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Sejam bem-vindos. O viajante desta semana adora parques temáticos cheios de fantasia e alguma adrenalina. É apaixonado pela magia da Disney e isso já o levou a realizar várias viagens que não ficam por aqui. O nosso viajante adora viajar, claro, é algo que faz desde criança, através, por exemplo, das páginas de livros onde se mostravam civilizações e povos perdidos. Luís Cordeiro, bem-vindo às Conversas do Fim do Mundo.
Olá, boa tarde.
Luís, por que esta paixão por parques temáticos?
Eu acho que começou com a primeira viagem.
Foi onde?
Foi à Disney.
À Euro Disney, muito bem.
Sim, na altura ainda era Euro Disney. Tinha acabado de abrir, em 92.
Que idade é que tinhas?
Isso, agora tenho que fazer contas. Estamos em 92, já vão 34 anos. Devia ter oito, nove, talvez.
Muito bem, eras uma criança e aquilo despertou em ti.
Na altura, tinha aberto a Disney na Europa. Sabia-se que havia lá na América e era um sonho quase inatingível. De repente, abriu na Europa. Nunca tinha viajado, depois houve a oportunidade de poder ir com os meus pais e os meus primos. E fui. Mais Paris e de repente estar lá e abriu-se o mundo. Aliás, dois mundos, o mundo das viagens e-
E o mundo dos parques temáticos. Tu não viajas só para conhecer os parques temáticos da Disney, não é?
Nem os parques temáticos, nem só os da Disney. Viajo.
Viajas, ponto.
No global.
Sim, mas tens uma grande paixão por parques temáticos.
É verdade.
Por quê?
Nem eu sei muito bem explicar. Começou por aí e os parques temáticos acho que foram surgindo sempre que havia algum no roteiro ou por onde eu passava, eu ia. Pela curiosidade, pra me divertir, pra ter um dia de descanso, porque às vezes sabe bem. Às vezes há sítios que não têm praia, que eu, por exemplo, adoro praia. Se há um parque temático, vamos lá dar um saltinho, me divertir, passar lá um dia ou uma tarde. E aconteceu. Entretanto, fui pesquisando e vi que havia vários parques temáticos de várias configurações, uns mais dedicados à adrenalina, outros mais dedicados à fantasia, outros à história.
E quais é que tu gostas mais, Luís? Tu és mais castelos da Disney, montanhas-russas ou arenas com gladiadores e romanos?
Eu acho muita graça às montanhas-russas. Não as encaro todas.
Tens vertigens?
Algumas.
Algumas, sim.
Eu acho que algumas já me enjoo. Deixa-me ali um bocadinho que eu quero só palpitar. Gosto muito dos parques temáticos em si, pela fantasia com que eles conseguem se realizar e tenho focado agora nos parques históricos que descobri recentemente.
Ok.
E a coisa foi surgindo depois. Quando fui investigando os que existiam e descobri que eles existem, em especial esses da Disney, foram pensados pra entreter, obviamente, mas com muito pormenor e com muito estudo. Ou seja, tudo aquilo está ali por alguma razão, foi altamente pensado. Obviamente, em especial a Disney, vem do cinema.
E sabe maravilhar o seu público.
Sabe o que está a fazer.
Tu já foste a quantos parques temáticos, Luís?
Já lhe perdi a conta, mas já fui a uns 20, talvez.
Ok.
Que obviamente já repeti alguns.
Disney e não Disney.
Disney e não Disney.
E não Disney, ok. E quantos já foste a Disney?
De Disneys já fui todos menos os da China. Portanto, isso dará os três resorts, que eles são cinco. Os da China estão em execução, estão em banho-maria. Ficarão pra viagem à China, que será também uma viagem completa.
Estás a preparar uma grande viagem à China.
Talvez. Não sei quando, talvez pro ano. Não sei. Mas será sim um pack completo China. E já que lá estou.
Muito bem. Qual foi o teu preferido até agora, o teu parque temático?
O de Japão.
É? Por quê? O do Japão? Disney Japão.
Disney japonesa, sim. Tokyo Disneyland. Porque conseguiu superar-se, como o Japão faz, no pormenor, no conceito, na tecnologia. Foi tudo o que a Disney faz, com um toque japonês, com aquela perfeição, com uma magia japonesa. E realmente aquilo é fantástico.
Ok. O que se faz, por exemplo, num parque temático da Disney no Japão?
Além das diversões e da gente ver os espetáculos, as paradas, etc. Tanto as diversões mais com adrenalina.
Portanto, há montanhas-russas, há castelos assombrados, essa coisa toda.
Por aí. O do Japão teve uma particularidade que permitiu-me ver os japoneses a serem japoneses. Ou seja, as famílias, os amigos, os namorados. Sentei-me lá num banco, tive a oportunidade de lá ir vários dias E ver como é que eles interagem entre si. Estar ali um bocado de observador.
A fazer do observador.
Literalmente.
Espião do modo de vida japonês.
Sim, e foi interessantíssimo porque eles saíram daquela azáfama da vida deles, ou daquele estereótipo que a gente tem, e ver como é que eles interagem no social.
Num episódio de convívio social. E o que é que aprendeste sobre os japoneses, Luís?
Que eles são muito mais divertidos do que nós achamos. Que eles são muito mais brincalhões, que cuidam das crianças de uma maneira muito protetora, até quase fofinha.
É?
Achei muita graça, eles iam à Disney, levavam a avó. Tenho uma foto interessantíssima que é a geração toda vestida de Pato Donald. É a avó, é a mãe, é a filha, é o bebê no carrinho, tudo vestido de Pato Donald. Essa foto é fantástica. Não são fechados, eles têm uma curiosidade em chegar aos ocidentais, a barreira da língua é grande, mas tentam chegar, se riem, dão aquele adeus. E achei que ali aquele momento de descontração quebrou algumas barreiras entre o Ocidente e aquele Oriente mais fechado, que talvez naquela azáfama das cidades grandes japonesas seria difícil de descobrir. E pensei: "Olha, foi o sítio ideal".
Porque tem uma boa escala, não é? No meio da cidade, perdemo-nos. Ainda por mais, o Japão é um país com muita gente.
Demasiada.
Demasiada.
E ali eles estavam mais soltos.
Mais soltos.
E deu pra perceber as dinâmicas entre eles, sem outras pressões da escola, do trabalho ou de chegar a algum lado. Tinham aquele dia pra eles. E foi giro ter percebido isso.
Foi giro de observar. És um viajante muito observador, Luís?
Sim, ultimamente tenho sido mais nesse aspecto.
É? Vês mais do que o que experimentas?
Começo assim, começo a observar.
Sim.
E depois conforme vejo como é que está a maré, se me vou deixando ir pela observação.
Muito bem. Parques temáticos, aí incluís também parques aquáticos ou nem por isso?
Sim. Se aparecer um e se tiver calor, por que não? Mar é comigo e água.
O que é que torna um parque temático um bom parque temático?
Acima de tudo é esquecer que existe um mundo fora dali.
Ok. Portanto, é fazer-te sentir-
Mergulhar ali-
Na fantasia
...naquele ambiente, seja ele qual for. Terror, fantasia, princesas, história. E quando conseguem, e há muitos e bons que conseguem, acho que é um trabalho muito bem feito.
Muito bem. Já conheces uma boa quantidade de parques temáticos. Por exemplo, o que é que me sugeres a mim que gosto mais de parques históricos?
Agora recentemente, temos aqui dois bem perto de nós. Aliás, um, que a sua sucursal é o Puy du Fou. Tem o original ou o primeiro em Nantes, em França, ou o Puy du Fou em Espanha, que mergulha na história dos países em espetáculos imersivos, e o próprio parque é imersivo.
O espanhol fica perto de Toledo, não é?
Perto de Toledo, sim. Eles ficam em áreas remotas.
Remotas, semi-remotas.
Pra imersão ser um bocadinho mais total.
Não vá estarmos nós mergulhados no Império Romano e passar um comboio.
Sim, por aí.
Ou ouvir se passar um comboio.
Sim.
Ou um avião.
Um avião passa, que é mais difícil. E eles conseguem fazer espetáculos com as tecnologias.
Esse, o Puy du Fou. Já lá foste a esse, ao espanhol?
Já.
Conta o que é que viste.
Vi espetáculos que vão te contando a história de Espanha, desde que Espanha era um império árabe.
Ok, desde as invasões árabes.
É que aquilo não acaba e o parque até é recente. E ele vai te contando a história de Espanha de várias maneiras, com espetáculos muito diferentes. Alguns, por exemplo, a era dos descobrimentos, fomos nós, portugueses, que aí iniciamos. Mas ele aborda a viagem de Colombo, na qual nós embarcamos no navio com o Colombo pra chegar a El Salvador, que não sabemos que é El Salvador.
Ok, quando dizes nós, nós os espectadores do parque.
Nós mesmos espetadores embarcamos num barco, com um teatro onde somos apresentados, por exemplo, aos reis de Castela, que autorizam a viagem e embarcamos com Colombo.
Portanto, é uma experiência imersiva.
Muito imersiva. O barco afunda, há água por todo lado, cheira a comida podre porque acaba os mantimentos.
Uau!
É uma coisa-
Isso é um espetáculo que dura quanto tempo?
Esse não tem fim, porque nós podemos ir ficando no barco e ir curtindo.
Ah, ok.
Depois há outros espetáculos que têm início, meio e fim. E vai contando assim as histórias e eles têm horários para dar ali alguma linha temporal. E pra quem gosta de história, esses dois são Fantásticos.
Fantásticos. Puy du Fou, em Nantes, e um aqui mais perto de nós, perto de-
Perto de Toledo.
Perto de Toledo. Muito bem. Dizias há pouco também que te puxa para os parques aquáticos. Na verdade, tu gostas é de parques temáticos, não é? Seja qual for a temática.
Se houver um.
Qual foi a maior loucura que cometeste para ir visitar um parque temático, Luís?
Foi quando eu fiz 35 anos.
Então.
Não, mentira. Quando eu fiz 35 anos, disse: "Vamos à Disney World", e fui. E quando fiz 40 anos: "Vamos à Disney do Japão", e fui. Agora, vou fazer os 45: "Vamos à Disney da China". Não há dúvidas.
A tua vida é pautada por marcos Disney.
E esses números redondos.
Sim.
Acho que sim. Acho que a gente não pode esquecer a criança que temos em nós.
É verdade. Muito bem. Olha, estamos aqui a chegar ao final da primeira parte. Vamos abrir o álbum de viagem.
Certo.
Luís, tens contigo algum objeto que tenhas trazido das tuas inúmeras viagens?
Tenho.
Diz-me, qual é?
É uma coisa muito especial, que foi numa das primeiras viagens, era novinho. Tive a oportunidade de ir a Cuba, naqueles tempos ainda que existia Fidel, que Cuba tinha aquele peso do Fidel. Que ainda o vi.
Tu viste o Fidel?
Vi o Fidel.
Como? Onde?
Ao longe. Era o final do ano letivo. Num discurso interminável.
Tu foste a um comício?
Nós passámos num comício, porque não podia acontecer nada naquele momento em Havana, porque o Fidel estava a discursar.
Ok.
Era o final do ano letivo e era uma data de rapazes da minha idade, porque eu devia ter uns 12 anos, e o Fidel falava, eu estava farto de ouvir o Fidel. Eu queria passear, queria conhecer coisas e não se podia porque o Fidel estava a discursar. Enfim, havia todo aquele peso de Fidel Castro, que já devia ter bastante idade. Já lá vão 30 anos também. 30, 34? Alguns. E Cuba tinha um peso muito marcado. E tive a oportunidade de conhecer nessa altura e de viajar pelo país. E no sul, Cuba já era pobre, já tinha muita-
Muita miséria
Muita miséria, muitas dificuldades. E lembro-me de terem me dito, os meus pais tinham uns amigos cubanos, que não cheguei a encontrar lá. E lembro-me de terem dito: "Leva roupa, leva umas coisitas para oferecer por lá, porque a malta é um bocado carenciada". E levei umas roupas da minha tia, umas esferográficas, essas coisas que a malta levava. E no sul, em Trinidad, que é uma cidade espetacular, lindíssima, uma cidade colonial, talvez das mais bonitas que eu tenha visto. Uma tarde fomos à praia e vimos lá umas pessoas que andavam ali a rondar. Eu pensei: "Se calhar querem alguma coisa", e fui perguntar e a senhora disse que sim, mas que tinha que ser ali fora da polícia, porque as praias eram patrulhadas. E lá combinamos e dei o que tinha e essa senhora ofereceu-me então uma fotografia a preto e branco, A4, daquelas ainda picotadas à volta.
Sim.
Na qual tem os filhos dela, que no meio está a filha com um vestido que eles chamam de quinceañera, quando fazem os 15 anos.
Ok.
E os dois filhos gêmeos. E por trás diz que é uma oferta para os meus amigos de Portugal, e aqui vai os meus filhos com os nomes, que eu sei que são uns nomes exóticos em Cuba, e ofereceu-me essa foto.
Que tu estás a mostrar aqui, que tens no teu telemóvel.
A preto e branco.
Muito bem.
E guardo-a até hoje. E provavelmente, se calhar, seria a única foto que esta senhora teria dos filhos.
Deu-te a ti. É um original.
É um original.
Portanto é uma prova mesmo de gratidão.
Sim.
De enorme gratidão.
Aqui atrás está o-
A dedicatória
A dedicatória.
Com uma caneta-
A vermelho e tudo.
Ui! Voltaste a Cuba depois disso?
Não.
Não, nunca mais. Por quê?
Não calhou.
Não calhou.
Não calhou. E guardo com muito carinho. Provavelmente deveria ser a única foto que ela teria dos filhos. Não sei o que será feito desta mulher, nem destas três crianças.
Ir procurar, Luís.
Um dia.
Um dia. Muito bem. Estamos à conversa com o Luís Cordeiro. Vamos fazer aqui uma pausa nas conversas do Fim do Mundo. Recomeçamos já a seguir a uma curta pausa. Até já. Estamos de regresso para a segunda parte das Conversas do Fim do Mundo. Esta semana estamos à conversa com Luís Cordeiro, viajante, que é também enfermeiro intensivista, tem uma profissão de alto risco. Enfim, ele tem muitas histórias para partilhar de noites passadas no hospital. Não vamos por aí, Luís.
Não.
Vamos falar
Viajar é mais interessante.
Vamos falar das tuas viagens. Tu tens uma grande paixão por parques temáticos, já falaste disso na primeira parte. És um grande fã da Disney. Eu já dei um lameirazinho no início do programa. De onde é que surgiu, onde é que nasceu a paixão por viajar, Luís? A tua paixão.
A paixão por viajar foi nascendo. Os meus pais tinham lá em casa uns livros sobre as maravilhas do mundo. Eu via aquilo. Acho que ainda nem sabia ler. Via as fotos, adorava ver o Taj Mahal, aqueles monumentos, e adorava conhecer isto. Tinha umas cassetes também sobre isso, via aquilo vezes sem conta, acho que as cassetes já estavam todas riscadas de rodarem tanto. A minha mãe também viveu fora do país, contavam coisas maravilhosas. E foi surgindo aquela paixão.
Portanto, havia uma enorme curiosidade pelo mundo da tua parte.
E no dia que provei esse bocadinho.
Nunca mais quiseste largar esse bolo, não é?
É verdade.
Foi na Eurodisney, como contavas na primeira parte. Tinhas 12 anos, não é? Paris.
Tinha menos.
Menos. Oito anos.
E depois Paris e a partir daí, teimo ao mundo.
Paris pra uma criança de oito anos.
Oito, 10, talvez.
Oito, 10 anos em Portugal nos anos 90 é assim uma coisa esmagadora, não é?
Sim. Era quase assustador.
É, não é?
Era.
Lembras-te dessa primeira viagem a Paris?
Perfeitamente. Aliás, lembro tudo. Lembro-me de ir andar de avião. Aliás, uma das pessoas que estava ao nosso lado no avião era o António Sala.
Que engraçado. A sério?
Verdade.
Mas viajava no teu grupo ou calhou?
Não, calhou.
Também ia a Paris?
Também ia a Paris.
Ok.
Tenho uma fotografia com ele.
Boa.
Portanto, a primeira vez que andei de avião foi com o António Sala. A Torre Eiffel, uma coisa enorme, nunca tinha visto arranha-céus. Lembro-me de ir ao Moulin Rouge, cá fora, obviamente.
Sim.
Lembro-me, aquilo era assombroso.
Há uma enorme magia, ou havia uma enorme magia em torno de Paris, não é? Para a nossa geração, nós temos quase a mesma idade. Paris era assim uma espécie de, ainda é, uma cidade lindíssima. Era o expoente máximo de tudo. Da beleza fantástica, não é?
Era. Acho que comecei bem.
Começaste, claro que sim. Já foste a quantos países, Luís?
Uns 32, 34.
Ok. Isso é para crescer, essa lista.
Sim, e pra repetir.
E pra repetir. Tu gostas muito de repetir países e tens uma paixão pelo México, não é?
Verdade.
Por quê? Lá a Disney?
Não, mas há parques temáticos.
Ok.
Não por aí. O México começou porque uns amigos meus tinham lá e disseram: "É, pá, tens que ir ao México, aquilo é a tua cara, vais gostar". Fui e realmente é. O México oferece tudo aquilo que eu gosto. Tem praias maravilhosas, tem uma cultura extraordinária, tem duas civilizações antigas que me fascinam. E depois tem uma coisa interessantíssima, que é que conseguiram misturar as civilizações antigas com a colonização espanhola e aquele mix que surgiu dali, que nos oferece uma cultura que me fascina imenso. E depois tem uns pontos que ligam à nossa cultura portuguesa muito interessantes.
Como assim?
Por exemplo, eles têm algum artesanato muito típico. Nós temos os corações de Viana, eles têm o Sagrado Coração de Cristo, acho que é assim que se chama. Muito idêntico, por exemplo. Ali a cultura cristã muito enraizada, muito idêntica à nossa, muitos rituais idênticos aos nossos, mas muito mais folclóricos.
Sem as troides.
Por aí. E cor.
E cor.
E é interessante esse país. Fascinou-me.
Tiveste a oportunidade de presenciar o Dia de los Muertos.
Verdade.
Foi?
Sim, senhor.
Uma grande manifestação cultural.
Sim.
Cultural e social.
Sim.
Com muita gente na rua a festejar.
Sim, é, aquilo é vivido à séria. E muito intenso. Acho que até nós mesmos começamos a viver isso e até já a praticar alguns desses rituais lá em casa.
Ai é? Como assim?
Olha, já lá fui várias vezes e acabo por trazer imenso artesanato.
Tens a casa cheia de caveiras.
Tenho. E a minha irmã às vezes vai lá a casa e rouba-me umas pra coleção dela. E já me explicaram como é que aquilo funciona e toda a filosofia e todo o sentimento que está por trás daquilo. E realmente é uma homenagem muito bonita às pessoas que já partiram. Apesar de eles acreditarem que naquele dia aquelas almas regressam. Eu não acreditando, acho que é uma homenagem interessante e bonita às pessoas que já cá não estão
Através da festa e não das lágrimas, não é?
Sim. E uma vez uma senhora no cemitério disse-me: "Nós festejamos a morte para honrar a vida". E isso nunca mais me esqueci. Acho que é mesmo isso.
Muito bem, boa. Tens alguma história caricata no Dia dos Mortos?
Tenho. Nesse dia fomos ao cemitério.
De dia ou de noite?
De noite.
De noite?
A festa é de noite.
Ok.
Fomos ao anoitecer, apanhamos um autocarro com as pessoas, lá fomos. As pessoas já iam algumas com a cara pintada, outras com fatos lindíssimos. Era o cemitério, perguntei onde é que era, saímos. O cemitério mal se via porque tinha toda uma feira enorme, cheia de barracas que vendiam comida e artesanato. Eu fiquei logo encantadíssimo. Depois tinha um palanque enorme onde tinha um bispo a dar missa. Eu disse: "Temos que ver a missa". Faz de conta que sou-
À noite, no cemitério, não é?
Sim, que sou muito crente. Isto ainda antes.
Tu és crente?
Não, não sou, mas já que lá estava.
Respeitaste.
Respeitei. Lá ouvi a missa com o senhor bispo. Isto tudo antes de entrar no cemitério. E depois deu-me fome . Fui lá provar. Entretanto, provei um chocolate quente que tinha malagueta, aquilo já me deu uns certos calores, mas não era mau. E à distância estava lá uma barraquinha, o cozinheiro estava a servir umas sandes com uma carne de vaca esfarrapada, em fiapos, e muito bom aspeto.
Fajitas.
Por aí. Não sei bem o nome daquilo. E eu fui, pedi, chegou a minha vez, paguei, e o homem perguntou se eu queria salsa. E eu: "Tudo".
Tudo, claro, paguei, quer tudo. Só que?
E o homem montou-me lá uma boa de maçãs. E eu comi aquilo, e aquilo estava extremamente picante. Eu até gosto de comida picante e adoro comida mexicana, mas aquilo estava no volume máximo do picante.
Sentiste um dragão a cuspir fogo.
Um dragão. Eu estava. Tinha suor frio e suor quente. Eu já estava a passar mal. Eu estava a ponto de beber água dos canteiros das flores dos mortos, porque já não estava em mim.
Já não suportavas aquilo.
Já não suportava. Eu estive horas sem sentir a boca .
Caramba!
E depois já disse: "Bem feita, quem é que mandou?"
Os mexicanos gostam muito de picante, não é?
Para lá de picante.
É, não é?
E eu assim: "Para a próxima, comia só a carne" .
Também é o reflexo do país. Eles gostam das coisas bem-
Bem intensas
...bem intensas.
Pronto, e há coisas que é para experimentarmos com moderação e não antes sim.
Muito bem. Por falar em experimentar, qual foi a coisa mais extraordinária que experimentaste? Não só nas viagens fora dos parques, como nos parques temáticos, Luís.
Mas culinárias ou...?
Experiência.
Não sei. Talvez alguns tipos de esportes radicais, que eu, como não tenho propriamente um físico muito atlético. Já fiz mergulho, já tirei o curso de mergulho e acabei por fazer mergulho.
Boa, onde?
Fiz em Cabo Verde.
Ok.
Já mergulhei nos cenotes do México. Também já mergulhei numas grutas na República Dominicana, coisas que eu achei que não tinha porte físico para fazer e afinal tenho. Achei que não era a minha praia fazer slide e já fiz.
Slide, ou seja, pendurado numa corda por aí abaixo.
Por aí abaixo.
Caramba, aos gritos.
Sim.
Que é como deve ser.
Claro. Achei que por aí esse é meu limite, talvez para alguns não seja, mas eu assim: "Se calhar rebento aí com a corda, que eu estou um bocadinho pesado mais" .
Não, nada disso. Aquilo está preparado para tudo.
E é bom quando a gente pensa que não pode e depois faz.
Claro que sim. Viajar é bom, não é?
Para lá de bom.
O que as viagens te têm ensinado, Luís?
As viagens têm ensinado, acima de tudo, que vale a pena estar cá.
É? Isso ajuda-te na tua profissão? Eu dizia na introdução da segunda parte, tu és enfermeiro.
Sou enfermeiro.
Portanto, eu deduzo que sejas submetido, não diariamente, mas pelo menos com alguma periodicidade, a situações-limite. Ajuda-te as viagens?
Ajuda, em especial porque eu também já estive do outro lado recentemente. Ia perdendo a vida este ano. E quando a gente regressa e retoma o poder, as rédeas.
Do nosso destino.
Do nosso destino não temos, mas de algumas decisões, e quando eu pude voltar novamente a viajar, foi espetacular.
Foi espetacular. Foste onde depois desse teu-
Fui à Noruega.
Foste à Noruega, ok.
E foi assim.
O que aconteceu ou foi voluntário? Porque é um país assim um bocadinho frio, geograficamente.
Foi voluntário.
Até do ponto de vista humano.
Foi voluntário e foi arrebatador.
Foi?
Foi.
Foste ver fiordes.
Os glaciares. O frio, a neve. E acho que é isso que as viagens trazem, é saber que existe muito mais além de nós, além do nosso pensamento, e que os horizontes são muito maiores que os nossos, e que vale a pena, que o mundo tem coisas espetaculares, também tem coisas terríveis, é verdade.
Pois tem.
Mas há que saber tirar o melhor das coisas.
Exato. E aproveitar o bilhete, não é?
É isso mesmo.
Que é só um.
É só um.
Pelo menos.
Já tenho um e meio.
Até ver é só um.
E mesmo nas viagens, a gente às vezes vai ali, vira a esquina e pensa: "Vou ali" e vai e descobre sítios espetaculares.
Muito bem. É preciso ter essa disponibilidade também, porque há pessoas que não têm essa disponibilidade.
Sim.
Não é?
Temos que nos dar à viagem.
Sim. Já te aconteceu viajar com pessoas que não estavam no mesmo comprimento de onda que o teu?
Talvez, mas não.
Não te chateia?
Não me chateia. Às vezes tento empurrá-las, mas se a pessoa também não estiver nessa onda.
És maior do que isso, não é?
Sim.
Muito bem.
Não preciso obrigar ninguém.
Gostas muito do México, já lá foste várias vezes. Dirás que é o país mais bonito que viste até hoje?
Um dos, sim.
Um dos.
Sim.
Quais são os outros ou o outro? Assim ali tac a tac com o México, Luís.
Sim, que nos complemente, que nos dê tudo.
Sim?
Japão.
Japão, ok.
Acho que os que eu já fui. A Croácia também nos dá coisas maravilhosas. A Rússia.
Foste à Rússia?
Já.
Boa! Moscovo, São Petersburgo.
Novgorod.
Ok.
Não muito mais que Rússia, é aquela coisa imensa.
A Rússia é um continente.
E a Rússia é majestosa, é arrebatadora.
A parte que te deixam ver, não é?
Pois.
Porque há muito mais.
A Rússia é uma coisa.
Há muito mais. Boa. Muito bem, Luís, vamos fazer checkout?
Verdade.
Vamos embora. Então vou pedir-te para completares as habituais frases. Então na minha mala vai sempre, o que não falha?
Tem que ir duas coisas.
Então.
Primeiro, tem que ir a minha roupa, porque uma pessoa está assim um bocadinho de fora a fora.
Pois, convém a pessoa ter uma roupinha para ir trocando.
E porque se falha, não é fácil às vezes encontrar roupa para mim. E então tenho que ir prevenido. Fora a vaidade, tem que ir a máquina fotográfica.
Boa, tiras muitas fotografias?
Tiro muitas, porque gosto e gosto de eternizar o momento ou os momentos. E a gente não sabe se um dia não fica dementes e se esquece.
Pois.
E que fique guardado para as gerações futuras.
O que fazes com as fotografias que tiras? Ficam guardadas nos cartões, nas máquinas e nos telemóveis, ou imprimes, fazes álbuns? Como é que é?
Vou organizando e o objetivo é fazer álbuns e imprimir, mas já são tantas. Vai acontecendo devagar.
É uma grande logística.
É difícil.
Até porque deduzo que venhas das viagens e começas logo a trabalhar, não é?
Sim, mas o trabalho já está em atraso.
A viagem com mais peripécias que realizei até hoje.
Foi o Japão.
Japão? Então. Japão é um país super ordenado, ninguém diria que fosse dado a peripécias.
Porque a barreira da língua faz isso e foram peripécias interessantes. O meu telemóvel, onde eu tinha a internet e que nos orientava por lá, decidiu avariar e as minhas fotos perderam-se. Felizmente, tinha a máquina fotográfica.
Ok.
Ainda tentei viajar à moda antiga de mapa, mas a coisa não dá.
Impossível, não é?
Muito difícil viajar no Japão sem a ajuda da internet.
Sem internet.
Às tantas tive que me render e ir comprar um novo e um cartão de dados e parecia que estava a comprar uma casa naquela loja. Porque primeiro eram uns três senhores de volta de mim, eu não falava nada, eles até trouxeram uma maquineta com tradutor, mas também não traduzia nada. Eu sentei-me numa mesa, eu levantei-me, eu sentei-me, eu levantei-me, eu fui a um escaparate, escolhi telemóveis, eu voltei, eu voltei ao escaparate, eu sentei-me, depois fui ao balcão e depois voltei, depois era o passaporte que ia. Eu estive lá umas duas horas e meia de volta de um telemóvel.
Para comprar um telemóvel. Ainda tens esse telemóvel?
Tenho.
E funciona?
Funciona perfeitamente, não é este que eu trago, mas uso às vezes com frequência, quando vou a um festival, costumo levar, ou para as férias.
Grande aventura essa.
Até para escolher a cor foi um filme. Como eu ouvi dizer: "beru". E eu: "O que é beru?" Depois lá me levanto, eu fui com ele, depois percebi que era black em japonês. Foi isso. Recordo-me, por exemplo, de ter-me perdido em Gion.
No bairro de Gion, o bairro das geishas.
Que agora os turistas não podem circular por lá.
Sim, de dois anos para cá.
Porque eles, nós, estávamos sendo demasiado agressivos com as geishas.
Aggressivos no sentido de quererem tirar fotografias.
E tocar-lhes. Era só espreitar e dei conta que estava por lá perdido, de noite. Eu assim: "Vou-me daqui embora antes que leve uma multa". Porque andei polícia. E embrinhei-me por lá e às tantas, estava também outro rapaz e para-me um táxi mesmo assim aos meus pés. Eu assim: "Agora era giro ver uma geisha". Pois verdade que sai uma geisha daquele táxi, uma senhora linda com um quimono rosa, com uns tons azulados. E ela sai do táxi e vê Que está ali um ocidental. Eu estava mais perto dela, mas de costas, e estava o outro rapaz de frente dela. E ela quando sai do táxi acelera o passo para fugir de nós, porque ela achou que nós íamos abordá-la, tirar fotos.
Sim.
E cai na sarjeta.
Oh, não!
Entre o passeio e a sarjeta, porque ela estava a sair do táxi.
Pobre.
E a sorte dela foi o rapaz agarrar a gueixa pela cintura.
Eita!
Parecia um filme.
Isto era um filme.
Literalmente, "Memórias de uma Gueixa". Eu queria ver uma gueixa e agora estava a gueixa caída nos braços do ocidental. E o Japão ofereceu-nos coisas muito interessantes.
Muito bem. O carimbo de passaporte ou visto mais difícil de obter?
Foi a Rússia.
A Rússia, muita complicação.
Muita burocracia, muita foto.
É um país a repetir, a Rússia?
Quando for possível, sim.
Sim. Recordação de viagem mais cara?
Foi na Malásia. O voo foi cancelado por umas ilhas da Malásia perto do Bornéu. O voo foi cancelado por causa de uma tempestade tropical. Fiquei a passear por lá, porque já não tinha hotel, estava à espera do voo. Entrei numa loja, vi uma jarra lindíssima e pensei: "Olha, que giro". E fiz para lá o câmbio mal feito, não sei quantas em dólar eu fiz. E a senhora pega na jarra, embrulha, linda, magnífica, e quando fui pagar aquilo foi um balúrdio.
Sim, balúrdio.
Uma coisa com dois zeros assim à direita.
Eita! Ainda tens a jarra?
Tenho, está lá magnífica.
Nem tudo está perdido.
Às vezes o gato passa por lá-
E tu tremes
...e eu arrepio. E eu acho que vou pôr em testamento para a jarra ir para o Museu do Oriente ou alguma coisa assim do gênero.
Muito bem. A refeição mais estranha?
Foi no Japão, num dia que fui fazer um trilho à floresta. Não comi nada e quando encontrei sociedade, estava um restaurantezinho, não percebi nada, ninguém me entendeu. E o senhor disse aquilo que era um suposto italiano. Eu disse: "Olha, já". O nosso discurso não foi fácil e eu pedi, supostamente seria uma spaghetti à carbonara, que era o que estava lá naqueles pratos de plástico que eles têm, e uma Coca-Cola. E o que é que o senhor me entrega? Um chocolate quente com chantilly. Foi ótimo, que eu gosto, mas a dita spaghetti à carbonara, que eu vi de plástico à porta, literalmente era espaguete com um peixe assim moído, que cheirava a peixe terrível, com umas natas por cima. E eu já tinha comido o chocolate quente com chantilly por cima. Eu assim: "Isto não vai correr nada bem".
E comeste, não?
Um bocadinho, a fome já era negra.
Ok, foste vencido pela fome.
Mas o cheiro acho que até hoje não esqueço.
Não esqueces. Olha, gostavas de viajar com?
Com a minha avó.
Boa!
Já cá não está, mas a minha avó. Viajou a alguns sítios, mas acho que ela também tinha a mesma paixão por conhecer o mundo.
Boa, era uma pessoa curiosa?
Era.
Fantástico, isso é bom. Luís, chegamos ao fim. Qual foi a música que escolheste para fechar a nossa conversa?
Foi Eddie Vedder. A música é "Hard Sun", que faz parte de um filme.
"Into the Wild", não é?
Pois é, é um filme difícil.
Também te inspira?
Inspira, não o final.
Aham. Pois, ele morre no autocarro, no Alasca.
Mas é um filme interessante.
Muito bem. Vês-te a viajar por aí também de mochila às costas, a caminhar?
Já fiz.
Já? Boa.
Sou democrático nas viagens, faço de tudo, desde que aconteça.
Desde que aconteça. O que tu queres é sair daqui e ir viajar.
O mundo espera-me.
Mais nada, é isso mesmo. Luís, foi um gosto, muito obrigado.
Igualmente.
Obrigado. Eddie Vedder a fechar as conversas do "Fim do Mundo" desta semana. Estamos de regresso dentro de oito dias. Já sabem, sejam bons e boas viagens.