Continua após publicidade
Páginas de influenciadores com milhões de seguidores na internet que são investigadas pela Polícia Federal no escândalo do Banco Master contribuíram também para a escalada digital do presidenciável Augusto Cury (Avante) nos últimos dias e que, de certa forma, ajudaram a alavancar o candidato nas pesquisas.
Segundo a última pesquisa Nexus/BTG, em uma semana, Cury saltou de 2% para 11% na corrida presidencial, e aparece agora atrás apenas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tem 39%, e do senador Flávio Bolsonaro (PL), que tem 33%. Nesse período, o número de seguidores e de engajamento nas redes sociais teve um salto, que despertou suspeitas entre as campanhas adversárias de uso de influenciadores pagos, o que é proibido pela legislação eleitoral.
A curva de Augusto Cury em agosto teve fortes indícios de aquisição artificial de seguidores. Após um período de crescimento estável, entre 1. 000 e 3. 000 novos seguidores por dia, o perfil registrou abruptamente um salto de 2,4 milhões em apenas 24 a 48 horas, incluindo picos de centenas de milhares de novos seguidores durante a madrugada — uma ruptura extraordinária e incompatível com seu padrão histórico.
Vários perfis, que normalmente publicam sobre celebridades, entretenimento, comportamento e coisas da vida cotidiana, passaram a falar de Augusto Cury quase simultaneamente, com alta frequência e textos muito parecidos. Em uma segunda onda, essas páginas passaram a repercutir a própria subida de Cury nas redes sociais.
Entre os perfis que se envolveram nessa onda estão alguns que também são investigados pela Polícia Federal por receberem dinheiro para promover ataques sincronizados e articulados ao Banco Central durante o período em que o Banco Master tentava evitar a sua liquidação, para que fosse possível vender a instituição financeira a algum interessado.
Continua após a publicidade
Segundo a investigação policial, ao menos quarenta perfis de influenciadores desse perfil (que cobrem cotidiano, celebridades e entretenimento) passaram a publicar posts sobre o BC, supostamente pagos pelo banqueiro Daniel Vorcaro.
Quatro desses perfis — Alfinetei, Alfinetada, Babadeira e Diferentona — também publicaram posts elogiosos a Augusto Cury na onda digital que alavancou a ascensão do presidenciável nas redes sociais. Essas páginas publicaram posts favoráveis ao candidato do Avante tanto na primeira onda — quando comentavam sobre se ele não seria uma alternativa presidencial — quanto na segunda, quando passaram a repercutir a subida dele nas redes sociais. No total, esses quatro perfis fizeram ao menos dezessete posts sobre Cury, que renderam 3,7 milhões de interações.
Continua após a publicidade
Risco legal
A comprovação de que houve irregularidade no manejo de seguidores e de engajamento nas redes sociais pode acarretar punições a Augusto Cury e prejudicar a sua candidatura. Segundo a legislação eleitoral, manipular as métricas de visibilidade na internet ou usar influenciadores pagos para fazer campanha pode ensejar a aplicação de multas, retirada dos perfis do ar e, dependendo da gravidade, do alcance e do conteúdo, levar à cassação do registro.
Continua após a publicidade
O uso de influenciadores pagos é vetado. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), é permitido que eles ofereçam apoio espontâneo, compartilhamentos orgânicos, façam uso de hashtags e criem mobilizações espontâneas em redes sociais, mas eles não podem receber para fazer circular propaganda eleitoral, nem receber vantagens econômicas para que os seus perfis promovam candidatos.
Outro lado
A reportagem tentou contato com os responsáveis pelos perfis e com o marqueteiro da campanha de Cury, Sérgio Lima, mas ainda não obteve retorno.
Em entrevista ao programa Veja Em Foco na segunda-feira, 31, Augusto Cury classificou como “absurda” a ideia, levantada por campanhas de adversários, de que poderia estar comprando seguidores nas redes sociais.
Continua após a publicidade
“Acha que alguém com meu histórico, que sempre lidou com a verdade, que foi concursado como perito de psiquiatria judicial, que a vida inteira disse que quem não é transparente tem uma dívida impagável consigo mesmo, acha que vamos comprar seguidores? ”, afirmou durante entrevista a Marcela Rahal. “Vou perder a minha essência por causa de uma jornada de uma eleição, já que eu tenho o que os políticos jamais sonharam em ter? Isso é um absurdo. ”
O candidato afirmou que o crescimento nas redes sociais ocorreu de forma espontânea e atribuiu a mobilização a pessoas que teriam se identificado com sua mensagem. Ele também negou ter recorrido a influenciadores pagos para ampliar o alcance da candidatura. “Na verdade, foi um movimento incontrolável”, afirmou. Para Cury, a mobilização teria partido de pessoas que entenderam sua proposta de “pacificação”, disse.
Publicidade