Os invisíveis de Ceuta: haverá escolas seguras em setembro? Para todos. Não só para os espanhóis

Quando estou na investigação destes temas, examino trauma e fluxos migratórios, mas noto que há algo que, por vezes, escapa ao cientista: sair fora dos “números” e observar os comportamentos em detalhe franco. Como o caso de Ceuta: só se noticia a invasão de adultos, não se comenta nunca (ou quase nada) o outro lado do sofrimento não convidado: as crianças não acompanhadas que ficaram em Marrocos e sobretudo as que estão em Ceuta após o retorno de muitos dos seus progenitores para Marrocos. E as mulheres jovens que estão em centros de acolhimento espanhóis, porque dormiam na rua estes dias. Mulheres e crianças que certamente não compreendiam esta travessia imposta.

Preocupa-me, e devia ao governo preocupar, sobremaneira o seguinte com dois lados agudos (não sendo nenhum positivo): as crianças de Marrocos vão ficar sem escola no imediato setembro? E as crianças espanholas terão escolas seguras com tanta violência que ressoa nas ruas? Será que se fez um levantamento e planeou alguma prevenção para que as escolas de Ceuta, região ora desavinda, possam receber normalmente o ano letivo? E estou a integrar a população estudantil espanhola e marroquina. A isso chama-se inclusão, para todos.

Ceuta que foi o primeiro porto de conquista portuguesa oficial, durante os Descobrimentos, vê-se atualmente de braços entupidos e com falta de medidas como se um teatro de imigração tivesse sido encenado para que imigração pareça mesmo muito agreste e feia. A imigração não é isto, há outro nome para tal. E não é sequer um nome político ou geopolítico.

Não demorará a que tenhamos de bem acolher crianças marroquinas nas escolas portuguesas, porque o facto de Ceuta se ter tornado ‘de’ Espanha, na História, não nos faz ‘lavar as mãos’ desta problemática psicossocial. Porém, o problema é: continuamos sem perceber nada de inclusão escolar Portugal, nomeadamente para os refugiados e imigrantes menores. É uma das minhas principais linhas de investigação e sem investimento culto da da Agência para a Investigação e para a Inovação. E nem do governo. Os financiamentos de milhões seguem para projetos lunares e marcianos, procura desnecessária de galáxias para habitar, maquinaria e robótica ainda mais do que avançada. Mas, e o lado humanista da inclusão? E os programas a financiar sobre saber incluir com meios financeiros dignos, para os nativos e para os de fora.

Portugal tão bem poderia dar exemplo à Ibéria toda. Era agora o nosso novo golo. Juntamente com Barcelona onde sempre observei bons métodos de inclusão de menores, de todos os cantos do Mundo. Especialmente nas escolas. Sem discriminação. Há coisas que nada custa aprender, tem a ver com vontade. E os tempos mudaram, a vontade também? Camões daria voltas na tumba sobre isto.