Mulher perde carro e gasta mais de R$ 250 mil após vício em bets em SP | G1

A vítima preferiu não se identificar e pediu para que a cidade em que mora não seja divulgada por vergonha da situação. Ela contou que, nos últimos dois anos, comprometeu empréstimos, cartões e linhas de crédito para continuar apostando.

“Empréstimos, cartões, linhas de crédito, me endividei, acabei vendendo até meu carro para quitar dívida, perdi minha sanidade mental, minha saúde financeira. Acho que mais de uns R$ 250 mil, creio eu, mais ou menos”, contou.

Segundo a 3ª edição do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, com base em dados do Banco Central, as bets já movimentaram R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias brasileiras.

O avanço das bets também atinge cada vez mais as mulheres: segundo pesquisa recente do Estúdio Clarice, 42% das brasileiras já apostaram ou ainda apostam em plataformas online. (Leia abaixo)

Crescimento das apostas acontece também no público feminino, segundo a 3ª edição do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros — Foto: Reprodução EPTV

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Vergonha e dependência familiar

A vida hoje é de pura dependência de familiares. Sem ajuda, ela diz que não consegue nem comprar um pão. Além do endividamento, o psicológico também ficou abalado.

“Eu me sinto envergonhada diante de mim quando eu me olho no espelho. Muita vergonha. E eu acho que deveria eliminar isso, estar adoecendo a população. E não estão vendo ou estão tapando os olhos, entendeu?”

Ela diz que não joga desde fevereiro, e que nesse período, procurou ajuda psicológica e assistência jurídica para tentar ressarcimento das plataformas.

Também se cadastrou em um programa chamado de autoexclusão do Ministério da Fazenda.

Apesar de várias casas de apostas serem legalizadas pelo governo brasileiro, o cadastro faz com que a pessoa tenha o acesso bloqueado aos sistemas por pelo menos um mês.

“Eu aprendi que só começa a ganhar quando você para. Mesmo que seja um pouco, que vai sobrar do salário, você consegue ir subindo, entendeu? Você vai começar a se reerguer. Porque se você continuar jogando, você nunca vai sair disso. É um vício difícil de sair", contou.

Mulher perde carro e gasta mais de R$ 250 mil após vício em bets no interior de SP — Foto: Reprodução EPTV

Mulheres e vício em apostas

O caso chama atenção para um problema que cresce no Brasil e que não atinge apenas os homens. No ano passado, famílias brasileiras desembolsaram R$ 62,5 bilhões do orçamento para apostar, segundo a terceira edição do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros, com base em dados do Banco Central.

Uma pesquisa do Estúdio Clarice divulgada recentemente também analisou o envolvimento das mulheres com as bets. Mais de 2 mil pessoas foram ouvidas no levantamento feito pelo Estúdio Clarice em parceria com a consultoria Estratégia Latina e o Instituto de Pesquisa e Ideia.

Uma das análises aponta diferenças na forma como homens e mulheres enxergam as apostas. As mulheres veem nas apostas online uma tentativa de complemento de renda, enquanto os homens encaram as bets mais como entretenimento.

No levantamento, 67% das mulheres e 59% dos homens afirmaram que as apostas estão acabando com as famílias brasileiras.

Outro dado da pesquisa mostra que 72% das apostadoras são mães. Mulheres com filhos têm mais probabilidade de entrar no jogo do que mulheres sem filhos.

“Porque elas entendem que o jogo, a aposta online, é um meio rápido e fácil de conseguir uma renda e complementar o que é necessário para dar conta ali do dia a dia", infomou Mariana Ribeiro, diretora do Estúdio Clarice.

Homens são maioria entre apostadores

Apesar do crescimento da participação feminina, os homens continuam sendo maioria entre os apostadores online e representam cerca de 66%. Ainda segundo o levantamento, 42% das mulheres apostam ou já apostaram.

A pesquisa também mostrou que 62% das mulheres apoiam a proibição das casas de apostas. Entre os homens, 50% têm a mesma opinião.

“Ver as pessoas jogando, pensar que a gente vai ganhar o tanto deles também é ilusão. Não ganha nada", disse a autônoma Ellen Cristina.

Ciclo vicioso

Para a psicóloga Vilma Aparecida Dias, o problema pode começar com a expectativa de ganhar dinheiro e se transformar em um ciclo difícil de interromper.

“É uma ação que vai virando uma bola de neve. Ela começa a jogar primeiro porque ela vai ganhar, e então, no psiquismo, isso é uma recompensa. A recompensa do ganho e depois a reparação da perda", explicou.

Segundo ela, reconhecer o problema é o primeiro passo para buscar ajuda para o vício, aceitar e procurar ajuda profissional.

“O caminho de volta é primeiro o reconhecimento, você admitir que tem esse problema. E depois aceitar, porque muitos não aceitam e falam não, eu jogo só um pouquinho de vez em quando, não me afeta. E procurar ajuda profissional, apoio pode ser psicológico ou uma equipe multiprofissional. E é importante também o apoio da família" finalizou a psicóloga Vilma Aparecida Dias.