“Tráfico humano não é coisa de novela”, diz homem que foi escravizado na Ásia

Phelipe de Moura
Phelipe de Moura (./Arquivo pessoal)

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Eu já tinha trabalhado fora do Brasil antes. Em três anos, fui para as Filipinas, Laos, Dubai e China. Em novembro de 2024, recebi uma proposta para trabalhar na Tailândia como líder de equipe de call center. Tive o voo bancado para Bangcoc, onde fui recebido por meus recrutadores. Eles então me levaram por mais sete horas de carro até Mae Sot, cidade onde eu trabalharia. Mas ali, quando me obrigaram a fazer a travessia ilegal para Mianmar, percebi que havia algo errado. Após mais uma hora de viagem, cheguei a um complexo e entendi a situação: estava sendo vítima de tráfico de pessoas, e o meu trabalho seria aplicar golpes on-line. Mais tarde, senti que precisava contar o que aconteceu e transformei essa história no livro Um Inferno em Mianmar (DisrupTalks), com a ajuda dos jornalistas Laura de Araújo Cordeiro e Ricardo Viveiros. O complexo era uma cidade com cabeleireiro, mercado e prostitutas. Havia vítimas de vários países. Havia guardas com todo tipo de armamento que se possa imaginar a nos vigiar.

Logo fiquei sabendo dos abusos, das punições com choque elétrico, espancamento. Houve dias em que chegamos a trabalhar por volta de 22 horas, sem salário nenhum. Aplicávamos, por exemplo, o golpe do amor usando fotos de pessoas bonitas para fazer a vítima se apaixonar e nos mandar dinheiro. Eu me sentia péssimo, porque não queria fazer aquilo, mas ou jogava o jogo deles ou era punido. Uma vez sofri um castigo porque mandei um comprovante de pagamento faltando segundos para dar o horário certo. Descalço, tive de fazer 300 agachamentos em cima de uma espécie de tapete com pregos; na segunda vez, foram 600. Uma pessoa do Camboja que dormia no mesmo quarto que eu tentou fugir, foi pega e torturada por quase um mês. Eu via os guardas entrando no quarto para espancá-la quando estávamos dormindo. O período foi um inferno que não desejo nem para meu pior inimigo.

Uns quinze dias depois, encontrei o Lucas, outro brasileiro, e falávamos em português, o que dificultava que nos entendessem. Também consegui contatar minha família por uma guia anônima no Google. Mandei mensagem para os parentes e todos que conhecia. Meu pai contatou a Polícia Federal, que passou o contato da Cintia Meirelles, da The Exodus Road, ONG de combate ao tráfico de pessoas. Depois de muito tempo, porque tinha medo de ser pego, consegui entrar em contato com ela e pedir ajuda. A ONG, com auxílio do Exército Democrático Budista dos Karen (DKBA), milícia que comanda a região, proporcionou nossa fuga do complexo. No dia, pensei que eu ia morrer e coloquei minha resistência à prova, física e psicologicamente. No total, fiquei três meses lá e, quando saímos, éramos 275 pessoas, mas havia mais de 10 000 no complexo.

Depois de algum tempo numa base militar e do apoio da embaixada brasileira na Tailândia, finalmente voltei para o Brasil. O que mais me marcou na volta foi poder ver todo mundo novamente: cheguei a pensar que só sairia de lá morto. Mesmo aqui, tive muito medo no começo e não tivemos auxílio psicológico do governo. A ajuda que recebemos foi de caridade mesmo. Quando saí, senti o dever de falar para as pessoas, mas isso acaba machucando o emocional, então dei uma parada nas entrevistas e saí das redes sociais por uns tempos. Alguns dos responsáveis pelos crimes foram julgados e sentenciados à morte, mas eu acho pouco pelo sofrimento que nos fizeram passar. Mais de um ano depois, trabalho como atendente no comércio em São Paulo e sinto alegria por poder contar a minha história sem precisar me esconder ou ser julgado. Descobri que minha liberdade não tem preço. Que meu livro sirva de alerta às pessoas: tráfico humano não é apenas coisa de novela.

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Phelipe de Moura em depoimento a Natalia Tiemi Hanada

Publicado em VEJA de 2 de outubro de 2026, edição nº 3015

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