Paula Gama: Peugeot chinês? Parceria com marca asiática anima rede após queda em vendas

Um executivo das marcas Peugeot e Citroën no Brasil falou abertamente, sob condição de anonimato, sobre a expectativa em torno dos projetos desenvolvidos com a Dongfeng no exterior. Concessionários ouvidos separadamente também veem a parceria como uma das principais possibilidades para dar novo fôlego à Peugeot no mercado brasileiro.

Peugeot em queda

Peugeot 2008 recentemente ganhou tecnologia híbrida leve para buscar alta nas vendas
Peugeot 2008 recentemente ganhou tecnologia híbrida leve para buscar alta nas vendas Imagem: Divulgação

A expectativa ganha peso diante dos números atuais da marca. De janeiro a julho de 2026, foram emplacados 9.983 veículos Peugeot, entre automóveis e comerciais leves, segundo dados da Fenabrave, a federação dos concessionários de veículos. No mesmo período de 2025, haviam sido 13.572.

A redução é de 26,4% em apenas um ano. A participação da Peugeot no mercado brasileiro caiu de 1% para 0,61%, enquanto a marca passou da 17ª para a 19ª posição no ranking geral.

Quando considerados apenas os automóveis, a retração é ainda maior: os emplacamentos caíram de 12.641 unidades nos sete primeiros meses de 2025 para 8.019 no mesmo intervalo deste ano, uma queda de 36,6%.

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O desempenho já levou a Stellantis a buscar alternativas para reduzir a pressão sobre sua rede. Como mostrou a coluna Paula Gama em abril, Peugeot e Citroën ofereceram a alguns concessionários a possibilidade de "hibernar" temporariamente lojas, preservando a bandeira para uma eventual retomada futura, em vez de simplesmente encerrar a operação.

Expectativa é produzir no Brasil

Capacidade ociosa da fábrica de Porto Real levou a Stellantis a produzir o Jeep Avenger na planta
Capacidade ociosa da fábrica de Porto Real levou a Stellantis a produzir o Jeep Avenger na planta Imagem: Divulgação

É nesse cenário que os projetos com a Dongfeng passaram a ganhar importância dentro da rede. O cenário considerado mais favorável seria não apenas receber no Brasil modelos concebidos a partir da parceria, mas também nacionalizar sua produção.

Ainda não há definição pública sobre onde isso poderia acontecer. Dentre as possibilidades citadas nas negociações envolvendo a Dongfeng está a fábrica da Stellantis em Porto Real, no Rio de Janeiro, unidade historicamente ligada justamente à produção de Peugeot e Citroën.

De acordo com a "Quatro Rodas", também entrou no radar a antiga fábrica de motores da Stellantis em Campo Largo (PR). Desativada após o fim da produção dos motores E.torQ, a unidade é apontada como uma das alternativas avaliadas pela Dongfeng para uma operação industrial própria no Brasil.

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Para a Peugeot, a diferença é relevante. A importação permitiria renovar a linha, mas uma produção nacional daria maior potencial de escala e de um portfólio mais adequado ao país, em um momento em que a marca tenta reconstruir seus volumes.

O que a Stellantis já confirmou

Se a fabricação brasileira ainda pertence ao campo das possibilidades, a aproximação entre Stellantis e Dongfeng é concreta e vem sendo tratada publicamente pela própria direção regional.

Em julho, Herlander Zola, presidente da Stellantis para a América do Sul, admitiu que a estratégia adotada anteriormente para Peugeot e Citroën não entregou os resultados esperados. Segundo ele, as duas marcas passarão por um reposicionamento: a Peugeot deverá ocupar um espaço acima da Fiat, enquanto a Citroën continuará em uma faixa mais acessível.

Na mesma conversa, Zola apontou a Dongfeng como uma das ferramentas para reconstruir a oferta das marcas francesas. O executivo afirmou que a parceria amplia a capacidade da Stellantis de desenvolver novos veículos rapidamente e renovar seu portfólio. Ele também deixou aberta a possibilidade de produtos concebidos nessa cooperação serem utilizados por Peugeot e Citroën na região.

A relação entre as duas companhias, na verdade, é antiga. Stellantis e Dongfeng mantêm há 34 anos na China a joint venture Dongfeng Peugeot Citroën Automobile, a DPCA.

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Em maio, as empresas anunciaram uma nova etapa dessa associação. A partir de 2027, a fábrica da DPCA em Wuhan deverá produzir inicialmente dois novos veículos eletrificados da Peugeot, destinados tanto ao mercado chinês quanto à exportação para outros países.

O acordo prevê ainda dois novos modelos off-road eletrificados da Jeep, igualmente direcionados a mercados globais. O investimento conjunto supera 8 bilhões de yuans, cerca de R$ 6,2 bilhões.

Ou seja, a associação não se resume à hipótese de a Stellantis montar carros da Dongfeng. A chinesa já participa do desenvolvimento de produtos que serão vendidos com marcas tradicionais do grupo.

Nissan também negocia com chineses

Há, porém, outra peça importante nessa negociação: a Dongfeng conversa também com a Nissan sobre produção no Brasil.

A marca chinesa confirmou que as duas tratativas seguem em paralelo. A Dongfeng discute tanto com Stellantis quanto com Nissan uma possível fabricação local inicialmente em sistema SKD, com kits de componentes vindos da China.

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As duas candidatas oferecem vantagens diferentes. No caso da Nissan, pesa a fábrica de Resende, no Rio de Janeiro, além da estrutura produtiva, cadeia de fornecedores e sistemas de qualidade já existentes. Para a Dongfeng, seriam ativos que poderiam ser aproveitados para acelerar a nacionalização.

A Stellantis, por sua vez, tem maior escala na América do Sul e já mantém uma parceria global profunda com a chinesa. A companhia confirmou que a negociação brasileira em estudo tem caráter industrial e pode envolver compartilhamento de linhas e de modelos desenvolvidos na China.

Dongfeng também virá com marca própria

Dongfeng DFM Box será apresentado no Salão de Interlagos
Dongfeng DFM Box será apresentado no Salão de Interlagos Imagem: Divulgação

Outra distinção importante é que a Dongfeng não depende de Peugeot, Stellantis nem Nissan para estrear comercialmente no Brasil.

A fabricante já prepara sua entrada no mercado nacional com marca própria, usando DFM como identidade comercial. A operação começa inicialmente com veículos importados da China, enquanto a empresa estrutura uma futura produção local. Os dois primeiros carros confirmados para o Brasil são o DFM Box e o DFM Vigo, ambos 100% elétricos. A estreia oficial da marca está prevista para o Festival Interlagos, que será realizado de 27 a 30 de agosto na capital paulista.

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Isso significa que três movimentos diferentes acontecem simultaneamente. A Dongfeng está desembarcando no Brasil para vender seus próprios carros; negocia com Stellantis e Nissan uma solução para fabricar veículos localmente; e, ao mesmo tempo, aprofunda internacionalmente sua parceria com a Stellantis para desenvolver produtos que serão vendidos como Peugeot e Jeep.

Na Europa, esse modelo de cooperação já avançou ainda mais. Stellantis e Dongfeng anunciaram em maio a intenção de criar uma joint venture para vendas, distribuição, engenharia, compras e produção. O plano inclui inclusive avaliar a fabricação de veículos da Dongfeng na planta da Stellantis em Rennes, na França.

Reportagem

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