Santo António é um bom casamenteiro? — Sugestões

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Para acabar com a secura das últimas semanas, aqui estamos de volta com o melhor lote de sugestões. Maria Ramos Silva, vamos começar por ti. Tens, pelo menos para já, depois logo se vê, um filme e um livro, é isto?

Isso mesmo.

Ora bem.

Vou começar pelo filme que estreou na quinta-feira. "Cartas Amarelas" foi Urso de Ouro em Berlim. É realizado por um jovem cineasta turco chamado İlker Çatak, ou alguma coisa do gênero. Enfim, perdoe-me se não estiver pronunciado aqui na perfeição. Nasceu em Berlim, é filho de pais turcos. Talvez o conheçam porque em Portugal estreou há dois anos "A Sala de Professores", que também era uma bela recomendação.

É um grande filme.

Pronto, e aqui também é um belíssimo filme que eu recomendo, porque é uma espécie de thriller. Acompanha um casal de artistas na Turquia, que tem o cotidiano afetado a partir do momento em que recebem as chamadas cartas amarelas, precisamente, que são umas notificações arbitrárias do Estado, que os coloca debaixo de fogo, sob perseguição, testa os limites, eles têm que se afastar do trabalho. Enfim, não vou contar muito mais, mas é um filme absolutamente extraordinário. Portanto, se puderem, vão ver ou cinema ou na Filmin, porque ele também está disponível na Filmin. E depois trago um livro, que na verdade tu até me dizias que era o livro de São Cipriano, não é? Mas não é, porque parece antigo e assim num volume que não é.

E tem um ar de feitiçaria.

Tem, é verdade, e é uma belíssima feitiçaria. Isto é o quê? É o "Guia de Portugal", um dos primeiros volumes, que é o "Lisboa e Arredores", que é uma coisa que foi publicada originalmente em 1924, portanto, imaginem, há mais de 100 anos. Tem umas reedições assim, de vez em quando, a cargo da Gulbenkian.

É o nosso Guia Michelin.

É precisamente aquilo que eu quero chegar. Falamos de tesouros na primeira parte, e isto é um pequeno tesouro nosso, feito por um senhor chamado Raul Proença, que foi diretor da Biblioteca Nacional, foi jornalista, enfim, esteve ligado ao Seara Nova. Vão ler sobre ele, vale muito a pena. É o quê? Um volume absolutamente pioneiro em termos de guia, mas que é muito mais do que um guia de viagens e está organizado por zonas do país, por regiões. Este, em particular, é sobre Lisboa e aqui os arredores, mas escrito obviamente muito bem, com uma prosa que inclui não só essas indicações topográficas e tudo mais, tem mapas, inclusivamente, mas depois também uma série de referências culturais, artísticas, arquitetônicas. E tem, imagina, para terem uma ideia, colaboradores como Columbano Bordalo Pinheiro, Luciano Freire, Luís Queiro, Raul Lino, Reinaldo dos Santos. Quer dizer, é uma coisa absolutamente de primeira água. Já vai na sexta reimpressão e permitiu-me, inclusivamente, descobrir coisas tão extraordinárias como, e eu acho que nós às vezes não temos noção disso, o fato de serem citados uma catrefada de estrangeiros que desde o século XVII, XVIII, só para não recuarmos mais, escreveram, estiveram em Portugal, nomeadamente em Lisboa, e escreveram longamente sobre Lisboa como objeto turístico de atração. Nós às vezes pensamos que isto foi tudo inventado há meia dúzia de dias e que os estrangeiros chegaram e descobriram Lisboa o ano passado, com as suas valises, mas não. Há pessoas que acharam isto já há muitos anos absolutamente extraordinário. Passaram por cá, deixaram uma marca absolutamente relevante e acho que nos permite, sobretudo com mais ou menos nostalgia, porque obviamente há aqui coisas, ruas que já não têm o mesmo nome. Enfim, mas é muito engraçado procurar aquilo que nos dizem sobre o bairro, a nossa terra, por aí fora. E permite, sobretudo, não cair naquela tentação. O Raul Proença lembra uma frase caricata do Montesquieu de dizer que os portugueses tinham descoberto o mundo, mas depois desconheciam a terra em que nasceram. E eu acho que isso muitas vezes acontece, infelizmente. Portanto, é uma belíssima oportunidade para irem descobrir este guia de Portugal com o selo da Gulbenkian.

Sim, senhora. E ainda por cima fala sobre Lisboa.

Olha, nem de propósito. Eu juro que não foi.

Ora bem.

Juro que não foi de propósito.

Vamos contar aqui aos nossos colegas de painel e aos nossos ouvintes. Eu e tu, nós os dois, ambos fomos ver o filme "Santo António, o Casamenteiro de Lisboa", que estreia esta quinta-feira. É dia 10, não é? Já estou perdido com os dias. Sabes o que é?

Cinco, seis, sete, oito, nove, 10. Exatamente.

Este setembro.

Não chora.

O novo filme de Ruben Alves, protagonizado por Rita Blanco, Joaquim Machique, Ana Bola, muitos outros. Tem muitas estrelas, muita gente conhecida. Não sei qual foi a tua conclusão. É bom também recordar que é o realizador de "A Gaiola Dourada", que aqui há uns anos foi um enorme sucesso nas salas de cinema.

Blockbuster, sim.

E que também abordava um lado particular de uma certa portugalidade. E aqui quer ser um filme sobre uma certa Lisboa atual que está a ser ameaçada e que está a ser descaracterizada. Não sei o que é que conclusão é que, sem atirar muitos spoilers às pessoas que ainda vão ver o filme.

Olha, o que eu senti? Eu senti que o ponto de partida é interessante, válido, atual, tudo isso faz sentido.

Eu fiquei relativamente entusiasmado com o início do filme.

Também.

Mas depois não senti correspondência.

Depois, como tu citavas aí, é um filme que de fato vive de um corpo de atores absolutamente extraordinários, todos eles. Aliás, nós acabamos de ver aquilo e a minha principal ideia que me vem à cabeça é: num país normal, uma pessoa como o Joaquim Machique já teria ganhado um prêmio absolutamente extraordinário, no mínimo um Globo de Ouro. Ele é, de facto, um ator de estado.

Quando o filme consegue ser efetivamente divertido, ele ganha largo.

Sim, eu acho que é um daqueles casos em que as circunstâncias também das escolhas, dos projetos, o foram engavetando, de fato, neste registro mais cômico, mas é um ator absolutamente extraordinário em todos os registros. Aqui não é exceção, e eu acho que é isso que acaba por conseguir agarrar e suster mais o filme, se quiseres. Passado esse ponto de partida e esse arranque até mais ou menos auspicioso, eu acho que derrapa completamente e deixa-se enredar no estereótipo, ao limite.

Muitos clichês.

No clichê. Eu percebo que a comédia vive disso, surtout daquela comédia mais Francesa que vai buscar esse registo.

Mas haverá formas de trabalhar a matéria.

Há. Ainda por cima porque resvala para esse estereótipo fácil e, mais do que isso, para uma militância, um moralismo, uma ideia de resistência que eu acho que é desnecessária, sobretudo porque depois se torna um pouco tonta com aquele desfecho. A ideia que os lisboetas todas as semanas vão à Luvaria Ulisses comprar luvas, quando nós sabemos que não é culpa dos alemães nem dos franceses, os lisboetas terem deixado de ir comprar velas ao Loreto.

Parece-me que tem um lado de propaganda, não sei se será a palavra certa, mas que não tem correspondência com a vida real do dia a dia.

Sim, mas as próprias pessoas, e isso vê-se nas redes sociais, desculpa interromper, sobretudo a malta dos gatos, como eu digo, aquelas pessoas que estão reformadas e que passam o dia no Facebook. Nada contra, mas gostam que essa ideia continue verdadeira. Por exemplo, não perdem a oportunidade, essas pessoas, de falar mal da padaria portuguesa. Eu não vi o filme, mas a ideia de que há uma Lisboa castiça e alegre, em que o engraxador adora ser engraxador e o mendigo adora ser mendigo.

É isso.

E as pessoas adoram ser realmente expostas, é uma ideia que continua a ser perpetuada por muita gente que acredita que houve um tempo em que todos éramos felizes, isto era tudo muito mais calmo e não havia padaria portuguesa. E era bom quando as pastelarias antigas, dos homens cheios de beatas no chão e antipáticos, e não sei o quê. Os croquetes de antiontes.

Quem é que abriu o microfone? Isso é que era bom.

É verdade.

Há um lado.

E que isto vai ser um sucesso.

Eu espero bem que seja.

Exato. Não é nada contra. Acho que é altamente meritório fazer este tipo de...

Acho que a dada altura procura-se colocar demasiadas personagens ao mesmo tempo, sem dar espaço a que tenham personalidade e presença suficiente. A narrativa em muitas ocasiões é colada com cuspo.

Mas nós vivemos num país livre. Isso é absolutamente extraordinário.

Claro, e a quantidade de vezes que aparece um elétrico.

Fora de horas.

Não faz sentido. Há muitos elétricos.

Ó Tiago, para mim o que é mais interessante é nós, e estou a dizer isto com um pingo de ironia, podermos viver num país em que se faz um filme apoiado pela Câmara Municipal, a gozar com a Câmara Municipal.

Sim, mas também há um twist.

Vejam, porque de facto é sempre melhor ir ver do que não ir ver e depois logo fazem o vosso caminho. É como um pastel de nata.

Exato. Bruno Vieira Amaral.

Eu.

Tu tens uma série, que eu não sei se é true crime, mas pelo título parece.

Não é true crime.

Não é?

Não é true crime.

Mas tem sangue.

Tem sangue. É uma série ficção, são cinco episódios.

Ok.

É uma série sueca. O criador da série, o argumentista, é um dos criadores também da série Lupin, mas esta é uma série sueca realizada por Kristoffer Nyholm e protagonizada por Jakob Oftebro, Peter Andersson e Irina Björklund. Não?

Eu adorei.

Ok, ótimo.

Os nomes dão-me logo vontade de ver.

A série. Não, mas é isso.

Mas dão mesmo.

Dão mesmo vontade de ver.

Não estou a brincar.

Os países escandinavos conseguiram esta proeza.

Sem terem feito nada.

Sendo eles, de produzirem conteúdos, seja no streaming, seja filmes e livros também, que uma pessoa: "Ai, eu quero ali qualquer coisa." Não sei se é na organização espacial, paisagística, que nos faz querer ver este tipo de coisas. Que seja passado, por exemplo, num ambiente mais rural ou então mesmo num ambiente urbano, como é o caso desta série. Eu vou dizer, são cinco episódios. É uma série extraordinária. Não é. Não é uma série extraordinária.

Aquela de cortar as cabeças aos polícias?

Sim.

Já viste?

Não é extraordinária.

Ainda vai aparecer o dia em que eu pergunto: "Ó Pedro, já viste?" "Não, ainda não." "Onde está?"

Não, o Pedro quando não viu é porque não quer ver. Tens de perceber isso.

Como o eclipse.

Como o eclipse. A Odisseia.

Exato.

É a Odisseia ou é o Odisseia? O Odisseia é o canal. Ainda existe. E os desempenhos são assim uma coisa, e o argumento é extraordinário. Não é nada extraordinário e isso é que faz uma boa série. Esta boa série.

Por acaso, ó Pedro, lembra-me. Eu tenho lá o livro do Frederico Lourenço, que é a Odisseia para crianças ou para mais jovens, se quiseres.

Queres começar por aí?

Esta série, este apelo do nórdico tem muito a ver com as casas deles.

É. A altura, o cabelo, os olhos.

É tudo tão perfeito que só pode não ter alguém.

Eles são países com invernos longuíssimos e as casas parecem ter muito mais luz que as nossas de verão. Elas são sempre casacos de T-shirt dentro de casa.

Vocês não tapam tudo como nós.

É muito agradável.

É agradável.

Eu quero ter frio naqueles países.

Aquelas coisas são satisfatórias.

Frio é bom.

Ouvir aqueles barulhinhos de estar a arrebentar as bolhinhas.

As canecas.

Ver estas séries é o equivalente a isso. Aquilo proporciona-te o conforto, mesmo que o argumento às vezes não faz muito sentido.

Em agosto e tu vais buscar a manta.

Eles encontraram aqui uma coisa extraordinária. Quero recomendar. No National Geographic.

Vê lá.

No National, que é um canal.

Mas atenção, mas pode estar no streaming na Disney+.

Também, é verdade. E se calhar, olha, testa esta série, eu não sei. Por acaso eu vi no canal de cabo, não no streaming. É uma série, vêm aí os 25 anos do 11 de setembro, vai vir "Charters".

Se assinalam no dia 11 de setembro. Dia 11 de setembro, que é feriado municipal de Amadora, ficam a saber.

Muito bem. E alguém vai dizer: "O verdadeiro 11 de setembro foi no Chile em 1973."

Olha, e como é que se chama a série? Para eu procurar aqui na Disney+.

"Unidos pela Catástrofe", se não estou em erro. Acho que é isso. Acho que é Unidos pela Catástrofe, não, deve ser Unidos pela Desgraça.

Tem aqui Reunited.

É isso.

Reunidos novamente.

O que é que acontece?

Está na Disney.

Está na Disney+. São três episódios.

Muito bom, porque quando nós pensamos que já todas as histórias foram contadas, ainda há histórias extraordinárias por contar do que aconteceu no 11 de setembro. Eu creio que pelo menos uma das histórias já tinha visto em outro documentário, mas só aqui para aguçar o apetite dos nossos ouvintes. Qual é a lógica deste documentário? É reunir pessoas que estiveram ligadas pelo 11 de setembro, ou umas porque salvaram as outras, ou porque se cruzaram no meio daqueles acontecimentos e que só se reencontram agora 25 anos depois. No caso, o documentário foi feito no ano passado. Há uma história, logo no primeiro episódio, verdadeiramente inacreditável. Há uns tipos que ficaram presos no elevador da torre norte, na primeira que foi atingida e que foi a segunda a cair, e que ficaram presos. E a história é inacreditável, por quê? Eles estão dentro do elevador, entram no elevador e à última hora, há um tipo que estende um daqueles aparelhos para limpar as janelas para impedir que as portas se fechem e entra no elevador que ia subir. Eles ficam presos no piso 65, aquilo cai para o piso 50 e eles ficam fechados e quando conseguem abrir as portas, têm uma parede à frente. E o tipo usa a lâmina daquele instrumento para raspar a parede. Aquilo é inacreditável.

Faz remember ao MacGyver que resolvia tudo com uma simples lâmina.

E ele começa a raspar a parede com aquilo, e eles ao fim de algum tempo conseguem partir a parede e aquilo dá acesso a uma casa de banho do edifício, e conseguem sair, e saem do edifício cinco minutos antes.

Antes do edifício cair.

Como diriam os portugueses, não era a hora deles.

Não era a hora deles. É uma coisa inacreditável. O tipo era um imigrante polaco que estava nos Estados Unidos desde 1980, portanto ele já devia estar habituado a viver de forma bastante precária na Polônia. Não pode escrever uma coisa destas, porque é inacreditável. É que se ele não tem posto a varinha para impedir que as portas se fechassem, muito provavelmente aquelas pessoas que estavam dentro daquele elevador teriam morrido. E eles reencontram-se ao fim de 25 anos, e é muito comovente. De facto, é muito emocionante assistir a esse reencontro de pessoas que se cruzaram naquele momento e depois tudo aquilo que lhes aconteceu depois de terem sido avós, terem podido ver os filhos crescer e que não teria sido possível se não fosse aquele acontecimento verdadeiramente improvável. E a série, os episódios são sobre essas pessoas que, ou umas se salvaram, ou estiveram de alguma forma ligadas no 11 de setembro e que se reencontram 25 anos depois, está no National Geographic.

E na Disney+.

Na Disney+.

Muito bem. O que eu tenho para vos dizer? Só duas coisas que me falharam em relação ao filme do Santo Antônio, que é: apreciei a dupla Maria João Bastos e Jacqueline Coutrado, que fazem duas irmãs.

Eles são todos ótimos.

E resultam muito bem. E o João Catarré.

O João Catarré é maravilhoso. Devia ter mais tempo também.

Eu quero vê-lo a ser desaforado.

É um elenco absolutamente extraordinário.

De resto, como vos disse há bocado, vi o "Obsession", gostei muito. Acho que é daqueles filmes em que o hype corresponde. Começa meio demasiado americano, depois parece um thriller psicológico, mas depois aquilo na segunda metade tem um desvio gore que vale muito a pena e que nos deixa muito surpreendidos, se puderem. Gostei muito do livro "Assunto de Família", da Claire Lynch, que faz parte daquela coleção do editor, da Asa, se não me engano. E que é uma história muito curta, muito rápida, sobre uma protagonista que descobre um segredo de família e ao mesmo tempo vai viajando no passado, nas memórias, para nos contar como é que chegou até onde chegou. Vejam, se puderem ler, o livro é curto, lê-se muito rapidamente e dava uma bela minissérie daquelas da HBO.

O que não se lê rapidamente é "A Montanha Mágica". Continuo a ler "A Montanha Mágica".

Levaste para férias.

Levei para férias, não acabei, como é óbvio, mas há um capítulo verdadeiramente extraordinário que se chama "A Neve". É das coisas mais extraordinárias que eu alguma vez li.

Posso ler só esse capítulo?

Podes ler só esse capítulo. Olha, vai a esse capítulo. É extraordinário, mas perdes, claro, o efeito cumulativo.

Claro, eu percebo.

Depois de chegar ali.

É uma avalanche.

É uma verdadeira avalanche.

Eu percebo. E para vocês que são amantes de música indie britânica, um disco de uma banda nova.

Das terras de Sua Majestade.

É verdade, o disco chama-se "It Goes On", a banda chama-se West Side Cowboy. Se virem as fotos deles, parecem um bando de garotos em 93 e tocam uma indie de guitarras meio melancólicas.

Indalhada.

É muito Velvet Underground, é muito Modern Lovers.

Já agora nós chegamos a dizer que não houve canção do verão, não é? Chegamos a essa conclusão.

Sim, pelo menos aqui não houve aquela.

Pois é.

Mas no sentido pop, não sei se ouviram o último álbum, e a coisa tem andado complexa para os lados dela, da Ariana Grande, mas é um belíssimo disco. Se puderem. Eu depois mando os links de duas canções. O Pedro está a cenar De certeza que vai ouvir imenso enquanto vê fotos do eclipse.

E come uma pizza.

E come uma pizza.

E vocês sabem que muitas pessoas foram parar às redes sociais do Rodri, do jogador espanhol, porque estavam à procura da Olívia Rodrigo e depois comentaram lá.

E comentaram? Então, mas não viram que ela não estava?

Então, Rodri e tal. É assim. Uma daquelas coisas de riso.

"Onde estás, Olívia?"

Rodri.

Rodri. Pedro Borges Simões, o que é que nos trazes?

A maior exposição que alguma vez foi feita em Portugal sobre Fórmula 1 está ainda no Museu do Caramulo.

Já lá foste?

Ali para cima e para a zona de Tondela, até 18 de outubro. Ainda não fui.

Tu merecias estar exposto nessa exposição.

Encontram-se os modelos históricos. Um Lotus de Senna, um Lotus de Piquet, um Williams de Mansell, um Williams de Senna.

Tu gostavas do Nigel Mansell. Tu tens cara de quem gostava do Nigel Mansell.

Mais ou menos. Benettons, Jordans, Sauberts, Ferraris. O Museu do Caramulo é um dos melhores museus, acho que se pode dizer assim, que não é em Lisboa. Quando se fala tanto de cultura e dessas coisas, uma das formas de dinamizar uma determinada zona do país é também através de equipamentos culturais.

Como museus, que podem ser mais facilmente assaltados.

Mas isso não é muito fácil.

Pegas no carro e vais.

Os meus sobrinhos já lá foram ver esta exposição, adoraram e tenho a certeza que poderiam ser eu ao volante.

E ajuda a conhecer o país, como dizia a Maria há pouco. Portugal, de facto, não é o país mais bonito do mundo.

Eu vi na televisão a divulgação dessa exposição e acho que tem muito potencial.

Pedro, tu tens uma equipa favorita na Fórmula 1?

Tenho, a McLaren.

A McLaren? Desde sempre? Desde que te lembras.

Eu gostava muito do Nelson Piquet, ele era da Brabham, a Brabham já não existe.

Pois é.

Depois, algumas coisas esparsas. Nessa coleção que falavas da Asa, voltou a sair "Os Filhos do Imperador", da excelente Claire Messud, uma autora de quem eu gosto muito. É um daqueles livros com aquelas histórias tipo Jonathan Franzen, que é um grupo de jovens, neste caso em Nova Iorque, Marina, Daniel e Julius, são jovens e depois tentam ter carreiras e depois estão sempre na cama uns dos outros. Eu gosto muito desta autora, muito mesmo, porque acho que ela tem uma coisa. Estes temas dos jovens adultos, é fácil ser ligeiro. E não é bem isso, acho eu, que o leitor deseja de um escritor mais sério. Claro que se pode ser ligeiro, pode haver uns palavrões e tal, pode haver umas cenas mais gráficas, mas a Claire Messud é uma autora que consegue construir as histórias em que nós estamos a seguir a história também, mas estamos também a ver o que os supostos personagens, que obviamente são inventados, poderão estar a pensar uns dos outros, sem que isso seja propriamente escrito ou descrito pelo autor. Aconselho vivamente "Os Filhos do Imperador", de Claire Messud, da Asa. Depois, uma coisa estranhíssima, que é um documentário na Netflix que eu estava ansiosíssimo por ver, que se chama "Raygun: Breaking Badly", que é sobre aquela B-girl. B-girl, sim. Portanto, breakdancer australiana que brilhou nos Jogos Olímpicos de Paris de 2024. Brilhou por ter zero sempre. Teve sempre uma nota zero. E eu antes de ver o documentário, fui fazer uma pesquisa na internet, e a descrição era mais ou menos do tipo: "Isto era para ser uma pesquisa sobre os meandros de não sei o quê, mas as pessoas que fizeram o documentário renderam-se à figura e então, afinal, é uma coisa bem-disposta". Esta senhora era, afinal, uma académica, que fez uma tese chamada "Desterritorialização do Género na Cena de Breakdance de Sydney: Uma Experiência de uma B-Girl no B-Boying". Fez uma tese, com certeza muito bem feita, sobre a cultura breakdance, a cultura urbana, a cultura hip-hop. E nisto casou com um tipo qualquer que, e isto palavra de honra, não se percebe bem no documentário, e eu julgo que é de propósito. Ela ganhou as eliminatórias australianas para ser a representante da Austrália nos Jogos Olímpicos.

Isso é que motivou muitas críticas e continua a motivar.

A palavra crítica até, enfim, parece ter havido batota. Só para dizer que ela depois quando atua nos Jogos Olímpicos, ela faz três batalhas, acho que é cinco, seis battles para passar à frente, tem zero em todas. Há três juízes, portanto, ela tem nove zeros. É de um a 10, ela tem nove zeros. Ela podia ter um ou dois, não, tem nove zeros. E que ela tinha 30 e tal anos e a segunda mais velha tinha 25. Portanto, claramente ela não devia estar ali. Ela surge a falar no documentário com os pais e com o marido, todos muito bem-dispostos, a rir, que aquilo foi muito divertido. Mas o documentário vale a pena para depois as pessoas voltarem à internet, que foi o que eu fiz, tentar ver o que se diz sobre o documentário.

Foi isso que eu fiz.

Não digo profundamente, mas é perturbador. Como a Netflix é um documentário Netflix, como a Netflix escreve a história. Imagina, uma pessoa está em casa, vê este documentário e fica com esta versão da história apenas, porque não vai para a internet Aquilo tresanda a encomenda. É impossível aquilo ter sido assim como está descrito no documentário. E é muito estranho que os critérios de qualidade da Netflix tenham deixado passar uma coisa assim. Nós vemos uma mulher bem-disposta a falar da sua experiência, rir, aquilo são os Jogos Olímpicos. Depois vemos imagens das batalhas. Aquilo é confrangedor, as figuras que ela faz, podia ser um de nós os quatro aqui a dançar, dançaríamos igual a ela.

A comunidade do breakdance reagiu muito mal à participação dela, desde logo, e ao documentário, porque para ela estar nos Jogos Olímpicos, e foi a estreia do breakdance nos Jogos Olímpicos, alguém ficou de fora, e alguém com muito mais qualidade do que ela. Esse é logo um dos motivos da indignação e o outro é que isto contribuiu para um grande desprestígio, para que as pessoas se perguntassem: "O que esta porcaria está aqui a fazer?" Não ela, mas esta modalidade. Não é se ela merece estar nos Jogos Olímpicos, é se esta modalidade merece fazer parte dos Jogos Olímpicos. Para quem dedicou a vida toda ao breakdance e viu naquele momento um momento de reconhecimento, de elevação da modalidade ao patamar olímpico, claro que a atuação, o desempenho da Ray Gun não foi só confrangedor. Confrangedor foi para nós, espectadores. Para eles foi uma questão existencial.

E o marido dela, que é o treinador, chama-se Sammy Sexx.

Mesmo?

Sim. Só para dizer que também na Netflix há um documentário sobre o 9/11, sobre o 11 de Setembro. É só uma peça, encontram facilmente, chama-se "9/11" qualquer coisa.

"Turning Point".

Não, é "Generation 9/11". Pega nas pessoas que eram muito novas na altura, no sentido de serem crianças, algumas crianças de colo, como foram afetadas, porque alguns dos casos familiares morreram ou outros sentiram-se inspirados a alistarem-se nas Forças Armadas americanas. O 11 de Setembro merece ser falado em muitos pontos de vista, vão assinalar os 25 anos, e um dos mais estranhos é que parece que foi o qualquer coisa que aconteceu em Nova Iorque e ali ficou. Este documentário tem a vantagem de lembrar que também houve ataques no Pentágono, que houve o voo 93 da United Airlines que caiu ali no meio do campo, e que também estava destinado ao Capitólio, que houve guerras no Iraque e no Afeganistão, que afetou os Talibã.

Foi toda uma cadeia de eventos.

Sim. Vale a pena recordar essa história, e para acabar, é um tempo pré-redes sociais. Nós temos um pouco a mania que agora é tudo redes sociais e os influencers, mas de facto houve um mundo antes das redes sociais.

Muito bem, sugestões entregues. Estão como sempre disponíveis em podcast. Sigam-nos, não percam nenhuma destas doses. Nós voltamos na quinta-feira. Até lá.