Um executivo das marcas Peugeot e Citroën no Brasil falou abertamente, sob condição de anonimato, sobre a expectativa em torno dos projetos desenvolvidos com a Dongfeng no exterior. Concessionários ouvidos separadamente também veem a parceria como uma das principais possibilidades para dar novo fôlego à Peugeot no mercado brasileiro.
Peugeot em queda

A expectativa ganha peso diante dos números atuais da marca. De janeiro a julho de 2026, foram emplacados 9.983 veículos Peugeot, entre automóveis e comerciais leves, segundo dados da Fenabrave, a federação dos concessionários de veículos. No mesmo período de 2025, haviam sido 13.572.
A redução é de 26,4% em apenas um ano. A participação da Peugeot no mercado brasileiro caiu de 1% para 0,61%, enquanto a marca passou da 17ª para a 19ª posição no ranking geral.
Quando considerados apenas os automóveis, a retração é ainda maior: os emplacamentos caíram de 12.641 unidades nos sete primeiros meses de 2025 para 8.019 no mesmo intervalo deste ano, uma queda de 36,6%.
Continua após a publicidadeO desempenho já levou a Stellantis a buscar alternativas para reduzir a pressão sobre sua rede. Como mostrou a coluna Paula Gama em abril, Peugeot e Citroën ofereceram a alguns concessionários a possibilidade de "hibernar" temporariamente lojas, preservando a bandeira para uma eventual retomada futura, em vez de simplesmente encerrar a operação.
Expectativa é produzir no Brasil

É nesse cenário que os projetos com a Dongfeng passaram a ganhar importância dentro da rede. O cenário considerado mais favorável seria não apenas receber no Brasil modelos concebidos a partir da parceria, mas também nacionalizar sua produção.
Ainda não há definição pública sobre onde isso poderia acontecer. Dentre as possibilidades citadas nas negociações envolvendo a Dongfeng está a fábrica da Stellantis em Porto Real, no Rio de Janeiro, unidade historicamente ligada justamente à produção de Peugeot e Citroën.
De acordo com a "Quatro Rodas", também entrou no radar a antiga fábrica de motores da Stellantis em Campo Largo (PR). Desativada após o fim da produção dos motores E.torQ, a unidade é apontada como uma das alternativas avaliadas pela Dongfeng para uma operação industrial própria no Brasil.
Continua após a publicidadePara a Peugeot, a diferença é relevante. A importação permitiria renovar a linha, mas uma produção nacional daria maior potencial de escala e de um portfólio mais adequado ao país, em um momento em que a marca tenta reconstruir seus volumes.
O que a Stellantis já confirmou
Se a fabricação brasileira ainda pertence ao campo das possibilidades, a aproximação entre Stellantis e Dongfeng é concreta e vem sendo tratada publicamente pela própria direção regional.
Em julho, Herlander Zola, presidente da Stellantis para a América do Sul, admitiu que a estratégia adotada anteriormente para Peugeot e Citroën não entregou os resultados esperados. Segundo ele, as duas marcas passarão por um reposicionamento: a Peugeot deverá ocupar um espaço acima da Fiat, enquanto a Citroën continuará em uma faixa mais acessível.
Na mesma conversa, Zola apontou a Dongfeng como uma das ferramentas para reconstruir a oferta das marcas francesas. O executivo afirmou que a parceria amplia a capacidade da Stellantis de desenvolver novos veículos rapidamente e renovar seu portfólio. Ele também deixou aberta a possibilidade de produtos concebidos nessa cooperação serem utilizados por Peugeot e Citroën na região.
A relação entre as duas companhias, na verdade, é antiga. Stellantis e Dongfeng mantêm há 34 anos na China a joint venture Dongfeng Peugeot Citroën Automobile, a DPCA.
Continua após a publicidadeEm maio, as empresas anunciaram uma nova etapa dessa associação. A partir de 2027, a fábrica da DPCA em Wuhan deverá produzir inicialmente dois novos veículos eletrificados da Peugeot, destinados tanto ao mercado chinês quanto à exportação para outros países.
O acordo prevê ainda dois novos modelos off-road eletrificados da Jeep, igualmente direcionados a mercados globais. O investimento conjunto supera 8 bilhões de yuans, cerca de R$ 6,2 bilhões.
Ou seja, a associação não se resume à hipótese de a Stellantis montar carros da Dongfeng. A chinesa já participa do desenvolvimento de produtos que serão vendidos com marcas tradicionais do grupo.
Nissan também negocia com chineses
Há, porém, outra peça importante nessa negociação: a Dongfeng conversa também com a Nissan sobre produção no Brasil.
A marca chinesa confirmou que as duas tratativas seguem em paralelo. A Dongfeng discute tanto com Stellantis quanto com Nissan uma possível fabricação local inicialmente em sistema SKD, com kits de componentes vindos da China.
Continua após a publicidadeAs duas candidatas oferecem vantagens diferentes. No caso da Nissan, pesa a fábrica de Resende, no Rio de Janeiro, além da estrutura produtiva, cadeia de fornecedores e sistemas de qualidade já existentes. Para a Dongfeng, seriam ativos que poderiam ser aproveitados para acelerar a nacionalização.
A Stellantis, por sua vez, tem maior escala na América do Sul e já mantém uma parceria global profunda com a chinesa. A companhia confirmou que a negociação brasileira em estudo tem caráter industrial e pode envolver compartilhamento de linhas e de modelos desenvolvidos na China.
Dongfeng também virá com marca própria

Outra distinção importante é que a Dongfeng não depende de Peugeot, Stellantis nem Nissan para estrear comercialmente no Brasil.
A fabricante já prepara sua entrada no mercado nacional com marca própria, usando DFM como identidade comercial. A operação começa inicialmente com veículos importados da China, enquanto a empresa estrutura uma futura produção local. Os dois primeiros carros confirmados para o Brasil são o DFM Box e o DFM Vigo, ambos 100% elétricos. A estreia oficial da marca está prevista para o Festival Interlagos, que será realizado de 27 a 30 de agosto na capital paulista.
Continua após a publicidadeIsso significa que três movimentos diferentes acontecem simultaneamente. A Dongfeng está desembarcando no Brasil para vender seus próprios carros; negocia com Stellantis e Nissan uma solução para fabricar veículos localmente; e, ao mesmo tempo, aprofunda internacionalmente sua parceria com a Stellantis para desenvolver produtos que serão vendidos como Peugeot e Jeep.
Na Europa, esse modelo de cooperação já avançou ainda mais. Stellantis e Dongfeng anunciaram em maio a intenção de criar uma joint venture para vendas, distribuição, engenharia, compras e produção. O plano inclui inclusive avaliar a fabricação de veículos da Dongfeng na planta da Stellantis em Rennes, na França.
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