Estamos a passar tempos difíceis. Se por um lado alguns membros do governo vieram culpar os professores por erros dos serviços, por outro lado todos parecem empenhados em sacudir a água do capote, como se a responsabilidade fosse um objeto descartável. E agora, num volte‑face conveniente, anunciam que vão pagar aos professores classificadores, como se isso fosse uma novidade extraordinária. Mais uma vez, atirar dinheiro para cima do problema é pagar para ter alguém para culpar. A verdade é simples: quem classifica exames nunca foi pago para o fazer em dez dias úteis, tendo de corrigir cerca de 800 itens, inserir tudo em Excel e cumprir prazos apertados, e nunca se queixou. Os professores classificadores não devem trabalhar ao fim de semana, não devem passar mais de oito horas ao computador, faz mal à saúde e devem ter formação adequada. A tentativa de transformar o pagamento numa espécie de gesto generoso é apenas mais uma forma de desviar atenções da falha estrutural que esteve na origem de tudo.
A isto junta‑se um facto ainda mais grave: ninguém teve coragem de dizer ao Ministro e aos Secretários de Estado que o modelo idealizado por eles não era funcional, nem operacional, nem tecnicamente exequível. A cadeia hierárquica preferiu alinhar no entusiasmo político da “modernização” e da transição digital, uma bandeira dos tempos modernos, em vez de assumir a realidade concreta das escolas, das plataformas, das competências e dos tempos humanos. A transição digital foi apresentada como inevitável, mas executada como voluntarismo político. E quando ninguém diz a verdade ao poder, o resultado é sempre o mesmo: o poder acredita na sua própria ficção.
O erro na correção digital das provas não é um acidente técnico nem um episódio isolado: é um falhanço sistémico e hierárquico que atravessa toda a cadeia de responsabilidades. A narrativa pública e política tenta reduzir o problema a uma falha informática, mas a verdade é mais incómoda. O sistema não preparou quem nele trabalha, não organizou quem nele decide e não antecipou as exigências reais de uma transição digital que foi anunciada como inevitável, mas executada como improvisação. Os professores são frequentemente apontados como culpados, mas essa acusação é superficial. Há docentes com 65, 67 ou 70 anos que nunca receberam formação digital adequada para operar plataformas complexas. A idade não é o problema; o problema é o sistema que nunca tornou a literacia digital obrigatória, nunca certificou competências antes de atribuir tarefas críticas e nunca preparou verdadeiramente a transição tecnológica. Eu corrigi as provas‑ensaio digitais e concluí a formação disponibilizada pelo IAVE, e sei, por experiência direta, que a plataforma exige competências específicas que não se adquirem por osmose nem por boa vontade. Exigir domínio e proficiência digital sem o ter ensinado é uma forma de negligência institucional.
A responsabilidade dos diretores também não pode ser ignorada. As escolas continuam a escolher para os anos de exame os professores mais experientes, como sempre fizeram, mas a experiência pedagógica não substitui a literacia tecnológica. Esta lógica deixa de fora os docentes mais jovens, que são precisamente os mais capacitados no digital, relegando‑os para anos em que essas competências são menos exigidas. A seleção continua a ser feita com critérios do século XX para tarefas do século XXI. A liderança escolar deveria ter antecipado que a correção digital exige perfis diferentes dos tradicionais, mas não o fez. O Júri Nacional de Exames também falhou. As escolas enviaram, como sempre, as listas de docentes por disciplina, mas se houve desencontro, erro de processamento ou falha de validação, isso é responsabilidade do Júri. Não houve verificação cruzada, não houve validação de perfis, não houve garantia de que ninguém entrava no sistema sem formação comprovada. Se houve “engano”, então houve falha de governação, e falha de governação não é detalhe técnico, é erro político.
O IAVE, centro operacional da máquina dos exames, tomou decisões que não resistem ao escrutínio. As questões de escolha múltipla deveriam ter sido corrigidas automaticamente. A tecnologia existe, é estável, é segura e é usada internacionalmente. Optar por correção manual é tecnologicamente irracional, operacionalmente irresponsável e pedagogicamente indefensável. A tecnologia serve para resolver problemas, não para aumentar a carga de trabalho. Se o IAVE não automatizar o que é automatizável, então não fez uma transição digital: fez uma transição burocrática.
O que aconteceu não é culpa de um grupo isolado. É o resultado de falta de formação, falta de planeamento, falta de governação, falta de visão tecnológica e excesso de improvisação. A narrativa que tenta culpar professores e diretores é politicamente conveniente, mas tecnicamente falsa. A digitalização dos exames não falhou porque a tecnologia é frágil; falhou porque o sistema é frágil. Enquanto continuarmos a tratar a transição digital como um adereço político, em vez de a tratar como uma reforma estrutural, continuaremos a produzir crises que não são tecnológicas, são humanas.
Não basta apontar falhas; é preciso apontar caminhos. Quem quer lecionar no Ensino Secundário deve procurar melhorar as suas competências digitais, não por imposição, mas por responsabilidade profissional. E quem não o fizer não deve ser penalizado: pode e deve lecionar no Ensino Básico, que é tão nobre quanto exigente, e que precisa de bons professores experientes. Os diretores devem finalmente valorizar a formação digital dos seus docentes, integrando‑a nos critérios de distribuição de serviço. E os serviços devem informar o Governo sobre o que é possível ou não, porque governar sem ouvir a realidade é governar contra ela.