Lume brando

Há dois Portugais, e não são a esquerda e a direita, nem o litoral e o interior, nem o público e o privado. São o país que está ao lume e o país que regula o fogão. E a fronteira entre os dois raramente se atravessa.

O país ao lume acorda cedo. São os milhões que enchem os comboios da linha de Sintra e os IC intransitáveis, que abrem as fábricas, os armazéns, as urgências, as escolas, os balcões, os campos e as cozinhas. São enfermeiras que seguram um SNS a que faltam médicos, professores que seguram uma escola a que falta tudo, técnicos que mantêm a funcionar os sistemas que ninguém vê — a luz, a água, os pagamentos, os impostos, os salários dos outros. São os emigrantes que enviam para cá o que fazem lá fora e os imigrantes que fazem cá o que as contas da Segurança Social já não escondem: sem eles, as pensões pagavam-se pior.

Este país ferve em lume brando desde sempre, e a temperatura está calibrada com precisão de engenheiro. Quente o suficiente para extrair tudo: o trabalho de um português médio entrega à Segurança Social 11% descontados diretamente do salário e mais 23,75% suportados pela entidade empregadora — 34,75% do custo do trabalho, sem qualquer teto, porque para contribuir nunca houve limite [Código Contributivo]. Numa carreira de 40 anos ao salário médio de 2025 (1.694€ brutos [INE]), são mais de 300 mil euros entregues ao sistema previdencial só por um trabalhador. A isto soma-se o IRS retido antes de o salário chegar à conta, o IVA em cada compra, o IMI da casa, mais de metade de cada depósito de combustível em impostos. Falha um pagamento e a máquina acorda em dias — penhora, coima, juros, execução fiscal automática. Para o país ao lume, a consequência é instantânea.

Mas nunca quente ao ponto de ferver. Quando pediram sacrifícios, fê-los: cortes, sobretaxas, congelamentos, uma década de salários parados. A bancarrota de 2011 pagou-a este país e saiu dela em três anos, com uma disciplina que envergonharia os credores, se os credores se envergonhassem. E depois voltou ao lume, a aguentar. É essa a função do fogo lento: cozinhar sem que a panela transborde.

Em troca, este país espera — e a espera está medida. Um processo em tribunal português demora, estimadamente, 792 dias na primeira instância e mais 836 na segunda, o quinto pior registo da União Europeia [Comissão Europeia, EU Justice Scoreboard 2023]. Nos tribunais administrativos, a primeira instância demora em média 792 dias contra cerca de 400 na média europeia — o dobro [CEPEJ, 2023]; uma impugnação judicial fiscal leva, em média, mais de seis anos [CAAD/BRP]. E a tendência não é de melhoria: as pendências administrativas e fiscais quase duplicaram num único ano, de 50 mil processos em 2023 para 91 mil em 2024 [DGPJ]. Para cobrar, o Estado dispõe de mecanismos automáticos e prazos rígidos; para julgar, mede-se em anos. O cidadão não enfrenta apenas a possibilidade de uma decisão desfavorável — enfrenta a possibilidade de nunca chegar a ter uma decisão.

Esperou também que a fatura da banca fosse de quem geriu os bancos, e recebeu-a no recibo de vencimento. As contas são do Tribunal de Contas, não de comentadores: entre 2008 e 2024, as intervenções públicas no setor financeiro custaram ao Estado, em termos líquidos, cerca de 21,3 mil milhões de euros — perto de 30 mil milhões de despesa contra pouco mais de 7 mil milhões recuperados [Tribunal de Contas, pareceres à Conta Geral do Estado]. O BES/Novo Banco foi a maior fatia; o BPN ultrapassou os 4 mil milhões; a recapitalização da Caixa custou em termos líquidos mais de 5 mil milhões; o Banif, perto de 3 mil [Tribunal de Contas]. Para escala: é mais do que a “bazuca” europeia do PRR. Honestidade obriga a dizer que nem tudo foi perda — o BCP e o BPI devolveram os apoios com juro, dando ao Estado um ganho superior a mil milhões — mas o saldo global equivale a cerca de um décimo do PIB, socializado com uma eficiência que a responsabilização nunca conheceu.

E quando é dispensado aos 62 anos com décadas de descontos, este país descobre que os tetos que nunca existiram para contribuir existem todos para receber. A indemnização: 14 dias por ano de antiguidade, com o máximo de 12 retribuições mensais [Código do Trabalho] — os anos a mais de casa não contam. O subsídio de desemprego: 65% da remuneração de referência, mas nunca acima de 2,5 vezes o IAS, com corte de 10% ao fim de seis meses [regime jurídico de proteção no desemprego]. E a pensão: em 2026, a idade normal de acesso é de 66 anos e 9 meses, e o fator de sustentabilidade aplicável às pensões antecipadas que dele não estejam isentas corresponde a uma redução de 17,63% — era 16,93% em 2025 [Portaria; GEP/MTSSS]. Não é ameaça futura nem previsão de comentador: está publicado. Quem descontou durante décadas não tem uma promessa vaga de segurança na velhice; tem uma fórmula legal que pode transformar essas décadas numa pensão substancialmente menor. Esperar pobre ou reformar-se pobre — é a escolha que a lei dá a quem cumpriu tudo.

Do outro lado vive o país que regula o fogão. É pequeno, denso e resistente à alternância: os partidos rodam, ele fica. É o país das nomeações e das comissões, das portas giratórias entre o governo, os reguladores, a banca e as consultoras — o circuito é conhecido e legal: sai-se de um ministério para a administração de uma empresa do setor antes tutelado, de um regulador para o regulado, de um banco para um gabinete e de volta ao banco. Não é preciso acusar ninguém de ilegalidade; é precisamente por ser legal que o problema é maior. O incentivo está desenhado para que o risco legislado seja sempre o risco dos outros. Quem escreve as regras da indemnização não será indemnizado por elas. Quem fixa o fator de sustentabilidade tem a sua sustentabilidade garantida por outra via. Quem deixa a justiça sem meios sabe de que lado da cozinha está quando os processos prescrevem.

Para este país, a máquina que executa um contribuinte em dias demora décadas a concluir seja o que for. E aqui está a chave de tudo, a que importa dizer sem paninhos quentes: a esses, nada acontece — literalmente nada. Nem condenação, nem absolvição, nem reforma, nem sequer a vergonha, que prescreve mais depressa que os crimes. Não é um país de absolvidos; é um país onde o sistema descobriu que não precisa de absolver ninguém — basta-lhe nunca concluir. A palavra exata não é corrupção, que exigiria sentenças; é imunidade: um desenho institucional onde as consequências, simplesmente, não entram.

É esta imunidade que explica o resto. Explica por que nenhum colapso bancário mudou a supervisão, nenhuma prescrição mudou os prazos da justiça, nenhum relatório mudou os incentivos. E explica os números que fecham o círculo: o PIB per capita português, em paridade de poder de compra, vale hoje cerca de 81% da média da União Europeia — o 18.º entre 27 —, ultrapassado desde 2000 por Malta, pela Chéquia, pela Eslovénia e pela Lituânia [Eurostat]. Não é por falta de esforço: os portugueses trabalham das jornadas mais longas da Europa. É por falta de produtividade — a riqueza gerada por hora de trabalho está 28% abaixo da média europeia, e os salários 35% abaixo [Eurostat; MTSSS, 2026]; em três décadas, a convergência foi praticamente nula. Trabalhar muito não é o mesmo que produzir muito: a produtividade depende da dimensão das empresas, do investimento, da qualificação das chefias e da qualidade das instituições — quase metade dos empregadores portugueses tem, no máximo, o ensino básico, contra 17% na média da UE. O esforço é do país ao lume; a organização do esforço é de quem regula o fogão. E é aí que Portugal perde.

Convém dizer o que este retrato não é. Não é o retrato de um povo desesperado — o desespero é passivo e este país está longe disso: trabalha, adapta-se, emigra e regressa, empreende contra a burocracia, e é procurado e premiado em qualquer lugar para onde vá. Não é o retrato de um povo enganado — o corte da pensão futura está publicado em Diário da República; a informação existe, o que falta é quem a diga alto. O problema de Portugal nunca foi a matéria-prima. É quem controla o fogo.

Porque o lume brando não é um fenómeno natural: é legislado. Foi calibrado artigo a artigo, ao longo de décadas, por governos de várias cores — e o que uma lei fez, outra lei pode desfazer. Justiça com prazos, como qualquer projeto tem. Supervisão com consequências, como qualquer auditoria digna do nome. Impostos que não distingam quem ganha do trabalho de quem ganha do capital. Proteção social que honre quem descontou sem teto. Incompatibilidades que obriguem quem decide a viver sob as regras que decide — a cozinhar, ao menos uma vez, na panela que regula.

O país ao lume não precisa de piedade, e menos ainda de resignação. Precisa de subir a temperatura — não a da violência, que só serviria de pretexto, mas a única que este sistema teme: a do escrutínio que não desarma, do voto que distingue, da exigência com nome, prazo e artigo. Os que regulam o fogão contam com o cansaço; é o combustível deles. A resposta não é desistir do lume. É lembrar-lhes, com a insistência de quem desconta todos os meses, que quem aguenta o fogo há gerações também sabe, quando quiser, apagá-lo e acendê-lo de novo — chama-se eleições, chama-se tribunais a funcionar, chama-se um contrato cumprido nos dois sentidos.

Até lá, que ninguém se engane com a mansidão da fervura. Lume brando não é paz. É só a temperatura a que a paciência ainda não evaporou.