As pessoas acham que quem vive na rua passa o dia a pedir. – Fez uma pausa. – Não é verdade. Passamos o dia a olhar. Sabemos quem vai sempre atrasado, quem canta baixinho quando pensa que ninguém o ouve
Durante dois anos, passei pelo mesmo homem todas as manhãs sem nunca lhe ter visto a cara. Dormia deitado de lado, debaixo da pala do prédio em frente à estação de Entrecampos, embrulhado num saco-cama azul que, com a chuva e o pó dos passeios, se tornou primeiro cinzento e depois de uma cor sem nome. Eu é que tinha deixado de olhar.
No início, reparava em tudo: nos sapatos alinhados junto à cabeça, como se mesmo na rua fosse importante manter alguma ordem; no saco de supermercado que mantinha sempre junto do corpo, perguntando-me muitas vezes o que guardaria ali com tanto cuidado; no hábito de acordar antes das oito, enrolando a cama e desaparecendo antes de a cidade acordar por completo.
Dias houve em que cheguei a pensar em lhe levar café. Não o fiz. Outros em que pensei em lhe perguntar o nome. Também não perguntei. A vida encarregou-se do resto. Ao fim de algumas semanas, o homem passou a fazer parte daquele percurso como a banca dos jornais, o semáforo que demorava demasiado a abrir ou a árvore que todos os outonos entupia o passeio de folhas. O cérebro tem esta habilidade extraordinária de apagar aquilo que não queremos ver sem precisar de o fazer desaparecer.
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Na terça-feira em que não o encontrei, dei conta imediatamente. A pala do prédio estava vazia, o chão, mais gasto no lugar onde o saco-cama costumava ficar. Desejei que tivesse encontrado abrigo seguro ou que alguém da Santa Casa o tivesse finalmente convencido a sair dali. Talvez simplesmente se tivesse mudado para outra rua. Agarrei-me ao que desejara, e esse possível final feliz descansou-me durante alguns segundos. O sinal ficou verde, e eu atravessei a passadeira e fui trabalhar.
No dia seguinte, continuava sem aparecer. No seguinte, também. Na sexta-feira, dei por mim a abrandar o passo e a procurar sinais: o saco, os sapatos, o saco-cama. Nada. Senti uma inquietação absurda. Não sabia o nome daquele homem, nunca lhe ouvira a voz, mas a sua ausência criara um buraco na paisagem semelhante ao quadro que se retira de uma parede e só então percebemos que passávamos a vida a olhar para ele.
Foi o senhor da banca de jornais quem me esclareceu.
– Levaram-no para o hospital na segunda à noite. Estava com uma pneumonia valente.
Disse “levaram-no”, como se existisse uma entidade invisível encarregada de recolher pessoas quando deixamos de conseguir ignorá-las.
– Sabe para que hospital?
O homem olhou para mim com surpresa. Quem sabe se por eu usar saltos altos e um casaco caro. Ou porque, durante todo aquele tempo, nunca me tivesse visto parar.
– Santa Maria, acho eu. Chama-se Manuel.
Manuel. Repeti o nome em silêncio, como se tivesse acabado de descobrir uma informação íntima. Durante dois anos, passara por uma pessoa e apenas vira uma condição. Um sem-abrigo. A palavra servira-me de cortina: explicava tudo sem me obrigar a conhecer nada.
Nessa tarde, saí mais cedo do escritório e fui a Santa Maria. No caminho, comprei uma revista, uma garrafa de água e um pacote de bolachas. Só depois percebi a estupidez do gesto. Não sabia de que revistas Manuel gostava, se podia beber água, se tinha dentes para comer bolachas. Levei-lhe aquilo que a minha consciência conseguira comprar em dez minutos.
Encontrei-o numa enfermaria com seis camas. Parecia mais pequeno sem o saco-cama, mais velho sob a luz branca do hospital. Tinha o cabelo grisalho, a barba aparada por alguém e uma cânula de oxigénio presa ao nariz. Aproximei-me.
– Manuel?
Ele abriu os olhos.
– Desculpe incomodá-lo. Eu passo por si todos os dias.
Assim que disse a frase, tive vergonha: passar por alguém todos os dias não é uma relação, é apenas geografia. Ele observou-me com atenção e depois sorriu.
Os eclipses mais perigosos não acontecem quando a Lua encobre o Sol. Acontecem quando alguma coisa se atravessa entre nós e os outros— o medo, a pressa, o incómodo —e nos convence de que deixaram de existir
– Eu sei.
– Sabe?
– A senhora é a dos passos apressados. Às vezes, vem a falar ao telefone. À quinta-feira, costuma trazer flores.
Fiquei sem resposta. As flores eram para a receção do escritório. Nunca me ocorrera que ele reparasse.
– Posso fazer-lhe uma pergunta? – indagou.
Assenti.
– Porque veio hoje?
Olhei para o saco que tinha nas mãos.
– Porque desapareceu.
Manuel abanou a cabeça com um sorriso quase impercetível.
– Não. Eu já tinha desaparecido para si muito antes.
Não soube o que dizer. Ficámos algum tempo em silêncio.
– Sabe uma coisa curiosa? – perguntou ele.
Encolhi os ombros.
– As pessoas acham que quem vive na rua passa o dia a pedir. – Fez uma pausa. – Não é verdade. Passamos o dia a olhar. Sabemos quem vai sempre atrasado, quem canta baixinho quando pensa que ninguém o ouve, quem leva flores à quinta-feira… A senhora reparou em mim, mas eu também reparei em si.
Nunca me ocorrera que, durante dois anos, também eu pudesse ter sido observada. Baixei os olhos para o saco de plástico: a revista, as bolachas, a garrafa de água. Tudo me pareceu ridiculamente insuficiente. Há gestos que fazemos mais para sossegar a consciência do que para aliviar o sofrimento dos outros. Ficámos os dois em silêncio durante alguns segundos. Pela primeira vez desde que entrara naquela enfermaria, deixei de procurar uma coisa inteligente para dizer. Olhei de novo para o que trazia nas mãos.
– Achei que talvez precisasse de alguma coisa.
Manuel olhou para o saco e sorriu.
– Preciso. – Hesitou. – Preciso que me diga se hoje está sol.
Aproximei-me da janela. O céu de Lisboa estava limpo, quase indecente de tão azul.
– Está.
– Ainda bem. Daqui não consigo ver.
Puxei uma cadeira e sentei-me. Manuel contou-me que fora tipógrafo, tinha uma filha em França com quem já não falava e que guardava um livro dentro do saco de plástico, Explicação das Árvores e de Outros Animais, tantas vezes lido que já sabia poemas inteiros de cor. Perguntou-me o nome. Eu disse-lho.
Quando saí do hospital, o dia começava a escurecer. Por instinto, levantei os olhos para o céu e procurei o Sol, embora soubesse que ainda estava lá. Foi então que percebi: os eclipses mais perigosos não acontecem quando a Lua encobre o Sol. Acontecem quando alguma coisa se atravessa entre nós e os outros – o medo, a pressa, o incómodo – e nos convence de que deixaram de existir.
Na segunda-feira seguinte, a pala do prédio continuava vazia. Pela primeira vez em dois anos, olhei para todas as pessoas que dormiam ao longo da avenida. Perguntei-me quantas alinhariam os sapatos antes de adormecer, quantas guardariam um livro dentro de um saco de supermercado, quantas teriam uma filha à espera noutro país. Manuel devolvera-me o olhar.
Inventário do Eclipse é uma associação entre a VISÃO e o Clube das Mulheres Escritoras
