Por que cada vez mais brasileiras escolhem jogar no México

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Três jogadoras de futebol em close-up: uma loira de camisa amarela gritando, uma morena de tranças e camisa laranja caminhando, e uma mulher de cabelo preso e camisa branca e azul olhando para o lado
Isa Haas (América), Mariza (Tigres) e Aline Gomes (Pachuca) são algumas das brasileiras no México.  (Instagram/Reprodução)

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Durante anos, o caminho para as brasileiras que buscavam testar o próprio futebol no mais alto nível fora do país apontou, quase naturalmente, para duas direções: Estados Unidos e Europa. Esses mercados continuam como os principais destinos, mas uma nova rota começa a ganhar espaço no mapa. As experiências recentes no México, impulsionadas por investimento, estrutura, competitividade e arquibancadas cada vez mais presentes, mostram-se promissoras e ajudam a explicar por que a Liga MX Feminil passou a atrair jogadoras brasileiras, inclusive atletas recém-convocadas para a Seleção Brasileira, como Isa Haas, Mariza, Aline Gomes e Geyse Ferreira.

A abertura do mercado também passa pelo regulamento: atualmente cada um dos 18 clubes da Liga MX Feminil pode registrar até sete estrangeiras, duas vagas a mais do que o limite anterior de cinco. A ampliação aumentou o espaço para contratações internacionais e, na última temporada, a competição reuniu jogadoras de 31 países diferentes, segundo divulgado pela própria liga.

Brasileiras na Liga Mexicana

Em 2026, oito jogadoras do país estão distribuídas por quatro dos 18 clubes da Liga MX Feminil, entre elas atletas que deixaram equipes importantes do futebol brasileiro, como o atual campeão brasileiro, o Corinthians, e o vice-campeão, Cruzeiro.

O América concentra o maior contingente, com Isa Haas, Geyse Ferreira e Priscila. O Tigres tem Mariza e Jheniffer, enquanto Aline Gomes e Eudimilla defendem o Pachuca. Daiane Santos completa a lista no Monterrey. Segundo levantamento da VEJA, baseado em dados do site O Gol, são oito brasileiras em quatro equipes, número que ajuda a dimensionar um mercado que ganhou espaço como destino para jogadoras do país.

Há atletas com passagem recente ou presença constante na Seleção, jovens em processo de consolidação internacional e jogadoras que já estavam entre os principais nomes de suas posições no Brasil antes da transferência. Estrutura, condições financeiras, exposição, força das torcidas e competitividade aparecem nas respostas das atletas entrevistadas pela reportagem: Isa Haas, Aline Gomes e Mariza. Nos bastidores, entram ainda questões tributárias, características técnicas e modelos de jogo que ajudam a colocar o México na disputa por brasileiras em um mercado internacional cada vez mais competitivo.

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Estrutura coloca os grandes mexicanos na disputa por brasileiras

Quando recebeu a proposta do América, Isa Haas encontrou justamente na estrutura e no projeto esportivo alguns dos argumentos para deixar o Brasil. “Quando surgiu a proposta do América, eu enxerguei como uma oportunidade muito importante na minha carreira. É um clube de muita grandeza, com uma estrutura excelente e um projeto muito ambicioso no futebol feminino. Além disso, eu já vinha buscando novos desafios e experiências fora do Brasil, então pesou muito a possibilidade de conhecer uma nova liga, uma nova cultura e continuar evoluindo como atleta. Foi uma decisão pensada, mas que desde o início me motivou bastante”, contou a zagueira, que teve rápida adaptação e, em menos de um ano desde sua chegada, já foi campeã nacional, da Copa das Campeãs e da Concacaf Champions Cup.

Jogadora de futebol feminina sorrindo e segurando um troféu dourado e prateado, usando camisa amarela com listras vermelhas e azuis, e uma medalha de ouro no pescoço. Ela tem tatuagens no braço esquerdo e o cabelo preso.
Isa Haas foi campeã das campeãs no México. (Internet/Reprodução)

Mariza cita razões semelhantes para explicar a escolha pelo Tigres. Além da possibilidade de atuar fora do país, a defensora destaca o tamanho que o futebol feminino ocupa dentro do clube.

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“Eu vi como uma oportunidade muito boa para a minha carreira. A estrutura do Tigres, a força que o clube tem no futebol feminino e a possibilidade de viver uma experiência fora do Brasil pesaram bastante. Também queria muito conhecer uma nova cultura e ter esse desafio na carreira”, relembra a atleta.

No caso de Aline Gomes, o interesse demonstrado pelo Pachuca em suas características também teve peso na decisão. “O principal foi a forma como mostraram o interesse no meu trabalho e no meu estilo de jogo, mas sem deixar de destacar a estrutura, os profissionais e os objetivos que o clube tem”, disse a atacante, que estava no futebol dos Estados Unidos.

A percepção das jogadoras coincide com o que Éder Gaúcho, agente da Transfer Soccer Group, encontrou nas negociações realizadas no país. Ex-jogador, ele encerrou a carreira em 2012 depois de atuar por anos fora do Brasil, com passagens pela Europa e pelo mundo árabe, e posteriormente começou a trabalhar com transferências internacionais.

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A Transfer Soccer passou a investir no futebol feminino em 2019, depois que um dos integrantes da empresa observou o desenvolvimento da modalidade. A primeira transferência internacional realizada pela agência no feminino foi a de Luana Spindler para o Tenerife, da Espanha. Atualmente, a empresa trabalha exclusivamente com futebol feminino e administra a carreira de 84 atletas.

Foi por meio desse trabalho que a agência passou a acompanhar de perto também o crescimento do mercado mexicano. Para Éder, entender o movimento exige olhar além dos valores oferecidos nos contratos. No América, por exemplo, ele relata que o feminino utiliza a mesma área do masculino, embora tenha espaços próprios para a equipe, como academia, refeitório, campo e escritórios. Em outros clubes, a integração aparece também na comunicação e na identidade visual. Segundo o empresário, no Tigres, imagens de jogadores e jogadoras dividem espaços no estádio e as apresentações institucionais aproximam as duas equipes. “Eles não diferenciam masculino e feminino. É a camisa do clube”, resumiu Éder.

Há ainda aspectos do cotidiano de uma atleta profissional que entram na equação. Éder cita viagens em voos fretados e a utilização dos principais estádios pelos times femininos como exemplos da estrutura oferecida no México. Na avaliação dele, esses elementos se tornam especialmente importantes quando uma negociação envolve atletas já estabelecidas no mercado ou com passagem pela Seleção Brasileira.

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Um homem e uma mulher sorrindo, abraçados, em um campo de futebol com arquibancadas amarelas e azuis ao fundo. Ele veste jaqueta preta e camisa branca, óculos pendurados. Ela usa camisa de futebol amarela e azul com patrocínios, e tem tatuagens no braço esquerdo
Éder Gaúcho e Jheniffer, atacante brasileira do Tigres. (Acervo pessoal/Divulgação)

Do México, a percepção é de que Priscila ajudou a abrir uma nova rota

A movimentação também é percebida por quem acompanha a Liga MX Feminil de dentro do país. Para Raúl Gomes, jornalista mexicano que cobre futebol feminino, a chegada de Priscila ao América teve papel importante na consolidação do México como alternativa para brasileiras que buscavam uma primeira experiência internacional.

Na avaliação do jornalista, o sucesso da atacante ajudou a criar uma primeira impressão positiva sobre esse mercado e abriu espaço para que outros clubes olhassem com maior atenção para o Brasil. A sequência de transferências deixou de representar casos isolados e começou a estabelecer uma rota entre os dois países.

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“Nos últimos anos, a liga mexicana se tornou um destino preferido para as jogadoras brasileiras. Desde a chegada de Priscila ao América, tornou-se uma boa vitrine para as atletas, especialmente as jovens que buscam dar um salto para o exterior”, avaliou Raúl.

A leitura ajuda a explicar por que a procura não ocorre apenas por atletas já consolidadas, uma vez que o campeonato mexicano também passou a aparecer como possibilidade para jogadoras mais jovens que enxergam a Liga MX como uma etapa de internacionalização da carreira.

Três pessoas sorridentes, uma mulher no centro segurando uma camisa de futebol amarela com PRISCILA e o número 9, ladeada por dois homens, um de suéter escuro e outro de blazer preto e camiseta branca, em um ambiente externo com árvores e um campo de futebol ao fundo
A atacante Priscila foi negociada pelo Internacional com o Club América do México por R$ 2,8 milhões em setembro de 2024. (Divulgação/Divulgação)

Do outro lado, há características específicas que tornam as brasileiras interessantes aos clubes. Raúl aponta o futebol técnico e dinâmico como um dos principais atrativos, mas acrescenta dois elementos que extrapolam o campo: a proximidade com a cultura brasileira e a relação entre investimento e retorno encontrada nas negociações.

“Creio que, principalmente, é um futebol atrativo no aspecto técnico e dinâmico. Do ponto de vista das equipes, também tem muito a ver com o quanto a cultura brasileira está enraizada e, no aspecto econômico, a relação custo-benefício na maior parte das vezes beneficia os clubes”, explicou.

A sequência de boas experiências, segundo ele, passou a alimentar o próprio mercado. Priscila abriu uma porta, outras brasileiras chegaram e o desempenho dessas atletas ampliou a confiança em novas contratações. É uma percepção semelhante à de Éder Gaúcho, que afirma que o sucesso de uma brasileira pode facilitar a negociação da próxima, como foi o caso de Aline Gomes e Eudimilla.

Para Raúl, há ainda um componente histórico na identificação do público mexicano com o futebol brasileiro. Ele lembra que, durante o crescimento recente da modalidade no país e os primeiros confrontos internacionais dos clubes mexicanos, o contato com Marta também aproximou os torcedores desse universo.

“É uma combinação. O enraizamento da cultura tem um peso importante, somado à primeira boa impressão gerada por Priscila e à projeção posterior das jogadoras que vieram depois. Além disso, no auge do futebol feminino no México e nos primeiros encontros internacionais, a interação com uma lenda como Marta permitiu aproximar ainda mais a torcida”, afirmou.

Na avaliação do jornalista, a própria Liga MX Feminil mudou consideravelmente desde suas primeiras temporadas. O aumento dos investimentos, a chegada de estrangeiras com maior projeção e os confrontos contra equipes de outros países são apontados como sinais de um campeonato que passou a se enxergar também no cenário internacional.

“Sem dúvida cresceu muito em comparação aos primeiros anos, desde o investimento dos clubes até a seriedade que pouco a pouco estão dando à modalidade. Uma das principais demonstrações disso é justamente a chegada de estrangeiras de renome, além das atuações das equipes mexicanas nos últimos duelos contra times internacionais”, disse, à VEJA.

Público cresce e reforça identificação

Se a estrutura aparece como força para a assinatura do contrato, a relação com os torcedores se torna um fator relevante depois da chegada. E os relatos das brasileiras encontram respaldo nos números recentes da própria Liga MX Feminil.

Após sete rodadas do Apertura 2026, o campeonato registrou seu melhor início de temporada em público dos últimos sete anos. Segundo balanço divulgado pela Liga Feminina BBVA em 17 de setembro, houve crescimento de 26% na comparação com o Apertura de 2025 e de 31% em relação ao Clausura de 2026.

Para exemplificar, o Atlas registrou aumento de 222% no público, o Puebla de 183% e o Chivas de 100%. América e Pumas, por sua vez, alcançaram suas maiores médias de público na história da competição considerando as sete primeiras rodadas.

O América, onde atuam Isa Haas, Geyse e Priscila, aparece como um dos exemplos mais significativos. O clube registrou média de 10.655 torcedores por partida no período, crescimento de 138%. O Pumas chegou a 6.630 pessoas por jogo, alta de 222%. Os dois apresentaram as maiores médias neste início de torneio, segundo os dados divulgados pela própria liga.

É nesse ambiente que as brasileiras relatam ter encontrado uma relação com as arquibancadas que ultrapassa os dias de jogo. No Pachuca, Aline Gomes ganhou até um apelido: a atacante é chamada de “Caipirinha” pelos torcedores e conta que passou a receber presentes e mensagens desde que desembarcou no país.

“Sinto muito esse carinho. Já recebi vários presentes nesses sete meses que estou aqui, muitas mensagens agradecendo por ter vindo para o time, dizendo que sou uma grande jogadora. Me dizem até para não ir embora daqui (risos). Também me apelidaram de ‘Caipirinha’ e sempre ficam me gritando assim nos jogos em casa”, contou.

Isa Haas percebeu movimento semelhante no América, justamente um dos clubes que puxam o crescimento das arquibancadas neste início de Apertura.

“Existe um carinho muito grande pelas brasileiras e isso é muito especial para nós, porque faz você se sentir acolhida mesmo estando longe de casa. No dia a dia, nas redes sociais, nos jogos e principalmente quando encontramos os torcedores, conseguimos perceber esse carinho. É algo que ajuda muito na adaptação e torna essa experiência ainda mais especial”, explicou Haas.

Para Mariza, a dimensão do acompanhamento foi uma das surpresas desde a chegada ao Tigres. A defensora destaca não apenas a presença nos estádios, mas a atenção dedicada à competição.

“Acho que a competitividade e o envolvimento dos torcedores foram coisas que me surpreenderam. A liga tem equipes muito fortes e os jogos são bastante disputados. Também gostei muito de ver o quanto o futebol feminino é acompanhado aqui”, diz a defensora, que foi destaque do Corinthians no título brasileiro de 2025.

O crescimento nas arquibancadas, entretanto, ainda não encontra a mesma proporção na cobertura jornalística, na avaliação de Raúl Gomes. Para ele, o interesse aumentou, mas os principais veículos mexicanos ainda dedicam ao campeonato um espaço inferior ao tamanho que a competição adquiriu.

“Embora exista maior interesse e divulgação, ainda é pouco diante do crescimento da liga. Os veículos de maior relevância, tanto na televisão quanto na imprensa escrita e digital, poucas vezes dão a importância que uma liga de primeira divisão deveria ter. A maior cobertura vem dos meios independentes ou completamente especializados, mas ainda é insuficiente”, avaliou.

Competitividade e desafios dentro de campo

As três brasileiras ouvidas apontam a competitividade como uma das características que mais chamaram atenção. Para Isa Haas, o componente físico está entre as diferenças mais perceptíveis em relação ao futebol brasileiro.

“Acho que uma das principais diferenças está na intensidade e na força física. O futebol mexicano é muito competitivo e exige bastante fisicamente, então você precisa estar preparada para duelos, transições e jogos de muita intensidade”, comparou Haas.

A zagueira encontrou, ao mesmo tempo, um América que busca construir com a bola, característica que considera compatível com seu jogo. A adaptação, porém, não foi linear. Uma lesão dificultou a sequência inicial antes de a brasileira recuperar espaço, ganhar minutagem e compreender melhor a dinâmica da equipe.

Mariza também identifica intensidade e competitividade, mas evita tratar os dois países como realidades completamente opostas.

“Acho que é um futebol muito competitivo e intenso. Aqui também encontrei uma estrutura muito boa e um nível alto entre as equipes. São algumas diferenças na forma de jogar, mas também tem muita coisa parecida com o Brasil”, avaliou a zagueira.

Para Aline Gomes, o principal aprendizado está justamente na variedade de adversários encontrada durante a competição.

“Para mim, creio que seja o estilo de jogo. Durante o campeonato, enfrentamos vários times com dinâmicas de jogo diferentes, e isso nos força a entender mais o jogo e a ter estratégias para vencer”, analisou. No Pachuca, ela entende que acrescentou ao time características associadas ao seu jogo no Brasil, especialmente velocidade, drible e capacidade no confronto individual.

“Acredito que vim para somar na questão da velocidade, com um jogo mais direto, dribles e 1×1. Também me dizem muito sobre o ‘joga bonito’ do Brasil”, disse.

Jogadora de futebol feminina com cabelo preso em coque, sorrindo e gesticulando com a mão esquerda, vestindo camisa listrada azul e branca com número 26 e shorts azuis, chuteiras vermelhas e pretas, em campo de grama verde com arquibancada e painéis de publicidade ao fundo
Muito bem adaptada, Aline Gomes é um dos destaques desta edição da Liga Mexicana e conquistou o torcedor do Pachuca. (Pachuca/Divulgação)

Por que os mexicanos querem brasileiras?

O movimento tem uma segunda direção. Se o México passou a ser interessante para as jogadoras, os clubes também intensificaram a procura por brasileiras.

Éder Gaúcho identifica uma lógica na utilização das vagas destinadas a estrangeiras: em vez de ocupá-las prioritariamente com jogadoras de posições menos centrais, os clubes tendem a procurar atletas capazes de formar a espinha dorsal da equipe, principalmente zagueiras, meio-campistas e atacantes.

É justamente onde se encaixa boa parte das brasileiras atualmente na Liga MX. Isa Haas, Mariza e Daiane Santos são defensoras. Geyse, Priscila, Jheniffer, Aline Gomes e Eudimilla oferecem diferentes características no setor ofensivo. Mas não existe um único perfil de “jogadora brasileira” procurado pelos mexicanos.

Nas atacantes, Éder identifica demanda por velocidade, habilidade e capacidade de decisão. Aline representa um perfil de jogadora rápida e forte no confronto individual, enquanto Jheniffer é citada pelo agente pela capacidade de posicionamento e definição diante do gol.

A comparação entre Isa e Mariza mostra como a procura também depende do modelo de cada equipe. Éder define Isa como uma defensora agressiva nos duelos e forte no um contra um, enquanto vê Mariza como uma zagueira de maior participação técnica na construção, capaz de atuar com os dois pés e contribuir na saída de bola.

Segundo ele, o América procurava justamente uma defensora com características mais agressivas para complementar o perfil de sua defesa. O Tigres, por outro lado, precisava de uma jogadora com capacidade técnica para iniciar a construção. “Depende muito de cada esquema tático, de cada time e de cada estilo de jogo”, explicou.

Dinheiro, impostos e valorização entram na conta

A estrutura e a competitividade ajudam a explicar a escolha pelo México, mas o aspecto financeiro também pesa. Os clubes já protagonizam algumas das maiores negociações envolvendo brasileiras: o América pagou cerca de R$ 3,3 milhões ao Cruzeiro por Isa Haas, superando os R$ 2,8 milhões investidos pelo próprio clube na contratação de Priscila junto ao Internacional. O Pachuca, por sua vez, contratou recentemente Eudimilla, do Santos, e esta foi a maior venda da história das Sereias da Vila, embora sem valores oficializados pelo clube – segundo o repórter Lucas Faraldo, da N Sports, a transferência foi na casa de dois milhões de reais.

Nem todas as brasileiras, porém, chegaram mediante pagamento de taxa de transferência. Mariza assinou com o Tigres após o fim do contrato com o Corinthians. O cenário mostra diferentes portas de entrada, mas também a disposição dos principais times em investir cifras milionárias quando enxergam valor esportivo nas brasileiras e estas estão sob contrato.

Para Éder Gaúcho, da Transfer Soccer Group, a análise das propostas não pode considerar apenas o salário bruto. A agência leva em conta tributação, custo de vida e quanto efetivamente ficará com a atleta, aspecto que ganha importância quando o México concorre com os Estados Unidos. “Tem estados nos Estados Unidos que você paga dois impostos, imposto federal e imposto estadual”, explica o empresário.

No México, os contratos podem ser negociados em dólar ou em peso mexicano, dependendo de cada operação. A combinação entre poder de investimento, tributação, estrutura e possibilidade de valorização ajuda, assim, a explicar por que a Liga MX passou a disputar brasileiras com outros mercados importantes do futebol feminino.

Seleção Brasileira

A valorização das brasileiras no México também acompanha um momento de maior exposição internacional da Seleção. Na leitura de Éder Gaúcho, a campanha que terminou com a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024, teve impacto sobre a maneira como o mercado internacional passou a observar as brasileiras. Para ele, a equipe comandada por Arthur Elias mostrou que poderia combinar a técnica historicamente associada às jogadoras do país com intensidade e dinâmica de jogo.

A relação entre a Liga MX e a Seleção aparece também nas convocações. Para os amistosos contra os Estados Unidos na Data Fifa de junho, três jogadoras que atuam no futebol mexicano foram chamadas por Arthur Elias: Isa Haas, do América, Mariza, do Tigres, e Aline Gomes, do Pachuca.

Quando se considera todo o período de trabalho da Seleção naquele mês, incluindo os treinamentos realizados depois dos amistosos, a presença de atletas do futebol mexicano foi ainda maior. Em outros momentos, Priscila, do América, Jheniffer, do Tigres, e Geyse, também do América, foram chamadas. Na prática, quando uma brasileira chega e corresponde às expectativas, aumenta a confiança dos clubes e o desejo (e carinho) pelo talento brasileiro.

O desafio de transformar o boom em algo duradouro

O avanço da Liga MX Feminil também traz uma ressalva. O futebol feminino já viu outros mercados viverem ciclos de forte investimento sem que o mesmo ritmo fosse mantido no longo prazo. China e Coreia do Sul, por exemplo, tiveram períodos de maior capacidade financeira e atraíram jogadoras estrangeiras, caso de Gabi Zanotti (Corinthians), Bia Zaneratto (Palmeiras) e Thaisinha (Santos), mas perderam protagonismo no mercado internacional. A questão, portanto, é saber se o México conseguirá transformar o momento atual em crescimento sustentável.

Estruturas próprias, maior presença nos estádios, contratação e posterior valorização de jogadoras e intercâmbio crescente com o futebol dos Estados Unidos aparecem como sinais de uma liga que tenta criar mecanismos para sustentar sua expansão. Ainda assim, o exemplo de outros mercados mostra que o tamanho do investimento atual, sozinho, não garante que o México permanecerá como um dos principais destinos internacionais nos próximos anos.

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