Na quarta-feira à noite, depois de conhecido o veredicto, centenas de pessoas concentraram-se em frente ao parlamento num protesto convocado pelo Partido Nacionalista, o principal partido da oposição.
"Devemos mostrar compaixão, cautela e contenção nos nossos comentários", disse hoje o primeiro-ministro de Malta, Robert Abela, aos jornalistas, sublinhando que duas investigações separadas sobre o homicídio de 2017 ainda estavam em curso e que os procuradores poderiam recorrer da decisão de quarta-feira.
A decisão proferida na quarta-feira por um júri popular provocou indignação em grupos da sociedade civil e organizações internacionais de liberdade de imprensa, que exigem justiça para Daphne Caruana Galizia, uma incansável crítica da corrupção neste pequeno Estado mediterrânico.
Matthew Caruana Galizia, um dos filhos da jornalista, descreveu a decisão do júri como "obscena" e "puramente má".
O parlamento maltês realiza uma sessão extraordinária na sexta-feira para debater o caso, na sequência de um pedido do líder do Partido Nacionalista, Alex Borg.
O magnata Yorgen Fenech saiu do tribunal em liberdade após o veredicto, sob gritos de "assassino" por parte de alguns manifestantes.
Cinco pessoas já foram condenadas pelo fornecimento dos explosivos e por terem levado a cabo o ataque com um carro-bomba a Daphne Caruana Galizia.
A Fundação Daphne Caruana Galizia lamentou a absolvição de Fenech "nove anos" após o assassínio da jornalista, "negando-lhe a justiça que merece".
"As falhas institucionais que permitiram o seu assassínio permanecem por resolver e sem reformar", afirmou num comunicado.
Por seu lado, a organização não-governamental (ONG) Repubblika descreveu o veredicto como "dececionante" e expressou apoio à família, que teve de suportar durante nove anos "a revelação dos detalhes mais íntimos" da morte da jornalista, "anos de processos criminais, ataques contínuos e difamação", bem como um "fardo intolerável" de "lutar pelas verdades que o próprio Estado foi obrigado a descobrir".
"O veredicto, no entanto, não obriga Malta a fingir que as provas ouvidas durante este julgamento nunca foram ouvidas. Não apaga as conclusões do inquérito público e não responde às profundas questões que permanecem sobre corrupção, impunidade, interferência política e falhas do Estado", afirmou num comunicado.
Por sua vez, a ONG Occupy Justice sublinhou que até haver responsabilização na "cadeia completa" das pessoas que ordenaram o assassínio da jornalista "e até que as falhas institucionais expostas" após a sua morte sejam resolvidas, "a luta pela justiça" não termina.
"O trabalho não termina aqui. Malta ainda precisa de verdade, responsabilização e proteção para que jornalistas e instituições ajam antes que a corrupção e a impunidade se tornem irreversíveis", afirmou num comunicado.
O Comité para a Proteção dos Jornalistas afirmou hoje, numa declaração, que continuará a "trabalhar para responsabilizar todos os envolvidos no assassínio" da jornalista.
O Centro Europeu para a Liberdade de Imprensa e dos Media afirmou que o veredicto enviou uma "mensagem preocupante", enquanto a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) afirmou que era "para além da indignação".
"A justiça deve ser plenamente feita e as autoridades maltesas devem implementar as medidas que esperam há demasiado tempo para fazer justiça a Daphne e à sua família e proteger os jornalistas", afirmou a RSF num comunicado.
A presidente do Parlamento Europeu, a maltesa Roberta Metsola (Partido Nacionalista), publicou uma mensagem no Facebook dirigida a "Querida Daphne", na qual prometeu: "Não vamos desistir e não vamos ceder".
Apelidada de "WikiLeaks por conta própria", Daphne Caruana Galizia expôs a corrupção ao mais alto nível do país, lançando um foco sobre as ligações opacas entre as elites económicas e políticas de Malta.
O homicídio expôs as aparentes falhas no Estado de Direito do país mais pequeno da União Europeia.
O assassínio também levou a uma crise política e à demissão do então primeiro-ministro Joseph Muscat em janeiro de 2020, após protestos em massa contra o que foi percebido como os seus esforços para proteger amigos e aliados.
Uma investigação pública concluiu em 2021 que o Estado deveria "assumir a responsabilidade" pelo homicídio, devido ao "clima de impunidade" que o governo estabeleceu.
Em outubro de 2022, três homens foram considerados culpados de colocar e detonar a bomba que matou a jornalista perto da sua casa. Depois, em junho de 2025, outros dois foram condenados a prisão perpétua por fornecerem o explosivo usado no ataque.
"Já passou da hora de que todos aqueles que permitiram, facilitaram ou protegeram estes assassinos sejam responsabilizados", disse a família de Daphne Caruana Galizia num comunicado na quarta-feira.
Na quarta-feira, o Governo de Malta declarou ter "tomado nota" da decisão judicial.
"Em relação a este mesmo caso, várias pessoas já foram investigadas, processadas e condenadas a longas penas de prisão. O Governo mantém-se comprometido em garantir que as instituições façam justiça". Neste momento delicado, o Governo apela à cautela relativamente a comentários públicos que possam causar mais mal do que bem", afirmou num comunicado.
Reafirmou ainda o "compromisso de continuar as reformas para fortalecer ainda mais o Estado de Direito".
"Todas as instituições continuarão a ter o total apoio do governo no exercício do seu trabalho", acrescentou o executivo de Robert Abela.
Um tribunal absolveu o magnata depois de o júri, na quarta-feira, ter emitido um veredicto de inocente, por oito votos contra um, em ambas as acusações de auxílio e cumplicidade e conspiração, após oito horas de deliberação.
Segundo as investigações, o empresário terá pago aos assassinos cerca de 150.000 euros para matar a jornalista, que meses antes da sua morte revelou a existência de uma empresa opaca registada nos Emirados Árabes Unidos chamada 17 Black, propriedade de Fenech e usada para transferir alegadas comissões irregulares para altos funcionários do governo maltês.
Fenech chegou a apresentar várias queixas relativas às condições em que ocorreu a sua detenção, à ilegalidade da sua detenção, à alegada falha do Estado maltês em proteger a sua saúde e aos processos judiciais, que considerava violarem o seu direito a um julgamento justo dentro de um prazo razoável.
Caruana Galizia, uma das jornalistas mais conhecidas do país, foi morta por uma bomba num carro a 16 de outubro de 2017, aos 53 anos, na sua casa em Bidnija.
Na altura do homicídio, investigava um caso ligado aos "Panama Papers" e relacionado com alegados subornos canalizados da 17 Black para empresas de fachada pertencentes ao chefe de gabinete do antigo primeiro-ministro Joseph Muscat, Keith Schembi, e ao ministro do Turismo Konrad Mizzi.
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