O desporto forma pessoas! Não campeões

Quando Cristiano Ronaldo chegou à Academia do Sporting, vindo da Madeira, foi alvo de gozo pelo sotaque, pela origem e pela forma obstinada como vivia cada treino. O atleta que hoje simboliza disciplina e sucesso conheceu, em criança, a incompreensão e o “Bullying” que procuramos erradicar do desporto juvenil.

A sua história desmonta um dos maiores mitos do desporto infantil: o de que a pressão extrema é o caminho para a excelência.

Ronaldo demonstra que o talento, a disciplina e o sacrifício podem conduzir ao sucesso, mas a sua trajetória é excecional e não um modelo a impor a todas as crianças. O que fez dele um dos melhores do mundo resulta de uma combinação única de capacidades, resiliência e circunstâncias que não se reproduz pela exigência excessiva dos adultos.

Quando o projeto deixa de ser da criança

Uma das preocupações mais frequentes entre os pais é assistir ao momento em que os filhos perdem o entusiasmo pela prática desportiva. Ao início, marcado pela curiosidade e pelo prazer, sucede muitas vezes uma fase de desmotivação que leva os adultos a questionarem-se, se devem insistir ou permitir que a criança siga outro caminho.

Não existe uma resposta única. Há, porém, uma distinção fundamental: a diferença entre uma quebra passageira de motivação e um desinteresse genuíno. Nem toda a desistência representa um fracasso; nem toda a persistência constitui uma virtude.

O problema começa quando a vontade da criança deixa de ser o principal critério e passa a prevalecer a vontade dos adultos. O desporto transforma-se num projeto parental, deixando de ser um espaço de descoberta, aprendizagem e prazer. Paradoxalmente, este caminho afasta muitas crianças da prática desportiva, em vez de contribuir para formar melhores atletas.

Uma realidade que continua a ser desvalorizada

Aquilo que frequentemente desvalorizamos como “coisas do desporto” está longe de ser inofensivo. A investigação das últimas duas décadas tem demonstrado que o “Bullying” e outras formas de violência psicológica são uma realidade no desporto juvenil — e não apenas entre colegas de equipa. Podem partir de adversários, treinadores, dirigentes e, não raras vezes, dos próprios pais.

Humilhações públicas, insultos, ameaças e exclusão deliberada constituem formas de abuso emocional cujas consequências estão hoje bem documentadas: perda de autoestima, ansiedade, abandono precoce da prática desportiva e, em alguns casos, problemas de saúde mental que persistem muito para além da infância.

Organizações como o Comité Olímpico Internacional e a Organização Mundial da Saúde têm sublinhado que o desporto só cumpre plenamente a sua função educativa quando decorre em ambientes seguros, respeitadores e livres de qualquer forma de violência. Também o Instituto Português do Desporto e Juventude defende que o papel dos pais deve assentar no apoio, no incentivo e no respeito pelos ritmos de desenvolvimento dos jovens atletas.

A recomendação parece evidente. No entanto, basta assistir a alguns jogos de formação para perceber que está longe de ser uma realidade.

O mais preocupante é que muitos destes comportamentos continuam a ser encarados como normais ou até necessários para “formar campeões”. Confunde-se exigência com humilhação, autoridade com autoritarismo e competitividade com agressividade. A evidência científica aponta precisamente no sentido oposto: crianças e jovens desenvolvem-se melhor, aprendem mais e permanecem mais tempo no desporto quando treinam em ambientes onde predominam o respeito, a confiança e a segurança psicológica.

O verdadeiro papel dos pais

Um estudo recente sobre a influência parental na iniciação e manutenção da prática desportiva, realizado junto de treinadores, conclui que os pais se tornam frequentemente um fator de risco quando procuram transformar os filhos em atletas de alto rendimento a qualquer custo, comprometendo, muitas vezes sem o perceberem, o seu equilíbrio psicológico.

Nos desportos coletivos, em particular, o desenvolvimento dos jovens depende de intervenções pedagógicas consistentes. Paradoxalmente, são muitas vezes os próprios pais quem mais dificulta esse processo.

Isto não significa que devam afastar-se. Significa apenas que o seu papel é diferente. Cabe-lhes garantir que tudo está preparado antes da competição, sem se substituírem ao treinador; transmitir confiança sem sobrecarregar os filhos com instruções; contribuir para um ambiente positivo durante o jogo; e, no final, dar espaço ao jovem atleta para viver a experiência antes de a analisar em conjunto.

O apoio parental mais eficaz raramente é o mais ruidoso. É o mais discreto: presente nas deslocações, atento ao bem-estar físico e emocional da criança, capaz de valorizar o esforço, a aprendizagem e o progresso acima do resultado. E, sobretudo, capaz de ser um modelo de comportamento dentro e fora do recinto desportivo.

Formar pessoas – não fabricar campeões

Talvez valha a pena recordar uma ideia simples: o primeiro objetivo do desporto infantil não é fabricar campeões. É formar pessoas. Se, pelo caminho, surgir um grande atleta, tanto melhor. Mas se uma criança terminar a sua experiência desportiva mais autónoma, mais resiliente, mais disciplinada, mais confiante e mais feliz, então o essencial foi alcançado.

Porque, no fim, as medalhas ficam nas vitrinas.

Já, o caráter acompanha-nos para a vida inteira!