Em 2025, João Doria anunciou um novo núcleo do Lide, grupo que fundou para defender interesses empresariais. O presidente do Lide Wellness e Qualidade de Vida seria Sri Prem Baba, 60, disse o ex-governador de São Paulo.
"Diria que é uma nova fase do meu propósito. Entendi que seria bom se eu direcionasse esse conhecimento para empresários, CEOs", diz o guru espiritual que, após arrebanhar uma legião de admiradores, de Juliana Paes a Reynaldo Gianecchini, teve sua imagem pública abalada em 2018.
Naquele ano, Prem Baba foi acusado de abusar de duas discípulas. Ele sempre negou as denúncias, que não chegaram a prosperar como ação judicial, e em 2023 escreveu para este jornal um artigo contra o que chamou de cultura do cancelamento: "No tribunal das redes, viram todos espadachins da reputação alheia: as pessoas acusam, julgam, condenam e cancelam outras em tempo real".
Ele fala agora em carma. Em "Destino - O Poder do Karma", seu novo livro, diz que nada na vida ocorre por acaso. Tudo resulta de algo feito no passado. Ou seja, se foi cancelado, alguma coisa fez para merecê-lo.
Não usa merecimento no sentido punitivo, e sim corretivo. "Ensino que o carma não é castigo. É uma ferramenta refinada da existência para fazer com que você olhe para o que precisa ser olhado. Veio para me fazer voltar para os trilhos, porque eu tava meio que saindo deles", diz num café com tema londrino onde deu esta entrevista, próximo à sua casa, na Vila Mariana (zona sul paulistana).
Ele diz achar bom que esta conversa aconteça com a Folha. Foi o mesmo jornal que, oito anos atrás, relatou um encontro tenso dele com discípulos, no qual ex-maridos o acusaram de abusar de duas ex-seguidoras. Ele diz que sim, relacionou-se sexualmente com ambas, mas tudo sempre foi consensual.
No encontro, "perdeu o chão", diz. "O dia começou com uma suposta acusação de abuso de poder e terminou comigo sendo tachado de criminoso, monstro nas redes sociais." Uma "tempestade cármica" provocada por um "furacão de haters" que o fez pivô de denúncias que classifica como mentirosas. "Aí ficou no imaginário das pessoas, né, que o Prem Baba era um abusador."
Antes de falar como chegou até aqui, é de Janderson Fernandes de Oliveira que ele quer tratar. Veio ao mundo assim, filho de pai ausente e mãe vendedora, criado pelos avós na periferia de Guarulhos (SP).
A avó era uma evangélica que o levava também à Igreja Católica. Tinha reputação de benzedeira. "Orava, e as pessoas saíam melhores." Algo que sempre o impactou.
Começou a praticar ioga aos 14 anos. Tudo culpa do Bruce Lee. Janderson praticava artes marciais e o idolatrava. "Mas eu tinha dificuldade com abertura pélvica, meu corpo era um pouquinho rígido. Ouvi falar de um tal de ioga, em que as pessoas conseguiam dominar o corpo."
A primeira aula, com a professora Teresinha de Jesus, foi em Guarulhos. Ali, ele diz ter vivido sua primeira experiência mística: escutou uma voz interior dizendo que deveria ir a Rishikesh quando completasse 33 anos.
Não fazia ideia de que se tratava de uma cidade indiana. Sabia, pelas aulas de história, que Pedro Álvares Cabral "descobriu o Brasil se desviando do caminho da Índia". E só.
Conta que seu primeiro emprego, conquistado na mesma época, foi como office boy num matadouro frigorífico —logo ele, que tinha acabado de aderir ao vegetarianismo. Depois estudou psicologia, atendeu pacientes, adquiriu experiência em comprar e vender terrenos e imóveis, o que faz até hoje. E virou professor de ioga.
Tinha 32 anos quando afundou "numa crise existencial". Achava-se hipócrita por agir como um "papagaio" que repetia o que lia nos livros sem ter uma experiência real do que ensinava. "Fiz uma oração sincera para o universo e ouvi a mesma mensagem: ‘Venha para Rishikesh’."
A cidade aos pés do Himalaia é conhecida como a capital do ioga e da meditação. Ali Janderson se aprimorou nas duas práticas. Ganhou de seu mestre a alcunha de Sri Prem Baba, algo como "senhor do amor incondicional e pai espiritual".
Ele mantém pontos de trabalho na cidade até hoje, e também em Alto Paraíso de Goiás (GO), Nazaré Paulista (SP), na Indonésia e na Califórnia (nos EUA). Há ainda a digital Sri Prem Baba Academy, com oferta de "jornadas espirituais" e versões em português, inglês e espanhol. A foto principal mostra Prem Baba em posição de lótus sobre uma pedra, barba branca farta e roupa de linho branco.
Janderson ainda existe e até usa jeans. É quem lida com a vida prática, como negócios imobiliários e contratos, "até para não ficar dependendo do meu trabalho espiritual, que é um pouco incerto".
Prem Baba diz que iniciou em 2008 o que descreve como um caso de amor que, na época, foi mantido em segredo. Segundo ele, os dois eram amigos, e ela já havia sido sua professora de inglês. Depois virou discípula. Era casada.
O episódio se voltou contra ele em 2018. O agora ex-marido dela, também seguidor do guru, o acusou de usar de seu poder como líder espiritual para manter relações com a mulher —disse que Prem Baba começou oferecendo-lhe exercícios tântricos.
Havia amizade, e não relação assimétrica de poder, afirma o iogue. Diz hoje que não teve empatia no término, o que em sua leitura gerou mágoas no outro lado. Defende que houve erros, mas não crime.
Para ele, meios de comunicação distorceram uma entrevista antiga em que declarava estar celibatário. Quando emergiram relatos de relacionamentos extraconjugais, acabou sendo rotulado como hipócrita no "tribunal da internet", diz.
Prem Baba diz que sempre tratou a sexualidade como um instrumento espiritual sagrado e que nunca pregou a abstinência sexual como regra —ele tem uma filha de 23 anos e uma namorada.
Vê a sexualidade caindo na armadilha da polarização: "Existe ou a repressão ou a permissividade. Quando às vezes não sabemos lidar com essa energia que foi reprimida, ela acaba se manifestando na forma da promiscuidade, pornografia. Os dois extremos são distorções. A sexualidade em si é eminentemente sagrada, né? Está a serviço do amor, desde que seja com consciência."
A debandada que se seguiu ao que define como seu cancelamento foi grande. Alguns seguidores ficaram ao seu lado. Cita Bruna Lombardi, sua amiga, e Will Smith, que chegou a escrever a orelha de um livro seu.
No trabalho atual, Prem Baba elabora o conceito de "lavanderia cármica", que associa a essa temporada de "silêncio" dos anos recentes. O processo exige "o sabão da autorresponsabilidade e o amaciante da humildade" para lavar as "manchas cármicas", segundo ele.