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“Estamos perante uma situação muito preocupante. Todos os verões assistimos a uma diminuição das dádivas de sangue, mas este ano o problema é agravado pelas dificuldades na resposta operacional, colocando em risco a estabilidade das reservas nacionais”, afirmou, em comunicado, Alberto Mota, presidente da Fepodabes.
“Nas últimas semanas tem-se verificado uma diminuição significativa da comparência dos dadores de sangue”, o “calor extremo e o período de férias de verão provocam, todos os anos, uma redução acentuada das dádivas” e “as elevadas temperaturas e a desidratação associada afastam muitos dadores habituais, dificultando a reposição das reservas de sangue”, refere a federação, no comunicado.
Portugal necessita, em média, de cerca de 1.100 unidades de sangue por dia para responder às necessidades dos hospitais e a Fepodabes recorda que é necessário combater a sazonalidade.
Direitos e deveres dos dadores de sangue
Todas as pessoas podem dar sangue?
Todas as pessoas que tenham mais de 18 anos de idade (ou 17 anos mediante consentimento dos pais); 50kg de peso e estilos e hábitos de vida saudáveis. Antes da dádiva de sangue é realizada uma avaliação clínica (triagem) por um profissional de saúde qualificado para avaliar o risco. Se não forem identificadas situações que possam pôr em causa a sua segurança, enquanto dador, e a segurança do receptor, enquanto doente, poderá dar sangue.
Estou a tomar medicamentos. Posso dar sangue?
Depende. Há medicamentos que podem levar à suspensão temporária ou definitiva da possibilidade de dar sangue. Receitados pelo médico ou não, o nome dos medicamentos devem ser comunicados ao profissional de saúde.
Tive anemia. Posso dar sangue?
Deve consultar um profissional de saúde. A causa da anemia deve ser avaliada e confirmada a normalização do valor da hemoglobina. É aconselhável a avaliação das reservas de ferro após a terapêutica.
A obesidade é impeditiva para dar sangue?
A obesidade por si só não contra-indica a dádiva de sangue, desde que não esteja associada a doenças crónicas como diabetes, hipertensão ou doenças cardiovasculares, entre outras.
Fumo "um charro" de vez em quando. Posso dar sangue?
O consumo de droga requer uma avaliação clínica pelo profissional de saúde qualificado sobre a frequência do consumo e a forma de administração, pelo que deverá sempre referir esta situação no âmbito da triagem cínica.
Posso transmitir COVID-19 ao dar sangue?
Não há evidência científica de que a COVID-19 seja transmitida pela transfusão, podendo contudo haver um risco teórico de transmissibilidade. Os serviços de sangue têm implementados critérios de elegibilidade para os dadores de sangue face a contactos de risco ou de doença COVID-19. Está também implementado um procedimento de vigilância, a informação pós dádiva, através do qual os dadores são informados de que devem contactar o serviço de sangue após a dádiva em caso de doença nos sete dias seguintes à dádiva.
Tive um aborto/interrupção da gravidez. Poderei dar sangue?
Uma interrupção de gravidez tem associado um período de suspensão de seis meses.
Tive epilepsia. Posso ser dador de sangue?
A epilepsia contra-indica a dádiva de sangue. Se convulsão durante a infância, ou decorridos pelo menos três anos desde a última data em que a pessoa candidata à dádiva tomou medicação anticonvulsiva e sem recidiva de convulsões, poderá candidatar-se à dádiva de sangue.
Tenho uma tatuagem. Posso dar sangue?
Pode candidatar-se à dádiva de sangue quatro meses depois da realização da tatuagem. As pinturas, stencilling e uso de transfers não contra-indicam a dádiva de sangue. A mesma coisa em relação à colocação de piercings.
Tenho mais de 65 anos de idade. Posso dar sangue?
As pessoas com mais de 65 anos poderão candidatar-se à dádiva de sangue sendo a sua elegibilidade para a dádiva um critério do médico do serviço de sangue.
Tenho fibromialgia. Posso dar sangue?
A fibromialgia é uma síndroma dolorosa não inflamatória caracterizada por dores musculares difusas, fadiga, parestesias e distúrbios do sono. Se a medicação não contra-indicar a dádiva de sangue, e se a pessoa se sentir bem, poderá candidatar-se à dádiva de sangue.
Deixam-me dar sangue se tiver a tensão elevada?
A tensão arterial elevada é um factor de risco para a doença cardiovascular e a existência de doença pode condicionar a resposta do coração à dádiva de sangue. As pessoas hipertensas podem ser admitidas desde que não estejam em estudo e apresentem uma hipertensão controlada (sem compromisso cardíaco, renal e patologia arterial periférica). A medicação com anti-hipertensores não é impeditiva, desde que a pessoa candidata à dádiva de sangue cumpra os requisitos recomendados.
E se for diabético?
As pessoas com diabetes tipo 1 não podem dar sangue. As pessoas com diabetes tipo 2 poderão candidatar-se à dádiva de sangue, se apresentarem: controlo glicémico adequado com dieta; medicação oral ou medicação injetável, que não a insulina; sem alteração do tipo e da dosagem dos antidiabéticos (orais e injetáveis que não a insulina) nas últimas quatro semanas; sem antecedentes recentes de hipotensão postural ou tonturas.
Será a minha profissão de risco? Posso dar sangue?
A exposição a eventos ou situações que aumentem o risco de aquisição de doença infecciosa pode ocorrer em qualquer altura da vida. A procura de informação pelo profissional de saúde qualificado sobre passatempos, profissão, actividades de jardinagem, contactos próximos com animais domésticos e selvagens são fundamentais na avaliação individual da exposição ao risco.
São necessários cuidados especiais após a dádiva?
Na dádiva são colhidos aproximadamente 450 ml de sangue (+/- 10%). A reposição das proteínas e células sanguíneas é efetuada pelo organismo. O reforço de ingestão de líquidos (água) antes e depois da dádiva é muito importante para que a reposição do volume. Poderá voltar à sua ocupação normal, contudo, estão identificadas algumas actividades que requerem uma atenção particular: paraquedistas, condutores de transportes públicos e veículos pesados, mergulhadores, escaladores, trabalhadores em andaimes e instalações eléctricas e mineiros devem aguardar um período mínimo de 12 horas para reiniciar a actividade; pilotos de aviação devem aguardar entre 24 e 72 horas para reiniciar a actividade. Aconselha-se o repouso de seis horas após a dádiva antes de uma viagem superior a 100 Km a conduzir.
Recebi uma transfusão. Posso dar sangue?
Se recebeu uma transfusão de sangue após 1980 não se pode candidatar à dádiva de sangue. A implementação deste critério de suspensão surge na sequência do risco de transmissão secundária de uma variante da Doença de Creutzfeldt-Jakob (vCJD), também designada por doença das vacas loucas, por transfusão. Se recebeu uma transfusão antes de 1980 poderá candidatar-se à dádiva de sangue.
Quando sou considerado "Pessoa Dadora de sangue"?
Pessoa dadora de sangue é toda a pessoa que depois de aceite clinicamente doa, benevolamente e de forma voluntária, parte do seu sangue para fins terapêuticos. À pessoa dadora de sangue é atribuído um Cartão Nacional de Pessoa dadora de sangue após a realização da primeira dádiva efetiva de sangue. O Cartão Nacional de Dador não é emitido a pedido da Pessoa Dadora, mas sim do serviço responsável pela colheita de sangue.
Quais os meus direitos enquanto Pessoa Dadora de sangue?
A pessoa que dá sangue tem direito à salvaguarda da sua integridade física e mental; à informação sobre todos os aspetos relevantes relacionados com a dádiva de sangue; à confidencialidade dos dados; ao reconhecimento público; a não ser objecto de discriminação; à isenção das taxas moderadoras no acesso à prestação de cuidados de saúde do Serviço Nacional de Saúde (SNS), nos termos da legislação em vigor; ao seguro do dador; à acessibilidade gratuita ao estacionamento nos estabelecimentos do SNS, aquando da dádiva de sangue e a ausentar-se das suas atividades profissionais pelo período de tempo necessário para a dádiva de sangue.
Contudo, sustenta a associação, “o verdadeiro problema reside na ausência de uma estratégia nacional consistente para a dádiva de sangue”, de que é exemplo a situação do Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST), entidade responsável por garantir o abastecimento de sangue ao Serviço Nacional de Saúde e ao setor privado, que “enfrenta dificuldades estruturais que comprometem a sua capacidade de resposta”, refere a federação.
“A escassez de recursos humanos, as limitações financeiras e a reduzida capacidade de intervenção dificultam o planeamento e a gestão de um setor absolutamente essencial para o funcionamento do sistema de saúde”, acusam os dadores.
E recordam que, recentemente, o “Sindicato dos Médicos do Norte denunciou publicamente as condições de trabalho existentes no Centro de Sangue e da Transplantação do Porto, referindo semanas de trabalho entre 52 e 64 horas, sem remuneração das horas suplementares e sem o cumprimento dos períodos mínimos de descanso”.
“É inegável que o Instituto enfrenta sérias dificuldades no recrutamento e retenção de médicos especializados, realidade evidenciada também pelos concursos que ficaram desertos por falta de candidatos”, alerta a Fepodabes, que se mostra preocupada com a degradação da situação financeira do setor.
“Os hospitais acumulam dívidas de dezenas de milhões de euros ao IPST relativas ao fornecimento de sangue e componentes sanguíneos. Esta realidade limita significativamente a capacidade do Instituto para investir, contratar profissionais, renovar equipamentos e planear a médio e longo prazo”, salienta a federação que tem insistido no reforço das equipas de colheita, alargamento dos horários de recolha durante os meses de verão e um melhor aproveitamento da colaboração das associações de dadores, entre outras matérias.
“Infelizmente, muitas destas propostas continuam sem resposta ou não foram implementadas”, enquanto “continuam a verificar-se cancelamentos de sessões de colheita previamente planeadas, dificuldades em garantir equipas suficientes e uma redução da capacidade de recolha precisamente na época em que o país mais necessita de sangue”, acusam.
Para a federação, o “problema não é a falta de dadores”, mas “a falta de capacidade para recolher o sangue que os portugueses estão disponíveis para oferecer”.
Para resolver a situação crítica das reservas, a Fepodabes voltou a apelar aos cidadãos para se tornarem dadores de sangue.
“Cada dador que comparece representa uma esperança para quem aguarda uma transfusão. Hoje, mais do que nunca, todos podemos fazer a diferença”, sublinhou Alberto Mota.
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