Paula Gama: Motorista de app autista viraliza com lista de regras para passageiros

A lista dividiu opiniões. Parte dos usuários viu as orientações como uma maneira clara de evitar problemas e respeitar as condições de trabalho do motorista. Outros consideraram os pedidos excessivos para uma atividade que envolve atendimento ao público.

O caso abre uma discussão pouco explorada pelas próprias plataformas: como motoristas autistas ou neurodivergentes podem comunicar suas necessidades antes do início da corrida?

A reportagem não conseguiu encontrar o profissional autor da placa, mas conversou com Érick Ribeiro, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA), que também atua como motorista. Por mais de três anos, ele trabalhou com o transporte via aplicativo, mas há seis meses foi contratado por uma empresa para fazer entregas. Érick explica que o trabalho tem novas dificuldades, como lidar com endereços errados e comunicação ambígua por parte dos clientes, por outro lado, tem maior previsibilidade.

"Meu nível de autismo é leve, mas tenho dificuldade de me concentrar com barulho e conversas paralelas. Quando o passageiro ficava assistindo vídeos, rindo alto ou puxando assunto, aquilo me atrapalhava. Em alguns casos, pedia para abaixar o som do celular. Não tive problemas sérios, nunca levei uma multa de trânsito e nem tive reclamação de passageiro. Mas se o aplicativo tivesse uma sinalização de motorista autista, teria sido mais fácil", conta.

De acordo com Érick o trabalho por aplicativo, apesar dos desafios, foi essencial para lhe dar experiência em uma profissão. "Não tenho faculdade, antes de atender como Uber e 99, eu tinha que viver apenas de auxílios do governo e alguns bicos. Com os aplicativos, encontrei uma profissão, ganhei autonomia e experiência, hoje tenho carteira assinada e vejo a possibilidade de ter uma família no futuro."

O Censo 2022 identificou 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista no Brasil, o equivalente a 1,2% da população. Ainda não há, porém, um retrato oficial de quantas estão no mercado de trabalho, muito menos de quantas dirigem por aplicativos.