Paulo Raimundo intervinha no final de uma audição promovida pelo PCP com trabalhadores do setor do comércio sobre salários, direitos e horários, realizada no Centro de Trabalho Vitória, em Lisboa.
O líder comunista recorreu a uma frase cómica que se tornou um fenómeno de popularidade nas redes sociais nos últimos dias para começar a sua intervenção com uma crítica aos lucros dos grandes grupos empresariais do setor do comércio e do retalho.
"A grande pergunta do momento: o que é que vai no carrinho do Pingo [Doce]? Ora, nós podemos dizer que no carrinho do Pingo [Doce], neste primeiro semestre, já lá vão 260 milhões de euros. Qualquer coisa como 1.000 euros por minuto", apontou, estendendo as críticas à Sonae (dona do Continente), Lidl e Auchan.
Depois da metáfora sobre os "carrinhos" das grandes superfícies de retalho, o líder comunista também satirizou sobre a ideia de que todos "estão no mesmo barco": "É verdade, só que há uns muitos que remam, fartam-se, remam, remam, remam. E há uns poucos que lá estão, a saborear o sol e a ver a paisagem".
Raimundo acusou os responsáveis destas grandes empresas de recorrerem "sempre à mesma choradeira" sobre as alegadas dificuldades que enfrentam para justificar a ausência de aumentos salariais, questionando sobre o que fariam os patrões se tivessem a vida e os salários dos trabalhadores.
"Tivessem eles a falta de tempo, os horários desregulados, as vidas desreguladas e a precariedade das vidas daqueles que trabalham [...]. Mas são esses, esses que não têm nada desta realidade, que choram, choram, choram. Tivessem eles a experiência de vida e perceberiam as razões que de facto tinham para chorar", ironizou.
Paulo Raimundo alertou ainda os trabalhadores da sala de que, depois de "mais horas de trabalho, um brutal aumento de vida" e com "todos a ser esmifrados", os patrões preparam-se para "vir com o discurso de que está aí a crise", porque, acrescentou, ao capital "bastar baixar ligeiramente os lucros" para "tocar as campainhas", pedir a ajuda do Estado e adiar aumentos salariais.
"Este discurso vai aparecer com força e nós temos que dizer: 'não, basta!'. Temos direitos, temos direito a uma vida melhor", exortou.
O líder comunista criticou também o novo presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), Gustavo Paulo Duarte, por ter defendido, em entrevista à Antena 1 e aos Negócios, que o "pior inimigo do salário médio é o decreto do salário mínimo", questionando se existe alguma lei em Portugal que impeça as empresas de pagar acima do salário mínimo.
Raimundo dirigiu ainda críticas à Galp por ter pedido "estabilidade fiscal", a propósito da intenção de criar um imposto extraordinário sobre os lucros das petrolíferas, e considerou que esta proposta do Governo não passa de um "embuste" e uma "cortina de fumo" que não terá impactos reais.
"O decreto está tão bem feito, de maneira a salvaguardar isto [taxar lucros extraordinário]. É uma bela peça de propaganda, vale a pena ler", gracejou, estimando que, mesmo que a petrolífera viesse a pagar imposto, este corresponderia, na melhor das hipóteses, a "um ou dois dias de lucros da Galp".
Nesta intervenção, o secretário-geral do PCP salientou ainda o compromisso dos comunistas com o encerramento do comércio ao domingo e pediu a estes trabalhadores que deem um "murro na mesa" pelos seus direitos.
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