Jorge Palma "tinha energia de pessoa genial", diz membro do Palma's Gang

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O músico e produtor Flak, que integrou o Palma's Gang, recordou Jorge Palma, que morreu na segunda-feira aos 76 anos e com quem tanto aprendeu, como uma "pessoa genial", que era feita de "um pó das estrelas muito especial".

Para Flak, Jorge Palma "tinha aquela energia das pessoas geniais".

"Quando compunha, quando estávamos em estúdio, ele fazia as coisas mais incríveis. Eu não acreditava muitas vezes... Por exemplo, depois de uma noite daquelas de estúdio de copos, em que toda a gente tinha bebido imenso, eu dizia 'Jorge, vai descansar', ele saía e, em direta, escrevia, por exemplo, um quarteto de cordas e voltava no dia seguinte. E eu dizia, 'este homem, este tipo, não é humano'. Ele fazia coisas inacreditáveis", partilhou Flak, um dos fundadores dos Rádio Macau, em declarações à Lusa.

Flak e Jorge Palma já se tinham cruzado muitas vezes na estrada, mas foi a partir da gravação do álbum do Palma's Gang, ao vivo no Johnny Guitar, de 1993, que passou a conhecer melhor o autor de músicas como "Bairro do Amor", "Frágil" ou "A gente vai continuar".

"Na altura era impossível ter a banda toda disponível. Ele estava a fazer concertos a solo e convidou-me para tocar com ele em duo. Passei quase dez anos a viajar com ele, os dois sozinhos. Corremos o país todo, foi uma experiência única, onde aprendi muita coisa, tanto a nível pessoal como músico", recordou.

Flak, que produziu três álbuns de Jorge Palma a solo, além do álbum do Palma's Gang, ficava sempre impressionado quando o músico chegava com uma canção nova.

"Pensava 'como é que este tipo consegue fazer estas coisas geniais?'. Trabalhar com uma pessoa assim é um prazer, está-se sempre a aprender coisas novas, e sempre a ser confrontado com coisas que não estamos à espera e que o comum dos mortais não teria capacidade para fazer", disse.

Flak reforça que Jorge Palma era "uma pessoa genial": "Tinha uma energia que não é comum, costumava dizer que ele era feito de um pó das estrelas muito especial, porque ele tinha uma capacidade de recuperação, uma energia, quando compunha, quando entrava em palco. Era um furacão, uma pessoa mesmo muito especial e generosa. Nós estávamos sempre bem com ele. Toda a gente se sentia bem com o Jorge".

Ainda a processar a notícia da morte, Flak confidenciou que pensava que Jorge Palma "era imortal", tendo em conta "a sua capacidade de recuperação".

"Muitas vezes estávamos a gravar discos e ele estava naqueles períodos em que bebia mais e eu dizia 'Jorge, não podes beber porque tens de gravar vozes', e de repente ele parava de beber e, quando aparecia, parecia outra pessoa, de um dia para o outro parecia que renascia. Era impressionante", partilhou.

Após a morte "fica uma obra completamente genial".

"Ele era um verdadeiro génio e muitos daqueles génios que nós admiramos hoje, Beethoven, Mozart, Picasso, Stravinsky, eram pessoas que tinham a energia, se calhar, que o Jorge tinha", considerou.

A diferença está no facto de Jorge Palma ser "muito mais caótico, muito mais desorganizado" e ter tido uma vida "em que aproveitou essa energia toda e essa capacidade fora do comum também para viver".

"Não foi aquela pessoa que estivesse sempre dedicada de uma forma metódica à sua obra, porque senão, se calhar, tinha sido ainda muito mais genial do que foi", disse.

Além de uma criatividade "fora do comum", Jorge Palma era também, do ponto de vista pessoal, "um tipo muito generoso", com quem se estava sempre bem.

"O concerto ocorresse bem ou mal, quando saíamos estávamos sempre rir, nunca se falava do assunto, a vida era sempre para a frente, era um tipo super positivo. Tinha também um grande ego que o ajudava, ele sabia que era uma pessoa talentosa e uma pessoa com essas qualidades, o que o ajudava muito a superar aqueles momentos maus e aqueles maus concertos muitas vezes que ele dava", recordou.

Jorge Palma, um dos cantores e compositores mais marcantes da música portuguesa contemporânea, morreu na segunda-feira à noite, aos 76 anos, anunciou a família nas redes sociais, pedindo que o autor seja lembrado "pelas suas canções e palavras", agradecendo "toda a amizade demonstrada ao longo dos anos".

As informações relativas às cerimónias fúnebres serão divulgadas mais tarde.

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