No news, good news

O nono de dez filhos, passei a minha infância inteira a ouvir o meu pai repetir a expressão que uso no título, sempre que temporariamente não se sabia de alguém, ou que as notícias de alguém demoravam a chegar.

Embora ouvindo os meus irmãos a falar das nossas memórias da infância eu tenha chegado à conclusão de que vivemos todos em casas e famílias diferentes, há coisas razoavelmente consensuais e, uma delas, foi a imensa liberdade de que gozámos, tendo essencialmente duas obrigações: ter boas notas e chegar a horas às refeições.

Tudo o resto era menos relevante, cada um andava por onde queria, com o meu pai sempre a dizer “no news, good news” que é uma forma diferente do velho aforismo popular de que as más notícias correm depressa.

Quando tentava perceber se o quase silêncio sepulcral da imprensa sobre o início das classificações da segunda fase era uma manifestação do facto de a normalidade não ser notícia, ou uma concepção de jornalismo que entendia que os leitores não tinham interesse em saber que, aparentemente, os erros do processo da primeira fase de exames tinham sido corrigidos a tempo da correcção da segunda fase, alguém me disse que uma velha máxima do jornalismo era “good news, no news”.

Ainda perguntei se isso se aplicava ao cessar-fogo ou acordo de paz numa guerra, mas só no dia seguinte tive consciência mais clara da inversão dos termos da expressão canónica.

A expressão original é tranquilizadora, no sentido de retirar importância ao desconhecimento de qualquer coisa, no pressuposto de que se alguma coisa corre mal, rapidamente ficamos a saber.

É de facto assim, é profundamente humano que seja assim e acho até que é pena que com a possibilidade de estarmos sempre em contacto estejamos a perder a capacidade de não saber tudo, a toda a hora, em toda a parte.

Mas a expressão invertida é uma perversão relevante do jornalismo, não se trata de uma formulação diferente do velho princípio de que só há notícia quando um homem morde um cão, não na inversa – a tal ideia razoavelmente consensual de que a normalidade não é notícia, como dizia das famílias, de forma bem mais expressiva, Dostoievski – mas sim a defesa de uma concepção de jornalismo de sangue e lágrimas, que se recusa a informar os seus leitores de que, para alívio de todos, as coisas parecem estar a correr bem com a classificação da segunda fase de exames.

A prática parece confirmar essa estranha concepção de jornalismo, como se pode ver nesta peça do Observador, quando tudo parece estar a correr bem, a jornalista (esta, mas poderia ser outra, eu diria que é uma patologia generalizada do jornalismo actual) escolhe ouvir umas pessoas cuja representatividade é discutível, que permanentemente desenham nuvens negras, porque são essas que preocupam as pessoas.

Esta forma de jornalismo mais centrado nas emoções dos leitores que na realidade verificável é co-responsável por um estado de permanente agitação do mundo político-mediático, sem grande relação com a tranquilidade das sociedades de abundância que somos.

Não, os jornalistas não têm qualquer responsabilidade nos erros de processo de transição da classificação digital dos exames, essa responsabilidade é, evidentemente, de Fernando Alexandre, do ponto de vista político, e haverá tempo para a discutir.

Não me parece, no entanto, que o mundo mediático se possa eximir à responsabilidade de, por pensamento, palavras, actos e omissões, ter contribuído fortemente para potenciar a legítima e normal inquietação de alunos e famílias, perante um processo cujos resultados parecem ser, globalmente, muito positivos para o futuro, embora com um preço imediato mais alto do que se esperaria, em perturbação da vida de milhares de pessoas.

Já tínhamos visto isto a outra escala, por exemplo, na cobertura noticiosa da epidemia relacionada com a COVID, e é pena que, aparentemente, não estejamos a aprender com esses erros.