Continua após publicidade
Ler Resumo
Ultimamente, uma nova geração de bebidas vem invadindo a happy hour dos americanos: latinhas de água gaseificada, chás, limonadas e outros drinques com baixas doses de THC, o principal componente psicoativo da Cannabis. À primeira vista associadas ao consumo de maconha, elas se afastam dos efeitos mais fortes da droga com doses entre 2 e 5 miligramas — e são vendidas como uma forma de “relaxamento engarrafado”. Uma das marcas dessas bebidas resume sua proposta com um slogan espirituoso: é ideal para “começar a festa, mas não te mandar para o espaço”.
A categoria está em franca expansão. A Euromonitor projeta que o mercado americano de bebidas derivadas do cânhamo chegue a 4,1 bilhões de dólares em 2028. O produto ganhou roupagem que pouco lembra o famigerado “baseado”: latinhas coloridas, sabores como laranja e abacaxi, versões em garrafas para preparar drinques e até shots, que custam por volta de 6 dólares a dose (ou 70 dólares a garrafa). A estratégia é transformar a Cannabis numa experiência social próxima à da cerveja e dos coquetéis — só que com THC no lugar do álcool. Tudo isso, claro, ainda está longe de chegar ao Brasil, onde só é liberado o uso medicinal ou pessoal da maconha em pequenas quantidades.
A ideia de beber Cannabis, curiosamente, não é nova. Na Índia, o bhang — feito com Cannabis, leite, açúcar e especiarias — é consumido há séculos. Mas a versão atual nada tem de artesanal: ela embala uma indústria com sabores, marcas e dosagens precisamente calculadas. A ascensão das bebidas com Cannabis é o mais novo desdobramento de um processo que se iniciou nos anos 1990, com a legalização da maconha em estados como a Califórnia, até chegar à decisiva Farm Bill (2018), que abriu uma brecha para itens derivados, entre eles bebidas — desde que respeitado o limite de THC.
Continua após a publicidade
O produto também encontrou um público interessado em diminuir o consumo de álcool. Estudo recente publicado no Journal of Psychoactive Drugs detectou associação entre o consumo de bebidas com Cannabis e a redução ou o abandono do álcool entre os participantes. Celebridades ajudam a consolidar a nova imagem. O ator e humorista Seth Rogen vende sua própria versão de drinque com 3 miligramas de THC — “ponto ideal” para ser consumido de dia ou de noite, segundo ele. O ex-jogador de basquete Dwyane Wade entrou na onda com uma bebida que combina 3 miligramas de THC e 6 de CBD, canabinoide que não produz os efeitos psicoativos do THC. A transformação chegou, ainda, aos espaços de consumo. Em julho, San Francisco aprovou a abertura de “Cannabis cafés”, onde se consome maconha, além de comidas e bebidas não alcoólicas, sob inspiração dos cafés de Amsterdã.
Continua após a publicidade
Há, porém, uma ironia nesse fenômeno. Justamente quando as bebidas com Cannabis começam a se firmar, uma mudança na legislação americana ameaça boa parte delas. A regra aprovada pelo Congresso em 2025, e que entra em vigor em dezembro, limita a 0,4 miligrama por recipiente a quantidade de THC nos produtos. Para uma indústria cujas latinhas usualmente carregam de 3 a 5 miligramas, a diferença é brutal. Fabricantes pressionam por mudanças na norma. O barato dos drinques mal começou e, pelo visto, já pode estar com os dias contados.
Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2026, edição nº 3015
Publicidade