O que são hoje... corresponde ao vosso sonho de criança? - Intermédios

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Olá a todos, sejam bem-vindos a este segundo episódio de "Intermédios". Boa semana, se for caso disso, se estiverem a ouvir isto ou a ver numa segunda-feira de início de semana. Que não sejam como eu, daquelas pessoas para quem a segunda-feira é um dia péssimo e a terça, a quarta mais ou menos, quinta é fixe, sexta é porreiro, sábado altamente, domingo volta a ser uma bosta. Boa semana para vocês que estão desse lado. Espero que tenham gostado desta primeira semana de "Somos Todos Malucos", da primeira convidada e também do primeiro "Intermédios". E seguimos já para este segundo episódio em que eu gostava de abordar uma questão, que eu penso muitas vezes: o que vocês achavam que iam ser quando fossem adultos? Corresponde à vossa expectativa? Aquilo que vocês achavam, em adolescentes, que iam ser em adultos é, na realidade, aquilo que vocês se tornaram enquanto profissionais? Não estou a falar do ponto de vista moral, mas também podemos abordar essa questão, mas enquanto profissionais. Porque é muito curioso. Eu não sei se foi fruto da minha adolescência, fruto de me sentir muitas vezes sozinho, mas eu lembro que quando eu era puto, talvez com 16, 17 anos, um bocadinho menos, eu tinha o fascínio, por causa das séries que eu via, séries não, os filmes que davam na TVI, na madrugada, que eram filmes aquelas soap operas, tipo novelas americanas, mas em filme, em que há o cara que vive na pequena cidade e volta à antiga namorada, que foi pra grande cidade e voltou pra lá porque se divorciou. E geralmente esses caras eram polícias. Polícias xerife, deputy da pequena cidade. E houve uma altura da minha vida, que eu tinha o fascínio de ir para os Estados Unidos e tornar-me xerife. Eu não sei se isso é possível ou não, mas eu hoje, quem sabe, se as coisas tivessem corrido de outra maneira, eu podia ser xerife nos Estados Unidos, e se fosse maluco da cabeça, estar no ICE, quem sabe. Mas houve uma altura que eu tinha essa pancada. E por que eu tinha esta pancada? Eu acho que tinha a ver muito com a ideia de abandonar tudo, deixar tudo, ir pra um sítio que ninguém me conhece e aquela perspectiva de lobo solitário que anda por aí a resolver coisas. Provavelmente estaria só a passar multas e a aturar a malta no Walmart ou qualquer coisa assim desse gênero. Mas eu tinha muito essa ideia do desaparecer. É uma ideia que ainda me surge de vez em quando. Eu acho que às vezes surge, hoje em dia, mais pelo cansaço, aqueles pensamentos que nos vêm de repente à cabeça e eu penso: "E se eu, de repente, desaparecesse?" Atenção, não é nada de morrer, mas desaparecer no sentido: "Vou pro Japão" e não dizer nada a ninguém. Desaparecia durante um ano ou dois anos, desaparecia no Japão, pra Tailândia, uma cena assim. Mas não sou capaz, por várias razões. Primeiro, porque genuinamente acho que não o quero. Depois, pelas minhas filhas. Não tanto pela minha mulher, porque eu sei que ela iria até agradecer que eu desaparecesse, pra estar à vontade. Na realidade, obviamente, eu acho que ela suportaria melhor a ideia, por ser adulta, por ser uma mulher que já viveu comigo muitos anos. Se eu desaparecesse sem deixar rastros, ia ficar muito zangada comigo. Primeiro preocupada, depois triste, depois sabendo que estava tudo bem, zangada. Mas sobretudo pelas minhas filhas, não era capaz de fazer isso. Não era capaz de desaparecer dessa maneira. Também posso desaparecer com a minha mulher e deixá-las só a elas. Aí, isso já pensamos os dois muitas vezes. Mas também nesta altura, não. Talvez quando elas forem mais velhas. Vamos desaparecer os dois. Desaparecer no sentido de desaparecemos, mas elas sabem onde é que nós estamos. É só pra não ter que as aturar. Mas eu acho que essa ideia de crescer, de quando era puto, era muito associada a esta ideia de desaparecer. Porque em termos de profissão, eu não me lembro de ter um desejo de uma profissão, por exemplo. Eu fui por opções, no sentido: "Olha, parece-me bem. Está bem, eu até gosto de fazer isto, vamos lá experimentar." Foi assim que eu fui para o curso de Comunicação e Difusão, um curso profissional, no sentido: "Olha, fui. Ok, a psicóloga diz que isto é uma área fixe pra mim, embora." No curso profissional percebi: "Olha, até se calhar gostava de ir pra faculdade, vamos tirar Jornalismo". No Jornalismo: "Até me vejo a fazer isto". Curiosamente, eu acho que a paixão pela comédia e pelo fazer rir ou pelo criar, já cá estava, só que eu nunca escutei muito essa voz. Eu só me lembro de uma vez de estar na faculdade, a assistir a uma peça de teatro, e eu lembro de estar com a Catarina ao lado e dizer assim: "Eu gostava de estar ali. Eu gostava de estar ali naquele palco". Mas nem sequer dei muita validade a essa ideia. É engraçado, só anos mais tarde é que surgiu. Eu reencontrei-me há pouco tempo com colegas da preparatória. E eu tenho colegas que sempre souberam aquilo que queriam ser. Eu tenho uma amiga desse tempo, que desde que nós andávamos no quinto ano, queria ser médica. Era a cena dela, ela queria ser médica, depois cresceu e tornou-se agente da Hera. É mentira, é médica. É uma excelente médica e continua muito divertida, como era já na altura. Outro amigo meu desse período também era engenheiro, o pai era engenheiro, ele queria ser engenheiro, engenheiro se tornou. Portanto, havia malta que já sabia aquilo que queria ser. Eu nunca tive isso. Apesar dos nossos pais nos incutirem uma coisa, eu acho que a minha geração de 80, não sei se de 90 ainda sente isso ou não. Mas pensem lá um bocadinho comigo. Eu acho que a nossa geração de 80, é a última geração em que foi incutida a noção de emprego e estabilidade. Todos vocês, se calhar, ouviram aquela frase mítica dos vossos pais: "Arranja um trabalho, que seja seguro, que possas entrar nos quadros". A cena de entrar nos quadros, é aquela imagem de estabilidade, de entrar no quadro e ter uma casa e constituir família. E é muito curioso porque claramente as gerações de hoje em dia, as mais recentes, não têm esta ideia de estabilidade. Aliás, há um episódio que já está gravado com o Paulo, eu não vos consigo precisar quando é que ele vai para o ar. Se é o desta semana ou da semana que vem. Peço desculpa, é da maneira também que tenho que vos escutar. Mas eu falei com o miúdo, o Paulo tem 19 anos e fizemos aqui um confronto geracional. E ele fala exatamente isso, que a ideia de estabilidade e de trabalho fixo e família, que na cabeça dele é: "Ok, faz sentido, mas é só isto a vida? Estabilidade, trabalho e casa?" E não estão errados. Se nós formos pensar bem, não estão totalmente errados. Porque eu acho que grande parte de nós, se calhar, chega a esta idade, aos 40 e tal anos, a querer fazer uma data de coisas que não fez, porque abdicou em nome da estabilidade e da segurança. De ter a tal estabilidade e ter uma carreira e ter uma segurança económica, que se calhar também não se verifica depois muitas vezes, ou não se verifica do modo como nós esperaríamos. E abdicamos de uma data de coisas, de hobbies, de experiências que queríamos ter tido e não tivemos, de viajar, etc. E eu acho que isso também pode fazer com que os putos hoje em dia, uma parte deles, não tenha em mente uma profissão, uma cena que queriam fazer. É curioso, eu acho que pode ser uma razão. E eu não acho que seja necessariamente mau. Os putos hoje em dia estarem mais preocupados em viajar, em conhecer o mundo e ter boas experiências. E quando eu digo boas experiências, obviamente, não é andarem metidos na droga, serem drogados e serem chulos e viverem à custa dos pais, não tem os chupistas. Não tem a ver com isto, tem a ver com: "Ok, eu se calhar não vou comprar uma casa, vou arrendar uma casa, porque eu daqui a cinco meses, se calhar, apetece-me ir viver para Bali ou para a Tailândia ou para outro país qualquer. Não sei se quero ter uma família agora porque quero andar a curtir de um lado para o outro". Eu não acho totalmente inválida esta ideia, acho simplesmente que é uma geração diferente, que vive as coisas de modo diferente. Já nós éramos isto. Muita noção de emprego, de estabilidade e eram as frases que te perguntavam: "Então, o que queres ser quando fores grande?" Tanto que eu faço essa pergunta às minhas filhas e elas falam: "Eu gosto disto, gosto daquilo", mas não há algo específico. Aliás, para vocês verem como a minha vida era aleatória, este tac que vocês ouvem são os meus pés a estalar, sou eu a estalar os ossos. Era de tal forma aleatória que eu na faculdade, o que eu meti para faculdade foi Jornalismo, primeira opção, em Lisboa, acho eu. Segunda opção, Jornalismo, eu acho que ou era Coimbra ou era Castelo Branco, já não me lembro. E depois meti numa das opções Ensino pré-primário, não me lembro qual era o nome do curso, mas para ir para a pré-primária, ser educador de infância. Curiosamente, o ser educador de infância já tinha aqui um outro fascínio muito curioso, muito parecido com a cena do xerife. Eu escolhi educador de infância, mas a minha cena não era educar as crianças, a minha cena, o meu fetiche, era comer a mãe das crianças. Sabem aquelas mães solteiras ou divorciadas que aparecem de manhã com a criança e elas cheias de ramelas, não a criança, mas a mãe, e a mãe toda ali chateada. "Esta mãe, é esta mãe que eu vou conquistar. Então, mãe, como é que é?" E elas: "Ah, tão sexy este educador de infância". "É mesmo sexy. Quero ir jantar, mãe. Gosta que eu lhe trate assim, mãe?" Ao mesmo tempo é um bocado mórbido isto. Isto era uma piada que eu fazia no espetáculo de stand-up, que tinha um fundo de alguma verdade. Obviamente, na brincadeira, a cabeça pesa o que quiser, mas eu também, quando pus isso de educador de infância, eu lembro-me, era mesmo uma vida solitária, de eu ser um educador de infância no meio de uma data de mulheres e ser admirado por uma data de mulheres. "Ai, ele é um educador tão bom para a minha filha e para o meu filho, e é tão bonito. Ai, aqueles braços por trás daquele bib de homem." Que depois ia ter que andar com um bib. Como acho que educadores. Ou não? Se calhar não sei se é ou não. Mas a minha vida depois levou-me para entrar em jornalismo e seguir para jornalismo. Mas também, como entrei em jornalismo, saí do jornalismo e entrei no mundo da comédia. Curiosamente, esta ideia de estabilidade que nós tínhamos, e tendo em conta o meu passado já de ansiedade, ou seja, da perturbação obsessivo-compulsiva, ou seja, o medo do futuro, é muito curioso porque foi uma coisa que eu nunca apliquei em termos profissionais. Eu nunca tive esse medo de não ter trabalho ou de não saber o que é que iria acontecer. Se calhar porque já passei por várias situações precárias. Ou então eu acho é quando eu enfrento situações reais, eu torno-me tão pragmático a resolvê-las, que depois a ansiedade e as obsessões vão para outros temas que nada têm a ver. Eu começo a panicar com outras coisas e muitas vezes eu percebo: "Espera aí, eu estou a panicar por isto, porque estou a resolver uma situação do outro lado". Por exemplo, ou quando surge um trabalho novo, ou quando estou à espera que um projeto seja aprovado, ou exatamente quando não tenho trabalho e eu continuo na minha busca incessante, pragmática e a tentar resolver coisas, mas depois noutras áreas da minha vida aumenta a ansiedade e aumenta as obsessões. Também é assim convosco que acontece? Pensem um bocadinho se é assim que acontece convosco. Até porque eu, por exemplo, trabalhei num jornal que era o jornal "A Capital", entretanto o jornal fechou, fui para o fantástico mundo do desemprego, uma história que eu também já partilhei. E tinha um subsídio de 290 €, já a viver com a Catarina, ganhava 600, com casa para pagar, com tudo. E lembro: "Ok, embora resolver isto, procurar respostas", currículos para jornais, currículo onde trabalhei para revistas, etc. Trabalhei na RTP como jornalista freelancer, etc. Uma data de coisas. E nesta área da comédia, apesar de eu hoje ter uma vida relativamente estável, eu neste momento, por exemplo, não tenho trabalho. Tenho os meus espetáculos, que só começam lá para setembro, outubro, e só tenho três ou quatro este ano e depois tenho para o ano que vem. E depois tenho algumas coisas nas redes, um ou outro programa que às vezes surge para escrever guiões, mas não é uma coisa fixa, não é aquela ideia de estabilidade com a qual nós crescemos. Há muitos meses, às vezes eu ganho bastante num mês e penso: "Ok, isto já me dá para os meses a seguir". Porque há esta ideia de que há alturas em que não se tem assim tanto trabalho. E eu tento não panicar com isso. Vem essa ideia e eu: "Ok, já passei por isto várias vezes. Bora lá procurar respostas e procurar soluções". E por isso é que eu acho que consigo lidar bem com esta noção volátil desta área, mas que não vai em nada ao encontro daquilo que os meus pais e daquilo que nós fomos ensinados, que é a estabilidade da vida adulta, a estabilidade da vida em adulto do meu pai, que sempre trabalhou na mesma empresa, e do meu irmão, que trabalha na mesma empresa desde sempre. É muito curioso. E sinceramente, por exemplo, em relação às minhas filhas, eu também não lhes coloco esse peso. Eu acho que procuro, sobretudo, que elas sejam responsáveis, que não sejam preguiçosas, que lutem por aquilo que querem, independentemente do seja no trabalho ou quer que seja. Mas eu acho que procuro, sobretudo, dar-lhes armas e mecanismos sociais e mentais para que quando enfrentarem dificuldades, poderem procurar respostas. Porque a gente não sabe como é que isto vai estar quando for a vez delas começarem a trabalhar. Se calhar, pode dar a volta e voltar de novo à ideia de estabilidade. Nós sabemos que a história é cíclica, repete-se. Se calhar volta à ideia novamente de estabilidade, um trabalho certo, etc. Não sei se vai voltar a isso ou não. E é isto. Acho que é esta a reflexão desta semana. Fica aqui a pergunta, se calhar: até que ponto vocês também lutaram por uma estabilidade? Que vos foi incutida essa estabilidade? O que isso vos trouxe de bom? Mas também o que isso, se calhar, vos impediu de viver e que ainda podem procurar viver? Fica aqui a reflexão. Muito obrigado, malta, por estarem desse lado. Espero que partilhem estas conversas. Começou muito bem o podcast. No YouTube eu sei que estes vídeos não são muito vistos. Fico triste com isso, na realidade. Fico. Mas sei que no Spotify bomba bastante, tem muitos downloads e fico muito grato por isso. Fico grato por estarem desse lado. E já sabem, quarta-feira temos nossa nova conversa com um novo convidado no "Somos Todos Malucos". Não vos consigo precisar quem é, porque eu já alinhei isto há uma data de tempo e a minha cabeça, lá está, já não dá para tudo. Obrigado, malta, e até para a semana.