Uma bandeira como aquela teria seguramente despertado a atenção profissional de um jornalista português que há 30 anos ali se tivesse deslocado numa qualquer missão de reportagem. Como simples nota de passagem num feature ou sob forma de um apontamento à parte (chamava-se “à margem”), nenhum teris resistido à tentação de “explicar” a razão de ser de uma bandeira que apesar de ser símbolo de um território de jurisdição espanhola e estar situado na costa de Marrocos, ostenta as cores de Lisboa e ao centro armas de Portugal. A bandeira de Ceuta.
Em 2026, a curiosidade daquela bandeira (curiosidade ainda mais vincada aos olhos de um português), não parece, porém, ter merecido atenção que se visse aos muitos jornalistas portugueses despachados para Ceuta com o fim de acompanhar a crise migratória que ali perdura. Nem mesmo em “peças” ou relatos áudio-visuais sobre actos públicos nos quais as autoridades neles participantes têm atrás de si um friso de bandeiras – uma delas a que aqui se alude, a do território. No máximo falou-se de Ceuta como uma terra que “já foi portuguesa”.
Os modernos jornalistas portugueses fazem parte de uma sociedade em geral marcada por um diminuto interesse pela História do seu país ou, pior ainda, por uma ignorância em relação a ela. Em especial pela parte dela que tem como enfoque a Expansão Marítima. Foi o que fizeram anos e anos de menorização da História, quase sempre vinda de reduções políticas e ideológicas, de novas interpretações dos factos ou mesmo das deturpações e mais deturpações com que passou a ser contada, desse modo fazendo substituir o orgulho antigo com que para ela se olhava por uma espécie de desdém. Correntes e tendências a que é difícil escapar, sobretudo quando a exposição ao ambiente por elas criado começa cedo.
A olímpica indiferença em 2015 revelada por todos (todos, de facto) os poderes públicos portugueses ante a passagem dos 600 da conquista de Ceuta – o que é isso senão reflexo do esquecimento a que a História foi votada ou, pior ainda, do complexo político em que parece ter-se transformado? O mesmo em relação às indefinições que faz anos vão enredando e protelando a intenção (ou a ilusória intenção?) da criação de Museu dito dos Descobrimentos num país em que proliferam museus para todos os gostos.
A terra que “já foi portuguesa” foi-o durante 386 anos. Uma vida, teluricamente falando. A sua entrada na História de Portugal, consequência de um feito guerreiro tão genial quanto o da conservação de tão exíguo e pouco defensável território, representou o momentum precursor da Expansão Marítima. Foi com Ceuta que Portugal se “casou com o mar”, expressão feliz cuja autoria me escapa. É corrente que a potência marítima em que esse esforço transformou Portugal, foi decisiva na sua afirmação de Portugal e na universalização da sua língua. Confinada ao seu “cantinho” peninsular, foi outra, diversa, a sorte reservada à Catalunha.
As navegações que séculos afora estiveram na origem do feito da Expansão Marítima não valeram apenas pelo génio, pela ousadia ou pela tenacidade daqueles que as levaram por diante e sem as quais, em tempos como aqueles, de desconhecimento e negrume, nem sequer teriam sido possíveis. Valeram também pela imensidão de conhecimentos trazidos ao conhecimento científico do mundo. A geografia tomou as formas que ainda hoje são as suas, rompidas as teorias de Ptolomeu e Santo Agostinho. A medicina avançou como nunca graças à descoberta de drogas logo transformadas em mezinhas.
O valor único que Ceuta teve na História de Portugal, distinção reconhecida e venerada por todos os seus reis (um deles, D. Duarte, recusando-se a dá-la em troca do resgate de seu irmão, D. Fernando, feito cativo no desastre de Tânger, em 1437), fez também parte a grande escola militar em que ela se transformou. O engenho militar a que a sua conservação em mãos portuguesas obrigou (os que porfiavam para a tomar tinham mais vantagens), haveria de ser transmitido, ao menos inspirado, a gente de guerra que pelos anos fora parte para outras paragens e nelas se fixa.
D. Fernando de Mascarenhas, conde da Torre, um dos mais de sessenta governadores que Ceuta teve até Espanha dela se apoderar, só aceitou o comando de uma frota em 1628 despachada para Pernambuco com o objectivo de a resgatar dos holandeses, depois de lhe ter sido permitido guarnecê-la de “soldados de África”, como eram chamados aqueles de cujas vidas era parte quase permanente a peleja com a “moirama” – a partir de certa altura estendida a novas praças. É para Ceuta que a alta nobreza guerreira do Reino vai em chegada a hora daqueles que dela fazem parte serem armados cavaleiros.
Ceuta foi também terra natal dos primeiros portugueses nascidos fora do seu original rincão pátrio. Uns tendo por progenitores gente para lá atraída ou mandada, outros fruto de miscigenações com mulheres locais. “Ceuta – Primeira Conquista de Portugal Além-Mar”, foi o título que dei a uma das obras da minha modesta vida literária. A precedência contida no título tem implícita uma homenagem que entendi fazer aos “filhos de Ceuta”, expressão usada por José Ribeiro e Castro para identificar aqueles que ao tempo e depois dele haveriam de nascer ali e em distantes paragens pelas quais Portugal viria a andar.
Era maneira de ver dos antigos (a compreensão da História obriga ao respeito pelo espírito dos tempos por que ela vai passando), que a conquista de Ceuta, e depois de outras praças, entre elas Tânger, fora não apenas “serviço de Deus” pela lança assim espetada num “mundo de infiéis”, como serviu para abrandar o corso que a partir de Orão se praticava em águas portuguesas, tornando-as inseguras. A vigia quase permanente do estreito pelo qual os corsários eram obrigados a passar para as suas surtidas na costa atlântica, permitira o “milagre”.
No seguimento da conquista de Ceuta, D.João I, que nela participou, ele e os seus três filhos já entrados na maioridade, acrescentou ao seu título o de Senhor de Ceuta e seu Defensor. Os zelos que sempre revelara por Ceuta haveriam de ser respeitados e seguidos por todos os que se lhe seguiram no trono. E não houve nenhum que ali não tenha estado, o último deles, D. Sebastião, a caminho de Alcácer-Quibir. Os privilégios e honrarias de Ceuta eram os mesmos de Lisboa. Teve Senado, sede de bispado, Santa Casa da Misericórdia e uma santa padroeira, Nossa Senhoa de África, tudo como nas demais notáveis cidades do Reino. E mesmo para além disso, como aconteceu com uma Casa da Moeda, onde se cunhavam os ceitis.
Espanha apoderou-se de Ceuta “à má fila”. De facto em 1640, de jure em 1668. Enquanto durou o domínio filipino de Portugal Castela nunca deixara de ir substituindo por gente sua os portugueses que a guarneciam militarmente e a administravam ou a habitavam. O golpe final viria, porém, a ocorrer já em plena restauração, quando o último governador “português de nação”, D. Francisco de Almeida, foi substituído por um outro, vindo de Castela.
Porventura levado por um reconhecimento do gigantesco esforço que representara para Portugal a conquista e a conservação da praça, Filipe IV mandou que fossem respeitados todos os foros, privilégios e demais concessões da Casa de Aviz a Ceuta. A bandeira, nas suas cores vicentinas, em homenagem a Lisboa; as armas da Casa de Aviz, na verdade o escudo português, em lembrança do rei que a conquistara no dia 21 de Agosto de 1415. Até a apresentação do “Aleo”, uma espécie de bastão oferecido por D. João I ao primeiro governador de Ceuta, D. Pedro de Menezes, foi mantido no cerimonial de investidura dos seus governadores.
Na actual bandeira nacional espanhola o brazão real que nela figura é ladeado por duas colunas – as colunas de Hércules, cada uma delas assente numa figuração do mar. Representam o monte Calpe, em Gibraltar, e o monte do Facho, em Ceuta (o Ábila romano ou da Xemeia, muçulmano), ambos situados frente a frente e dessa maneira erigidos em vigias perpétuos do estreito. Vem daí a importância especial com que Espanha sempre olhou para Ceuta, traduzida no afinco de dela se apoderar mal isso fosse possível.
Ainda a braços com a sua custosa guerra de reconquista de Granada, só alcançada em 1492, Castela não só não estava à altura de tomar Ceuta (se o quisesse fazer), quando Portugal o fez, como lhe serviu que o fizesse por si. A Sebpta muçulmana, situada no reino de Fez, era a retaguarda a partir da qual chegavam a Granada os apoios de que o Reino Nasrida precisava para conter o avanço da gente de guerra dos reis católicos. A sua tomada por um rei cristão, com o qual em 1411 Castela celebrara pazes, haveria de vir a privar Granada de uma retaguarda vital ao seu esforço guerreiro.
Ceuta, Tânger e Olivença foram as três praças portuguesas que Espanha se obstinou a manter na sua posse, estavam as guerras da Restauração a chegar ao fim. Abriu mão de Tânger e de Olivença, mas nunca de Ceuta. O mais certo é que a tenha movido o propósito antigo de a conquistar para finalmente emparelhar o Calpe com o Facho e assim controlar um estreito de rara importância naqueles tempos. O que a bandeira de Ceuta diz é que o fez respeitando a História portuguesa da cidade.
PS – António José Seguro foi no dia 14 de Agosto à Batalha. O pretexto anunciado foi o da comemoração dos 100 anos da cidade, a isso se juntando um encontro com gente do serviço de voluntariado. Nos seus discursos, nem uma referência à Batalha de Aljubarrota, que num mesmíssimo dia de Agosto de há 641 anos ali se travara e ao desfecho da qual Portugal ficaria a dever a preservação da sua independência A História no tratamento que lhe é dado.