Novos documentos revelam detalhes das acusações de violação contra os irmãos Tate

Acusações contra Andrew e Tristan Tate agravam-se: documentos detalham alegadas violações e tráfico sexual

Enquanto os influenciadores Andrew e Tristan Tate permanecem detidos na Florida, nos Estados Unidos, onde contestam um pedido de extradição do Reino Unido, novos documentos judiciais agora tornados públicos revelam mais detalhes sobre as mais recentes acusações de crimes sexuais que enfrentam, incluindo violação e tráfico sexual.

Os documentos federais, divulgados na noite de segunda-feira, descrevem queixas apresentadas por várias mulheres às autoridades britânicas contra ambos os irmãos por alegados abusos físicos e sexuais. Entre as acusações estão relatos de estrangulamento — em alguns casos até as vítimas perderem os sentidos — e violação.

Os irmãos compareceram na segunda-feira num tribunal federal em Miami e negam todas as acusações. Os seus advogados garantem que irão contestar o pedido de extradição, tendo um deles apelado publicamente à administração Trump para intervir.

Depois de se tornarem conhecidos através de um programa de televisão no Reino Unido, Andrew e Tristan Tate ganharam notoriedade nas redes sociais por promoverem conteúdos cada vez mais misóginos, acumulando milhões de seguidores — e também processos criminais.

Andrew Tate, apoiante declarado do presidente norte-americano Donald Trump e que se descreve a si próprio como misógino, construiu a sua imagem pública em torno da chamada masculinidade tóxica e tornou-se uma das figuras mais conhecidas da chamada manosfera, um ecossistema digital associado à extrema-direita e ao discurso de ódio, composto por influenciadores e comentadores assumidamente misóginos.

As detenções representam o mais recente capítulo de uma longa batalha judicial que envolve vários países.

O que revelam os novos documentos

Embora os irmãos já enfrentassem acusações de violação e tráfico de seres humanos no Reino Unido, as novas acusações surgem após uma investigação da polícia britânica motivada pelas denúncias de mais quatro alegadas vítimas. No total, os dois irmãos enfrentam agora 59 acusações.

Num dos documentos agora tornados públicos relativo a Andrew Tate, os procuradores descrevem acusações relacionadas com duas alegadas vítimas.

Segundo as autoridades britânicas, uma mulher que trabalhava no chamado "negócio das webcams" terá sido sujeita a estrangulamentos até perder os sentidos enquanto era violada por Andrew Tate, num alegado ataque ocorrido na sua casa, em Bedford, Inglaterra, em 2015.

Outra alegada vítima afirma ter tido uma relação sexual consentida com Andrew Tate em 2014, depois de ambos se conhecerem através de uma aplicação de encontros. Num encontro posterior, já em casa da mulher, em Manchester, Inglaterra, esta alega que foi imobilizada durante o ato sexual, ficou sem conseguir respirar e "temeu que ele não parasse e a matasse", segundo o documento.

Andrew Tate enfrenta ainda mais sete acusações de violação, três de tráfico sexual, três de agressão e outras 19 relacionadas com "imagens indecentes de menores e pornografia extrema", segundo um comunicado dos procuradores.

No total, Andrew Tate responde agora por 42 acusações, incluindo violação, tráfico de seres humanos, posse de imagens indecentes de menores e agressão, de acordo com o Ministério Público britânico (Crown Prosecution Service) e a polícia de Bedfordshire.

Num outro documento relativo a Tristan Tate, as autoridades britânicas alegam que este violou repetidamente uma mulher com quem manteve uma relação amorosa de longa duração entre 2012 e 2013.

Segundo a acusação, Tristan Tate estrangulava a vítima até esta perder os sentidos e agredia-a repetidamente com um cinto, provocando "hematomas graves e vergões". Num dos episódios, terá atingido a mulher no rosto, causando-lhe um olho negro.

Tristan Tate enfrenta duas novas acusações de violação, uma de agressão sexual e três relacionadas com o crime de facilitar deslocações para fins de exploração.

Ao todo, responde agora por 17 acusações, incluindo agressão sexual, violação e tráfico de seres humanos.

Os procuradores afirmam que os investigadores britânicos recolheram depoimentos de testemunhas, mensagens eletrónicas e fotografias que, segundo dizem, corroboram as acusações.

Os irmãos Tate já tinham negado qualquer prática criminosa. A CNN contactou os seus advogados para comentar estas novas acusações.

Porque foram detidos nos Estados Unidos?

Depois de terem sido detidos na Roménia em 2022, onde enfrentam acusações de tráfico de seres humanos e de constituição de um grupo criminoso organizado para explorar sexualmente mulheres, Andrew e Tristan Tate ficaram proibidos de abandonar o país.

No entanto, depois de as autoridades romenas terem levantado as restrições às viagens no ano passado, viajaram num jato privado para a Florida.

Também neste processo os irmãos negam todas as acusações. Permanecem em liberdade condicionada na Roménia e continuam a deslocar-se mensalmente ao país para comparecer em tribunal, segundo Joseph McBride, um dos seus advogados.

O pedido de extradição do Reino Unido resulta de uma investigação do Ministério Público britânico relativa a alegados crimes denunciados por sete mulheres no leste de Inglaterra entre 2010 e 2017.

Os irmãos Tate, que têm dupla nacionalidade britânica e norte-americana, foram detidos pelos US Marshals em 18 de julho, quando seguiam para um evento de boxe sem luvas (bare-knuckle boxing) em Miami.

Os advogados pediram a libertação dos irmãos enquanto decorre o processo. Apesar de insistirem na inocência dos clientes, McBride afirmou aos jornalistas que as acusações têm "motivações políticas".

Entretanto, as autoridades da Florida abriram igualmente uma investigação criminal aos dois irmãos.

Dani Pinter, diretora jurídica do National Center on Sexual Exploitation, organização que representa uma cliente que afirma ter sido coagida pelos irmãos Tate a integrar uma rede de tráfico sexual na Roménia, afirma estar "grata às autoridades dos Estados Unidos e do Reino Unido por prosseguirem corajosamente a justiça com a detenção e extradição dos alegados traficantes sexuais Andrew e Tristan Tate".

"O mais importante é que a nossa cliente, identificada como Jane Doe, e a sua família, que foram alvo de uma campanha de assédio e intimidação de testemunhas por parte dos irmãos Tate, estão agora mais seguras", acrescenta.

Joseph McBride (à esquerda) e Thomas Maniotis (à direita), advogados de Andrew e Tristan Tate, falam aos jornalistas à saída do tribunal federal C. Clyde Atkins, em Miami, a 20 de julho de 2026. (Joe Raedle/Getty Images)

Como funciona o processo de extradição?

Os Estados Unidos e o Reino Unido têm um tratado de extradição, através do qual cada país se compromete a entregar pessoas procuradas pelo outro para efeitos de julgamento.

A versão reforçada desse tratado entrou em vigor em 2007 e, desde então, o Departamento de Estado norte-americano aprovou praticamente todos os pedidos de extradição apresentados pelo Reino Unido.

O processo exige uma audiência perante um juiz norte-americano para verificar se estão reunidos os requisitos previstos no tratado. Contudo, a decisão final cabe ao secretário de Estado, Marco Rubio, que pode recusar a extradição. Os irmãos Tate podem ainda apresentar vários recursos.

O Departamento de Justiça confirmou que as detenções "foram efetuadas em conformidade com os tratados e os acordos de cooperação policial que regem as extradições". Uma fonte revelou à CNN que a operação foi aprovada pelos responsáveis da divisão criminal do Departamento.

McBride sustenta, porém, que o pedido britânico interfere com os processos judiciais que decorrem na Florida e na Roménia.

"Existe um acordo de longa data entre os governos do Reino Unido e da Roménia segundo o qual o Reino Unido não pediria a extradição enquanto os processos romenos estivessem pendentes", afirma. "Esses processos continuam em curso. Nenhum país pode atropelar a soberania judicial de outro por conveniência política."

Jacques Semmelman, advogado de Nova Iorque especializado em extradições e sem ligação ao caso, explica à CNN que, caso o Governo romeno se oponha formalmente à extradição junto do Departamento de Estado norte-americano, esse pedido terá de ser avaliado no contexto das relações diplomáticas.

Caso contrário, acrescenta, não existe fundamento para que um tribunal norte-americano considere o argumento apresentado por McBride, uma vez que o processo na Florida pertence à jurisdição interna dos Estados Unidos.

Os tribunais romenos decidiram em 2024 que os irmãos deverão ser extraditados para o Reino Unido quando o processo naquele país terminar. Qualquer entendimento entre as autoridades britânicas e romenas não vincula juridicamente os Estados Unidos, que não fazem parte desse acordo.

McBride parece invocar a exceção relativa a "crimes políticos" prevista no tratado de extradição entre os EUA e o Reino Unido, ao defender que as acusações de natureza sexual têm motivação política.

"Acredito que Marco Rubio e o resto da administração Trump não simpatizam com o comunismo nem com a perseguição de pessoas por causa da liberdade de expressão", afirmou. "Penso que, por uma questão de princípio e pelas razões pelas quais foram eleitos, não quererão ver dois cidadãos livres enviados para um país onde serão presos por motivos políticos."

Até segunda-feira, Marco Rubio ainda não tinha falado com os irmãos Tate nem com os seus advogados e o Departamento de Estado "não tem planos para agir" relativamente ao pedido para travar a extradição, segundo um alto responsável da instituição.

Também Donald Trump não deverá envolver-se no caso, disseram anteriormente à CNN duas fontes com conhecimento do processo. Ainda assim, aliados dos irmãos tentaram contactar pessoas próximas do presidente na esperança de reunir apoio político.

Andrew Tate (à esquerda) e o irmão Tristan Tate durante uma audiência no Tribunal de Recurso de Bucareste, na Roménia, em 10 de dezembro de 2024. (Daniel Mihailescu/AFP/Getty Images)

O que acontece agora?

Até à tarde de segunda-feira, Andrew e Tristan Tate permaneciam detidos. A CNN contactou o gabinete da procuradora-geral da Florida para obter informações sobre o local e as condições em que os irmãos estão detidos.

A juíza sublinhou que a audiência de segunda-feira não constituiu um processo criminal e que o procedimento formal de extradição ainda não foi concluído.

Nas próximas semanas, um juiz federal irá decidir se estão reunidos os requisitos legais para a extradição.

Jacques Semmelman considera que, até ao momento, nada no processo de extradição foge ao habitual, embora admita que ainda é cedo para antecipar o desfecho. Segundo o especialista, as próximas etapas decisivas passam pela eventual concessão de liberdade sob fiança e pela forma como decorrerá a audiência de extradição.

Acrescenta ainda que processos de extradição envolvendo figuras de elevado perfil mediático podem prolongar-se durante mais tempo, sobretudo quando a defesa mobiliza muitos recursos jurídicos.

*Lauren Mascarenhas, Holmes Lybrand, Kristen Holmes, Carolina Peguero, Devon M. Sayers, Dalia Faheid, Hannah Rabinowitz, Alea Motwane, Jonny Hallam, Danya Gainor, Donie O'Sullivan e Kit Maher contribuíram para este artigo