pelo Ministério Público (MP), que instaurou um inquérito sobre alegadas interferências no processo de nomeações e eventual divulgação de informação confidencial a terceiros.
Em junho, Duarte Gomes demitiu-se do cargo de diretor técnico nacional de arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), no qual estava há um ano, tendo o organismo remetido ao MP os factos relatados pelo ex-árbitro internacional, que seria substituído por João Ferreira, antigo vice-presidente do Conselho de Arbitragem (CA) federativo.
"Muitas vezes, há coisas que não podem não ser provadas em tribunal, mas em que fica claro que pode não ter havido comportamentos éticos. A minha grande preocupação é que não haja qualquer dúvida de que todos os elementos das estruturas da arbitragem têm comportamentos éticos. Isso tem de ser esclarecido o mais rápido possível", apelou Jorge Faustino.
Na semana passada, circularam na imprensa e nas redes sociais áudios do presidente da FPF, em que Pedro Proença critica a qualidade dos árbitros portugueses, recorda os processos judiciais do Benfica e fala de forma pouco simpática sobre José Fontelas Gomes, vice-líder federativo.
Os excertos remontam a 2024, quando Pedro Proença comandava a Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) e preparava a candidatura à presidência da FPF, cujas eleições venceria em fevereiro de 2025.
"Temos um plantel de árbitros melhor do que há cinco anos e muitos deles são os mesmos. A experiência acumulada no futebol profissional faz com que sejam melhores e estejam mais bem preparados. Agora, é natural haver uns com melhores condições do que outros", avaliou Jorge Faustino.
No fim de semana, os árbitros do futebol profissional só concordaram em iniciar os trabalhos na primeira ação de reciclagem e avaliação do setor, um encontro de formação obrigatória promovido pelo CA, depois de reunirem com Pedro Proença, que reiterou a máxima confiança na arbitragem.
"Não gosto muito de puxar por este exemplo, mas não deixa de ser verdade: os resultados que o João Pinheiro e mais um ou dois têm tido lá fora devem querer dizer alguma coisa. Parece-me que temos árbitros com qualidade mais do que suficiente para apitar a sexta liga da Europa", notou.
Perto do fim da temporada passada, em que se multiplicaram críticas dos clubes aos 'juízes', as sociedades desportivas das I e II Ligas aprovaram em Assembleia Geral da LPFP várias mudanças nos regulamentos, incluindo o agravamento de ilícitos na lesão da honra e reputação, injúrias e protestos às equipas de arbitragem, bem como um aumento das multas.
"Quando a educação não funciona, temos de ir para a punição. É um caminho para tentar reduzir comportamentos que não podem existir. Se fossem mais penalizadoras, provavelmente teriam um impacto mais eficaz. Agora, não nos podemos esquecer que são os clubes a impor medidas que os impactam. Temos essa condicionante e estamos sempre sujeitos a que as coisas não possam evoluir tão rapidamente como gostaríamos", concluiu Jorge Faustino.