O noticiário recente sobre o Supremo se assemelha mais à cobertura esportiva de um ringue de luta livre que à de um tribunal, com todo respeito aos praticantes de luta livre.
André Mendonça emprega o caos institucional como estratégia de impacto eleitoral. Se inocentes fôssemos, poderíamos supor que o ministro o faz de forma a defender prerrogativas judiciais, mas ninguém mais acredita em juízes heróis desde a Lava Jato; Mendonça tem plena consciência de que as condições institucionais dadas o favorecem —a saber, a fragilidade e o ego de Moraes, a opacidade de Fachin e a eleição competitiva do filho do presidente que o nomeou para o cargo.
De jurídico, os atos de Mendonça têm apenas a forma: determina, de ofício, o afastamento da alta cúpula da PF –a mesma que efetivamente melou o esquema de roubo do Vorcaro, por suposto monitoramento de Mendonça pela PF.
Se, para Mendonça, a situação lembra Orwell na distopia "1984", a sua resposta lembra a não menos distópica obra "O Processo", de Kafka, na qual a lei serve apenas de pretexto para o absurdo.
O fato de Mendonça ser o relator do inquérito sobre o qual escolhe o que tornar publico ou não mostra que aprendeu bem na escola de Curitiba de juízes políticos.
É evidente o modo politizado como Mendonça decide. Afasta cautelarmente a liderança da Polícia Federal, após requerimento do partido Novo, mesmo após o presidente do STF, Edson Fachin, corretamente pedir no último dia 3 as manifestações das partes envolvidas e depois de o próprio Mendonça ter indicado, dois dias antes, que a matéria deveria ser analisada em plenário.
Mais que no caos, Mendonça aposta na espetacularização como arma política, o que apenas beneficia o campo político bolsonarista, ao qual foi filiado como jurista no governo Bolsonaro.
Ao selecionar o que, quando e como decidir, conforme o tempo político, com levantamentos seletivos de sigilo a menos de quatro semanas do primeiro turno, Mendonça quer que o eleitorado vote pensando em Moraes e na Polícia Federal.
Não quer que o eleitorado se lembre de como os Bolsonaros e aliados estão profundamente imbricados com Vorcaro nem de como o ex-banqueiro roubou dinheiro público e de pessoas pobres —em um esquema bilionário envolvendo, em sua grande maioria, integrantes da direita nacional. Ele quer, por fim, que o eleitor esqueça como o próprio Mendonça se assemelha mais a Sérgio Moro que a um juiz que age em nome da lei.
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