Desde os primórdios do pensamento democrático que a noção de sufrágio parte de um princípio filosoficamente positivista: o pressuposto de que elegemos aqueles que consideramos serem os melhores. O positivismo deste pressuposto tem como garante conjunturas em que a vida pública seja um espelho natural do melhor que uma dada sociedade tem para oferecer e em que, consequentemente, a atividade política seja encarregue aos quadros mais qualificados e empenhados da referida sociedade. Ora, num cenário em que estas conjunturas se tornam gradualmente mais escassas, a democracia, de modo igualmente gradual, entra em crise. A cerca de um mês das eleições para a Presidência da República Federativa do Brasil, previstas para o próximo dia 4 de outubro, creio estar em condições de admitir que estamos perante um destes cenários.
Apesar de naturalmente opinativa, a minha premissa não carece de evidências. Neste momento, não só as sondagens deixam clara a baixíssima possibilidade de um vencedor à primeira volta (Lula da Silva lidera as sondagens com 39% das intenções de voto, seguido de Flávio Bolsonaro, com 33%), como nos mostram algo bastante mais pertinente: as elevadas taxas de rejeição de ambos os principais candidatos. Cerca de 45% dos brasileiros afirma não votar em Lula da Silva “de jeito nenhum” e 46% diz o mesmo acerca de Flávio Bolsonaro. Sendo pouco verosímil um cenário em que mais algum candidato se posicione bem o suficiente para ter hipóteses sérias de vencer a corrida (o terceiro colocado, Augusto Cury, conta com apenas 11%), é caso para dizer que, de acordo com o que inicialmente admiti, não vencerá o mais aprovado ou o melhor, mas o menos rejeitado ou, permitam-me o termo, o menos mau. Creio que para compreendermos um fenómeno eleitoral desta magnitude devemos, acima de tudo, procurar estudar os objetos do sufrágio: os candidatos.
Luiz Inácio Lula da Silva candidata-se em busca do seu quarto mandato presidencial, tendo já presidido à República Federativa do Brasil entre 2003 e 2007, entre 2007 e 2011 e chegando agora ao fim do atual mandato, iniciado em 2023. Se por um lado conta com um eleitorado fiel (constituído, em grande parte, pelas massas trabalhadoras de baixos rendimentos e com menores níveis de escolaridade), por outro, o líder do PT vê a sua imagem pública significativamente desgastada. Para lá dos danos naturais dos escândalos de corrupção do seu passado e presente político (incluindo as investigações em torno de um possível tráfico de influências por parte do seu filho, popularmente conhecido como Lulinha), este desgaste eleitoral advém da inércia do atual mandato presidencial. Com um Congresso Nacional altamente fragmentado, Lula da Silva foi incapaz de executar o seu mandato com fluidez. Conta, no atual mandato, com um total de 23 derrotas relevantes no Congresso, entre as quais, ainda este ano, a rejeição da indicação presidencial de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal; foi a primeira vez em mais de um século que o Senado recusou uma indicação presidencial ao STF. As consequências deste entrave político refletem-se numa campanha presa a um passado já longínquo de políticas sociais como o Bolsa Família (com origem em 2003) e o ProUni (de 2004). Não questionando a pertinência histórica destas iniciativas, creio não ser, de todo, polémico admitir que o peso que estas ainda assumem na discursividade política petista em pleno 2026 não configura exatamente um sintoma de uma candidatura com os olhos no futuro.
Na sequência da prisão de Jair Bolsonaro por uma das mais risíveis tentativas de Golpe de Estado da história, é o seu filho Flávio quem lidera a candidatura do Partido Liberal (que de liberal não tem rigorosamente nada) à Presidência da República. A par do eleitorado herdado do pai, Flávio Bolsonaro conta com uma massa eleitoral motivada por um sentido de “anti-petismo pragmático”, disposta a apoiá-lo se isso levar à queda de Lula da Silva. A candidatura bolsonarista carrega consigo um passado negro, muito marcado pelo negacionismo em relação à vacinação para a COVID-19 que levou, durante o mandato presidencial de Jair Bolsonaro, a cerca de 693 mil mortes. Ademais, Flávio Bolsonaro encontra-se emaranhado num conjunto de escândalos de corrupção, entre os quais o pedido de R$ 61 milhões a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, também ele envolvido num enorme escândalo financeiro que culminou na liquidação do Banco Master pelo Banco Central do Brasil e na prisão de Vorcaro em 2025, para financiar um filme (péssimo, diga-se de passagem) acerca da vida de Jair Bolsonaro. Outra questão caricata ligada à candidatura bolsonarista é o compromisso, já assumido publicamente por Flávio, em emitir um perdão presidencial para fazer aprovar a anistia do seu pai, mesmo já tendo obtido uma resposta veemente e negativa da parte do Supremo Tribunal Federal, que afirma que, perante uma tentativa de Golpe de Estado, o perdão presidencial é impotente. Ao contrário do seu pai, vincadamente extremista e negacionista, Flávio Bolsonaro acaba por ser uma espécie de “apátrida ideológico”: demasiado frouxo para os bolsonaristas tradicionais e demasiado radical, corrupto e intelectualmente limitado para qualquer um com os mínimos de ética democrática.
De acordo com a tradição democrática brasileira realizou-se, no passado dia 23 de agosto, o primeiro debate oficial da campanha eleitoral. Apesar de, naturalmente, todos os candidatos terem sido convidados, apenas três marcaram presença – Augusto Cury (Avante), Renan Santos (MISSÃO) e Ronaldo Caiado (PSD) -, fazendo deste o debate mais vazio desde 1989. Se, por um lado, é lamentável a ausência dos principais candidatos, por outro, este vazio constituiu uma oportunidade única para os três presentes que, à data, tinham juntos apenas cerca de 10% das intenções de voto. Com um Ronaldo Caiado mais insosso e menos carismático, foram os restantes dois que agarraram mais efusivamente esta oportunidade. Com uma abordagem que roça a esquizofrenia política, digna de alguém cuja experiência advém de fazer vídeos para o Youtube, Renan Santos destacou-se pela agressividade excessiva e pela postura caricatural (que inclui um número, já nos momentos posteriores ao debate, com duas fraldas nas mãos, uma para cada um dos dois principais ausentes da noite). Destacou-se particularmente em matéria de segurança pública, tecendo críticas à promiscuidade entre o Governo e o crime organizado, prometendo eliminar este através de um “banho de sangue”. Num tom bastante mais sereno, apesar de igualmente inexperiente, Augusto Cury procurou apresentar-se como o candidato da “pacificação”, termo que usou para fundamentar a postura que defende para a recuperação das relações com os Estados Unidos da América. Ainda no âmbito das Relações Internacionais, Cury destaca a potencialidade da produção agrícola como ativo para a pertinência do Brasil no xadrez mundial. A estratégia demarcada por uma imagem de serenidade e pacificação parece ter compensado, visto que, desde o debate, surgem já sondagens que lhe atribuem 11% das intenções de voto (contava com apenas 2% anteriormente), assim atingindo o terceiro lugar na disputa pela presidência. Cury procura destacar-se dos demais através da criação de uma aparência de maturidade acrescida, como se quisesse mostrar ao eleitorado brasileiro que é o “adulto na sala”. Creio, porém, que o tempo comprovará que para se ser o adulto na sala é preciso conhecer-se a sala devidamente. Na sala da política, Cury é ainda um adolescente ousado.
Dito tudo isto, compreendemos que o eleitor brasileiro é forçado a escolher entre um corrupto de esquerda, um corrupto de direita, um Youtuber esquizofrénico e um psiquiatra sem experiência política. Esta ausência de bons quadros políticos, éticos e intelectuais para a presidência da República não prestigia de todo a qualidade da democracia brasileira nem configura um bom agouro para o futuro dos brasileiros. Ademais, perante o estado de quase niilismo socio-político (conceito particularmente bem desenvolvido por Rob Riemen na sua tese “O Eterno Retorno do Fascismo”, cuja leitura recomendo) da massa eleitoral jovem, mais regida pelo Tik Tok do que propriamente pelo estudo ou pela leitura, é previsível que os candidatos mais populistas e emocionais saiam, de certo modo, beneficiados. Daí decorre, muito provavelmente, o sucesso de Renan Santos nas redes sociais.
Apesar de todas as sondagens e previsões, estamos perante um cenário em que ainda muito pode mudar. À política brasileira podem ser atribuídas muitas características, mas a previsibilidade nunca foi uma delas. Já algures durante a década de 60, Clarice Lispector, com a delicada ironia a que sempre habituou os leitores, o dizia – “Perguntaram-me uma vez se eu saberia calcular o Brasil daqui a 25 anos. Nem daqui a 25 minutos, quanto mais 25 anos”.