No Nepal, famílias fazem funerais sem corpos após inundações; 4.500 estão desaparecidos

Cinco homens de cabeça raspada, usando shorts, realizam um ritual à beira de um rio, com um deles segurando uma chama. Há pilhas de palha e tecido laranja no chão, com oferendas em folhas verdes. Um sexto homem ajoelhado participa do ritual. O céu está nublado e há vegetação e uma ponte ao fundo
Familiares realizam ritos hindus nepaleses de cremação de efígies feitas de grama Kush durante funerais simbólicos de vítimas de enchentes ainda dadas como desaparecidas, no templo de Pashupatinath, em Catmandu. 02/09/2026 -  (PRAKASH MATHEMA/AFP)

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Uma semana após as inundações repentinas que devastaram a região entre o Nepal e o Tibete, um território autônomo chinês, famílias nepalesas começaram a organizar, nesta quarta-feira, 2, cerimônias fúnebres simbólicas para “libertar” as almas dos parentes desaparecidos. O paradeiro de quase 4.500 pessoas segue desconhecido, e a maioria pode nem sequer ser encontrada sob o tsunami de lama e detritos que engoliu casas, ruas, pontes e usinas elétricas.

A tragédia, provocada pelo colapso parcial de uma geleira que caiu em um rio, deixou mais de 1.100 mortos nos dois lados da fronteira. Após vários dias de procura em abrigos e necrotérios, parentes de algumas pessoas que não foram localizadas perderam a esperança e começaram a seguir os últimos ritos, queimando efígies de palha em rituais hindus.

“Precisamos fazer isso para libertar a alma dele, para que fique em paz e feliz onde quer que esteja”, afirmou Dolma Newar Tamang, ao lado do filho, durante o funeral do marido. Ele estava de viagem para a China no momento da tragédia.

“Vi as notícias e liguei para ele”, contou a esposa à agência de notícias AFP. “Ele nunca atendeu.”

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Busca por desaparecidos

Com todos os necrotérios lotados, as autoridades nepalesas também autorizaram, desde o último domingo, por razões sanitárias, o sepultamento de vítimas sem esperar a identificação formal, após exames de DNA.

Apesar dos indícios de impotência, equipes de resgate nepalesas mantêm a esperança de encontrar sobreviventes uma semana após o desastre, em particular nos vários túneis das centrais hidrelétricas da região. Socorristas conseguiram, por ora, apenas recuperar corpos, mas as equipes continuam escavando, perfurando e removendo escombros com a esperança de chegar a possíveis pessoas bloqueadas pela lama.

O ministro das Relações Exteriores do Nepal, Shisir Khanal, disse que ainda mantém a esperança de que alguns dos milhares de desaparecidos possam estar vivos.

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“Milagres acontecem”, disse ele à AFP. “No momento, não quero perder completamente a esperança.”

Entre as pessoas desaparecidas estão mais de 800 estrangeiros de mais de 30 países: 583 no Nepal e 261 na China. As pessoas não localizadas incluem turistas que viajaram para fazer trilhas no Himalaia, assim como peregrinos hindus que buscavam paz espiritual no monte sagrado Kailash, no Tibete.

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Crise climática

O Nepal, uma nação majoritariamente rural de 30 milhões de habitantes, contribui pouco para as emissões de gases do efeito estufa que impulsionam o aquecimento global, mas está entre os que mais sofrem com suas consequências.

O primeiro-ministro nepalês, Balendra Shah, afirmou que a catástrofe foi “um sinal sério de que os riscos que enfrentamos na região do Himalaia estão aumentando na mesma proporção das mudanças climáticas”.

À medida que as temperaturas globais sobem, o derretimento das geleiras na maior cordilheira do mundo acelera: elas perderam cerca de 12% de sua área superficial total e 9% de suas reservas estimadas de gelo entre 1990 e 2020.

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As massas de gelo das cadeias de montanhas do Himalaia e do Hindu Kush são uma fonte de água crucial para milhões de pessoas nas regiões montanhosas e nos vales fluviais do sul e do sudeste da Ásia.

Além disso, o Nepal, que neste mês completa um ano dos protestos em massa contra a corrupção e uma economia devastada que derrubaram o governo anterior, tem recursos limitados para responder a um desastre desta dimensão.

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