Mamíferos, Doutores, Islamismo e ciência

Há dias, na CNN, discutia-se o afluxo súbito de milhares de marroquinos a Ceuta, muitos dos quais se lançaram ao mar num movimento de excitação e frenesim colectivo. Comparei a dinâmica da formação daquela multidão à de outros grupos de mamíferos submetidos a stress ou orientados para um objectivo comum.

Foi o bastante para o Dr. Rui Henrique Santos (RHS), num arroubo de virtude censória, me acusar de “animalizar” pessoas. Ignorou o argumento, mas revelou ansiosa prontidão para exibir superioridade moral. Ignorar os factos, indignar a verve  e salvar a Humanidade com demagogia, é uma especialidade só ao alcance de alguns.

Já tínhamos discordado antes, quando declarou que o principal elemento disruptor do Médio Oriente era Israel, e não o Irão. Para ele,  a República Islâmica é o actor racional. De facto, enquanto espera pelo Mhadi, financia o Hezbollah, arma os houthis, patrocina milícias no Iraque, sustenta o Hamas, mata a sua população, ataca navios civis, dispara mísseis balísticos e encaixa uma destruição devastadora com uma racionalidade inigualável.

Já Israel, ao tentar não ser destruído, perturba a harmonia regional.

Não resisto a uma pequena ironia académica. RHS doutorou-se com uma tese intitulada “A Morte Fica-vos Tão Bem: A Manipulação do Medo Existencial funciona como resposta a ameaças à Hegemonia Liberal?”. Um homem que em 343 páginas usa a  morte como metáfora poderia, por simples cortesia, conceder-me trinta segundos para fazer uma analogia com um mamífero.

É que sim, somos mesmo animais. Mamíferos, para ser exacto. A circunstância de usarmos gravata, termos diplomas e aparecermos na televisão não revogou a evolução. Partilhamos, por exemplo,  quase 99% das sequências de ADN alinháveis com chimpanzés e bonobos. Partilhamos também mecanismos neurológicos e hormonais de medo, fuga, agressão, imitação e protecção do grupo.

Afirmar isto é desumanizar alguém?  Ou, pelo contrário, reconhecer a inteira condição humana que integra um animal biológico, um indivíduo moral e uma criatura cultural? Não será, isso sim, desumanizante, imaginar que o homem é uma peça de porcelana progressista, liberta de instintos e totalmente apegada aos discursos do Engenheiro Guterres?

Os animais, sob certas condições, estreitam a atenção e tendem a imitar quem está próximo. Se todos correm numa direcção, correr para o lado contrário exige uma  vontade e uma informação que em, certas circunstâncias, não existe. Encontramos esta dinâmica em cardumes, bandos, manadas e multidões humanas.

Isto não significa que todas as multidões humanas enlouqueçam. Em muitas catástrofes surgem cooperação, disciplina e solidariedade. Mas a densidade, a incerteza e o medo podem desencadear movimentos colectivos com racionalidade mínima, ou mesmo nenhuma. Em Heysel, em 1985, morreram 39 pessoas; em Hillsborough, quatro anos depois, morreram 97. Nas batalhas, o fenómeno ocorre com frequência e leva muitas vezes ao colapso ou à galvanização. Não foi necessário que cada indivíduo decidisse esmagar outro. Bastaram a pressão física, a fuga, o erro e a propagação do movimento.

No mesmo debate referi as dificuldades reais de integração de parcelas das populações muçulmanas na Europa e o aumento da insegurança. RHS respondeu que “os estudos científicos” não confirmavam semelhante coisa. Não identificou os estudos, invocou simplesmente a Ciência, como outrora se invocava Santa Bárbara, para esconder a trovoada.

A verdade é que  a maioria dos  países ocidentais não regista a religião dos criminosos, logo não se sabe de que estudos falava  RHS.  Registam sexo (alguns nem isso), idade, nacionalidade, condição económica, etc. Por isso, não é possível estabelecer uma taxa uniforme de criminalidade por religião. Mas ausência de estatística não significa ausência de realidade.

Veja-se a Suécia. Um estudo oficial encontrou, entre 2007 e 2018, um risco de suspeita de violação 3,2 vezes superior quando o violador é  estrangeiro e, na Suécia, isso implica uma esmagadora maioria de muçulmanos.

Um estudo posterior analisou 4.032 condenados por violação ou tentativa, entre 2000 e 2020. No total, 63,1% tinham origem imigrante.

A televisão  sueca analisara já 843 condenações entre 2012 e 2017.  58% dos condenados eram estrangeiros e, nas violações cometidas por desconhecidos, mais de 80% tinham nascido fora da Suécia.

Isto prova que existe de uma sobre-representação que factores como  rendimento, assistência social, drogas, álcool, perturbações psiquiátricas e antecedentes criminais, não explicam. É, por isso, legítimo investigar normas culturais, religiosas, morais e éticas sobre mulheres, honra, consentimento, tutela masculina e liberdade sexual. O contrário é fechar deliberadamente os olhos para que todos os gatos sejam pardos.

Quanto ao terrorismo, a religião não é mero palpite. Quando uma criatura presta juramento ao Estado Islâmico, invoca Alá, grava um testamento de mártir e esfaqueia em nome do califado, não precisamos de pedir a RHS uma revisão pelos pares para descobrir a inspiração.

Segundo o relatório TE-SAT 2026 da Europol, em 2025 o jihadismo respondeu por mais de 50% dos ataques terroristas consumados, falhados ou frustrados na Europa Ocidental, e  por 71,4% das detenções relacionadas com terrorismo. Só em 6 ataques (Madrid, Londres, Berlim, Paris, Nice, Bruxelas e Manchester) morreram 515 pessoas.

Os islamistas são uma minoria, naturalmente. Mas também eram os bolcheviques, na Rússia, os nazis na Alemanha, os fascistas na Itália, e os professores e estudantes da esquerda terrorista na Europa “burguesa”. A História é frequentemente desviada por minorias organizadas, fanáticas e violentas, face a maiorias cansadas, intimidadas ou entretidas a sinalizar virtude.

O importante não é quantos empunham a faca, mas sim  quantos aprovam o objectivo, justificam o agressor, intimidam os críticos ou preferem calar-se por medo.

Um estudo (dirigido por Ruud Koopmans), baseado em inquéritos a muçulmanos e a cristãos nativos de seis países europeus, descobriu que cerca de 44% dos muçulmanos concordam simultaneamente com o regresso às raízes religiosas, a existência de uma única interpretação correcta do Corão e a superioridade da sharia sobre as leis da terra. Entre os cristãos, a combinação equivalente foi irrisória. O estudo permite concluir que o  problema não foi inventado por racistas e xenófobos, depois de uns copos no Martim Moniz. Uma análise honesta tem de conseguir perceber que há aqui ameaças sérias à liberdade e à segurança, até porque o mecanismo “democracia + demografia” levará inevitavelmente à imposição de valores que nos são estranhos. Em locais como Londres, Hamtramck, Birmingham, etc., onde foram eleitos muçulmanos para poderes locais, observam-se concessões graduais, pressão social e alteração enviesada e  paulatina de normas.

Chegamos assim à questão dos valores.

A civilização ocidental contemporânea resulta do encontro, por vezes sangrento, entre Jerusalém, Atenas, Roma, o cristianismo, o direito natural, a Reforma, o Iluminismo e a ciência moderna. Há diferenças profundas entre a democracia moderna, que Nietzsche considerava a versão secular do cristianismo, e a tradição islâmica.

Cristo não fundou um Estado, não comandou exércitos nem produziu um código penal. Separou Deus de César, recusou responder à violência com violência e colocou no centro de tudo  o perdão, a consciência individual, e a dignidade de cada pessoa. Os cristãos traíram frequentemente estes princípios, é verdade, mas, ao fazê-lo, eram julgados por eles.

Maomé foi profeta, legislador, governante, juiz, exemplo moral e chefe militar. Na tradição islâmica, Deus é César. A sharia regula culto, poder, família, herança, sexualidade, estatuto da mulher, relações com não-muçulmanos, guerra, apostasia e blasfémia. Regula tudo e o Islão não é uma religião privada.

Não é que todos os muçulmanos desejem aplicar todas essas normas. O problema é que quem pretende aplicá-las se apoia em textos imperativos com carácter legal e ético, precedentes jurídicos e exemplos históricos com uma autoridade religiosa difícil de neutralizar.  Muitas desses normativos são totalmente incompatíveis com os  das sociedades democráticas ocidentais.

É por isso que a integração exige adesão efectiva aos nossos valores de raiz cristã (segundo Nietzsche) , à primazia da lei civil, à liberdade de abandonar ou criticar uma religião, à igualdade entre homens e mulheres, à liberdade sexual dos adultos, à liberdade artística e ao direito de representar, satirizar ou ridicularizar figuras sagradas. Quem vem viver para a Europa não é obrigado a beber vinho, comer leitão da Bairrada ou tornar-se admirador de Voltaire. Mas tem de ser obrigado a aceitar que os outros possam fazê-lo sem receber ameaças de morte. É suicida transformar a integração numa negociação sobre os nossos próprios princípios. Uma sociedade aberta pode conviver com religiões. O que não pode é fingir que todas as religiões convivem igualmente com a sociedade aberta. Não se trata de perseguir crentes, insultar muçulmanos, ou negar que muitos vivem a sua fé de modo pacífico e compatível com a liberdade. A questão é reconhecer que o islamismo transforma a religião num sistema de poder total, e que esse sistema entra em colisão directa com a nossa liberdade. O respeito pelas pessoas não impõe respeito pelas ideias que elas professam, porque as ideias têm consequências.

No fundo, o episódio televisivo que motivou este artigo,  resumiu bem o nosso problema.

Perante uma analogia incómoda, sinaliza-se virtude, e discute-se  a palavra “animalizar”. Face a  atentados, crime, intimidação religiosa, segregação e conflito de valores, invocam-se vagamente “estudos científicos”,  e outras vacuidades, para evitar enfrentar os factos.

Em vez de observarmos o elefante na sala, debatemos se é ofensivo chamar-lhe mamífero.

Mas é. E nós também somos. A diferença é que o elefante não invoca relatórios “científicos” para fingir que não está lá.

Em suma,  invocar vagos  “estudos científicos” com ar de autoridade, sem os concretizar, é apenas uma forma pouco académica de assobiar para o ar. Felizmente a Helena Ferro Gouveia, foi concreta nos números e calou cientificamente o assobio.