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Na paisagem de Porto Alegre, não passa despercebido o Centro Administrativo Fernando Ferrari (CAFF) com seus 22 andares e sua fachada curva em meio a vizinhos retangulares. Mas enquanto meros passageiros enxergam uma obra arquitetônica imponente, skatistas vislumbram uma verdadeira pista, inclusive apelidada de “rampa de skate definitiva” pelos praticantes locais da modalidade. Em 25 de setembro de 2025, Sandro Dias, o “Mineirinho”, tornou este sonho em realidade ao descer a lateral do edifício e quebrar recordes mundiais. Um ano depois, ele protagoniza um documentário com bastidores do “simples drop” para eternidade.
Não havia skatista mais adequado para realizar a façanha. Hexacampeão mundial de skate vertical, Mineirinho é lembrado por executar a manobra 900º, com dois giros e meio no ar, além das mais de dez medalhas em X Games. Em 2019, acordou a cidade de São Paulo andando em uma pista construída entre as pilastras na Ponte Estaiadinha, na Marginal Tietê, a 30m de altura da passagem dos carros. Era um ensaio para o que estava por vir na capital gaúcha.
Na descida do CAFF, Mineirinho bateu os recordes de “queda mais alta em um quarter pipe temporário” e “a velocidade mais rápida em um quarter pipe temporário”, certificados pelo Guinness World Records. Ele fez descidas graduais na megarrampa construída por cima da fachada do prédio: começou a 30m da altura do chão, depois 40m, 50m, 55m, 60m, 65m antes de tentar da altura recordista de 70m, em 8s, e com o skate chegando aos também inéditos 103,8 km/h.
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O documentário Sandro Dias e a Maior Pista de Skate do Mundo estreia exatamente um ano depois das descidas recordistas, no dia 25 de setembro nos serviços de streaming do Globoplay e Red Bull TV e no canal fechado SporTV. Em entrevista a VEJA, Mineirinho falou sobre os bastidores do filme e suas perspectivas sobre a nova geração de skatistas.
Você sempre está com o sorriso no rosto, de alto astral, mas no documentário o público conhece um outro lado seu de frustração, choro e preocupação da família. Por que mostrar esse seu lado? É importante mostrar um pouco de tudo que é o Sandro, principalmente quando a gente está gravando um documentário e recontando um pouco da nossa história, coisa que eu nunca tinha feito antes. Acho que tem que mostrar um pouco da pessoa que eu sou, que sou uma pessoa normal. Apesar de estar sempre feliz na maior parte do tempo, têm horas que as coisas não dão certo e a gente tem que se reinventar e tentar fazer de forma diferente. Muitas vezes a gente se frustra, como me frustrei diversas vezes na minha carreira e na minha vida. Na verdade, isso acaba me ensinando a continuar em frente e nunca desistir. Só mostrar coisas alegres e felizes talvez não seria exatamente o que é o Sandro. Uma pessoa normal. O Sandro é um humano, um cara que tem sentimento, um cara que batalha, que tem uma família e pessoas por trás preocupadas. É importante mostrar a minha vida como um todo, não só os grandes feitos, mas mostrar tudo o que a gente batalha e sofre para chegar nesses grandes feitos. A gente mostrou muito o feito, só foi mostrado o feito na internet, mas ninguém sabe como foi para chegar até esse feito. Acredito que na minha vida profissional foi um dos projetos mais legais e um dos mais demorados para realizar, pois demorou 13 anos para se realizar.
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A sua relação com seus pais é um dos temas explorados no filme. Qual a importância deles nesse processo? A família é a nossa base de tudo. Sou muito ligado a eles, principalmente à minha família. Já não moro com meus pais há 26 anos, mas sou muito próximo. Para você ter uma ideia, na casa da minha mãe até hoje existe o meu quarto montado. Eu tenho três irmãs, mas só o meu quarto é montado lá. Obviamente que se o aval deles fosse negativo para fazer o projeto, eu ia fazer de qualquer jeito porque sabia o que eu estava fazendo e estava muito consciente do que estava fazendo. Mas ver a preocupação deles comigo legal, você se sente importante e abraçado de alguma forma, e te dá mais confiança quando você vê que as pessoas estão preocupadas. Durante todo o processo do projeto, eu não dividia muito o que vinha fazendo, mas trazia muita confiança para eles. Minha mãe é daquele jeito dela, mas estava preocupada e sofrendo quieta. Meu pai, não diretamente para mim, mas ele falava para ela [minha mãe] e ela me passava. E eu dizia: “Fica tranquilo, vai dar tudo certo, estou me preparando”. Meu pai dizia: “Para que você precisa fazer isso nessa idade?” Eu falava: “Calma, fica tranquilo. Eu sei o que estou fazendo. Estou me preparando para dar tudo certo. Eu sempre tentei acalmá-los da melhor forma.
Outra questão abordada sobre suas origens foi o papel social e comunitário do skate. Um dos skatistas com quem você andava comentou que te julgaram mal à primeira vista na pista de São Bernardo já que você chegava de Mercedes, mas a impressão logo mudou quando você começou a andar de skate. Como você enxerga essa função social do skate? O skate é um esporte que não distingue classe social, raça, crença ou gênero. É um esporte muito democrático. Quando a gente está com o skate, não pensa se o outro é mais rico ou mais pobre. Nunca existiu isso na minha cabeça e nunca existiu na minha família. Minha família veio de uma classe baixa: meu pai construiu a vida com muito esforço e trabalho, hoje, ele é um empresário bem-sucedido. Mas, quando nasci, a nossa família era de classe média baixa. Sempre fui moleque de rua, nunca teve essa diferença social na minha cabeça e não tem até hoje. Nunca tratei ninguém diferente, nunca distratei as pessoas por nada. Sempre fui muito acolhido porque era e sou igual a todo mundo na pista ou em qualquer ambiente, ainda mais em uma carreira que foi construída organicamente, começando a andar de skate numa época sem pretensão ou espelho de ser nada na vida. Comecei a andar de skate brincando porque ganhei um skate no Natal e não tinha pretensão de ser profissional. As coisas organicamente foram acontecendo de acordo com que eu fui me apaixonando pelo esporte. Foi muito natural a minha vida dentro do skate.
Como essa postura de tratar todo mundo igual e de que o skate não distingue ninguém, quais valores você quer passar para essa nova geração que enxerga como importantes? Essa nova geração é muito diferente da minha. Na minha geração, como a gente não tinha pretensão, suporte e até sofria preconceito na época. A gente começou a andar de skate se divertindo, criou um amor pelo skate e traz esse amor até hoje. Muitos atletas de outras disciplinas, que de repente não estão mais no nível competitivo, a maioria não pratica mais o esporte que eles sempre praticaram. Às vezes eu converso com um nadador, por exemplo, que foi profissional, medalhista: “Mas você nada ainda?” E ele: “Pelo amor de deus não nado. De jeito nenhum. Nem entro na piscina.” E aí o cara pergunta para mim: “Você anda de skate ainda?” e eu falei: “O skate é minha vida, skate é a minha paixão”.
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Hoje é muito fácil ver uma criança andando para ser um atleta olímpico, ficar famoso, ganhar dinheiro… Onde eu posso falar, eu falo: “O skate não é só isso. Não ande de skate só por resultado. Ande para se divertir, crescer e aprender.” Porque o skate ensina muita coisa para a gente. Se você pensa só no lado competitivo, você não consegue nem criar amigos. O skate traz uma gama de amizades, uma formação como pessoa para a sociedade. Agora se você vai para a pista, quer andar escondido porque você não quer mostrar para ninguém o que você está fazendo…Que graça tem andar de skate? Se skate é uma diversão, você vai para pista para dar risada, zoar com os amigos, aprender e ensinar. Quando eu tenho a oportunidade, a minha geração, tenta mostrar o quanto o skate é mais rico do que somente começar a andar de skate para ser profissional, ser um atleta olímpico, para ganhar dinheiro ou ser famoso. Muitas vezes a pressão numa criança, se ela não alcança os resultados que alguém coloca nela, ela se frustra e para de andar de skate, não tem mais o amor pelo esporte se não alcança o resultado que o pai ou alguém desejava. É muito doído. Tento auxiliar até os pais para mudar essa mentalidade.
No projeto da rampa no prédio, houve muita conversa, testes e planejamento técnico por trás do “simples drop”. Como você interpretava esses dados e como foi essa lida entre a parte calculada vs. o seu andar de skate de forma orgânica? Quando o projeto iniciou, a Red Bull me perguntou o que eu precisava e eu, com cabeça de skatista destemido, porque a gente acha que tudo vai dar certo e que a gente vai conseguir tudo, eu disse: “Constrói a rampa lá que eu vou e dropo, ando de skate há quase 40 anos na época”. Mas quando o pessoal corporativo falou sobre fazer projetos, trouxe engenheiros, arquitetos, enviou o projeto para um laboratório de física na Áustria, depois disseram: “Precisamos do seu skate, do seu equipamento, do seu peso porque a gente vai fazer todos os cálculos…” Quando voltou tudo isso eu tive que enxergar com outros olhos. Eu falei: “Não vai dá para eu só descer lá que eu vou me matar.” (entre risos) Foi aí que eu tive que buscar soluções para que eu conseguisse de fato realizar o projeto, na questão da velocidade, força G e impacto, coisas que nunca tinha feito na vida. No começo é meio estranho porque o equipamento é totalmente diferente. Confesso que mesmo andando de skate há quase 40 anos, tudo que eu fiz naquele projeto foi pela primeira vez. A questão de uma velocidade muito mais alta, de encarar uma força G muito forte e do impacto. Então foi muito legal esse trabalho do lado profissional e a gente se deu muito bem. Apesar de ser destemido, skatista, eu aceito opiniões de fora, quando eu vejo que realmente vai funcionar para que a gente construa algo juntos.
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Por que e como foi manter esse projeto em segredo? Eu escondi esse projeto que foi secreto para mim por 13 anos. Esse do prédio ficou guardado e quem sabia era eu, pessoas próximas, minha família e a Red Bull. Desde quando apresentei a primeira vez, eu não falava para ninguém do projeto. As pessoas que ouviram eu apresentar esse projeto em uma reunião de atleta há 13 anos atrás no Rio de Janeiro, sabiam e às vezes perguntavam: “Pô, e aquele projeto do prédio?”. Eu nem comentava muito, tentava esconder ao máximo porque eu sabia que era de muito risco e, enfim, eu não queria escutar coisas de fora. Quando comentei com alguns amigos próximos que iam participar do documentário, um deles falou: “Cara, então a sua morte é nesse dia?”. E eu respondi: “Mano, você está louco? Estou me preparando, vai dar tudo certo! Você não sabe o que eu estou fazendo para fazer aquilo.”
E quais os próximos projetos? Tenho grandes projetos ousados, mas não posso falar ainda. Existem projetos, bastantes projetos. Eu tenho esse relacionamento com a Red Bull há 26 anos e a empresa que a gente crie diferenciadas para que de repente faça junto. Depois que a gente realizou a ponte e o prédio, já sentamos e temos umas cinco ideias legais para serem feitas, que a gente está vendo viabilidade. Obviamente não é para agora ou para o ano que vem, mas vamos fazer sim no futuro.
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Se você não pode falar dos seus projetos pessoais, quais projetos você tem para a nova geração e o desenvolvimento do esporte? O Sandro Dias Camp eu já faço há 11 anos no meu sítio. Estou ampliando a estrutura para ter pistas das modalidades olímpicas que não tinha antes. Eu tinha street, vertical e bowl, e agora estou fazendo o park mesmo para deixar o espaço mais completo. A ideia é ter um espaço com pistas de melhor qualidade para ter o Sandro Dias Camp e dar oportunidade para as crianças passarem as férias e abrindo também para treinamentos específicos, receber seleções e até treinamentos particulares. E tenho o Instituto Sandro Dias, que é um projeto de coração para dar oportunidades a quem não tem e usar o skate como ferramenta de inclusão social para transformar a vida das pessoas. A ideia não é só transformá-los em skatistas profissionais, se eles se transformarem em um skatista profissional é legal, mas é para transformá-los em pessoas boas para a sociedade, tanto eles quanto as famílias. O núcleo atual é em Santo André, minha cidade natal, mas a ideia é conseguir recursos para abrir outros núcleos em outras cidades para levar a mesma oportunidade para quem não tem. O Instituto é algo que realmente deixa um legado. Se um dia eu for “promovido”, se alguém der continuidade nesse projeto, é algo que traz o bem para a sociedade, e se derem continuidade e com recursos, ele pode ser eterno.
Esse é o seu legado? É o que eu desejo e batalho para ser. Eu falo muito do Instituto porque tem muita gente que precisa, não têm oportunidade e a gente consegue levar. Através das minhas oportunidades, quero dar oportunidades para as pessoas também. O Instituto é um projeto de coração para ajudar.
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