Há uma forma de evitar que as constantes flutuações de preços impactem tanto o orçamento familiar: recupere o hábito português da compra mensal. E não é de todo má ideia comprar já o bacalhau para o Natal
O efeito já é notório na carne, no peixe ou nos ovos. E, se nada for feito em relação ao preço dos combustíveis, é praticamente certo que o carrinho do supermercado fique mais caro na generalidade dos produtos dentro de um mês.
O prazo é definido pelos retalhistas – ou seja, os donos dos super e hipermercados – tendo em conta a necessidade de negociar novos contratos de transporte e o esforço que alegam ter feito em relação às próprias margens.
“Infelizmente, somos sempre nós quem dá a má notícia aos consumidores. Enquanto retalhistas, que apresentam os produtos nas prateleiras, não podemos esconder que estamos a sofrer com esta pressão”, lamenta Gonçalo Lobo Xavier, diretor-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED).
O que fizeram os retalhistas: mudar rotas, contratos a longo prazo
“Com cautela e sem alarmismos”. É assim que Gonçalo Lobo Xavier traça o que aí vem, com impacto nos orçamentos de tantas famílias portugueses. Os retalhistas procuraram “conter margens e ser eficientes”, mas, lamenta, e confessa que se “aproximam agora do limite”.
Há exemplos concretos daquilo que hiper e supermercados fizeram para travar a subida dos preços junto aos consumidores: otimizaram a gestão da frota, replanearam rotas, procuraram contratos mais duradouros com fornecedores para terem preços mais competitivos.
Ainda assim, e porque todos os produtos têm de chegar às lojas, se produtores, fornecedores e transportadores continuarem a refletir a subida dos combustíveis, acabará por ser o consumidor a pagar o preço final, avisa o setor.
As notícias só não são piores porque houve uma “campanha boa” no que respeita a frutas, legumes, azeite, café e açúcar, explica Gonçalo Lobo Xavier. Uma vez que, com um aumento da oferta, não subiram tanto os preços.
E porque, junta, “há uma concorrência tão grande entre os retalhistas em Portugal, que isso obriga a oferta de bens adequada para todas as carteiras”.
Esmagados? E os lucros? “Não se pode diabolizar”
Haverá quem, ao ler sobre o “esmagamento das margens” dos retalhistas, se perguntará sobre outras margens: as de lucro. A Sonae, dona do Continente, registou resultados positivos de 123 milhões de euros até junho, mais 20,5% do que no mesmo período do ano anterior. Já a Jerónimo Martins, dona do Pingo Doce, viu os lucros cair 3,5%, para os 260 milhões de euros. Estão, ambas a insígnias, a vender mais do que antes.
“Não se pode diabolizar as empresas quando são grandes, dizendo que têm lucros. Ainda bem que têm resultados para pagar aos funcionários, investir, pagar impostos”, reage o porta-voz da associação do setor.
Gonçalo Lobo Xavier defende que, mais do que uma política fiscal relativamente aos impostos, a prioridade dos governantes deveria passar pelos apoios aos setores da produção agrícola e dos transportes, dando o exemplo espanhol de 1.100 milhões de euros.
Tradições que poupam
Há muito que a Deco Proteste vem monitorizando os preços de um cabaz de bens essenciais. E constatado que, desde o início de 2026, há um culpado por essa evolução. “É uma causa quase sempre direta: o valor dos combustíveis”, afirma o porta-voz Nuno Pais de Figueiredo.
Por isso, nunca são demais os conselhos para as famílias com contas apertadas: “se for possível, recuperar a tradição da compra mensal, o que vai fazer com que não dependa tanto das variações semanais”.
Porque aquilo que 50 euros compram hoje, dificilmente vão comprar também na semana que vem. Claro que esta dica não se aplica a bens perecíveis, mas permite “evitar este carrossel” de preços.
Como já vimos, a carne e o peixe têm registado as maiores subidas. Por isso, mesmo que o Natal pareça ainda distante, não será de todo má ideia comprar já algum se fizer muita questão de honrar a tradição. A perspetiva é de que suba para “valores superiores àqueles a que estávamos habituados”.
Euro a euro, lá vai o orçamento familiar
Mesmo que os dados oficiais mostrem que a taxa de inflação aumentou para 3,3% em agosto, quando comparado com o mesmo mês do ano passado, à boleia dos combustíveis, a verdade é que os portugueses sentem que o peso na conta do supermercado acaba por ser maior.
E têm razões para o queixume que se repete em cada reportagem nos mercados do país. Basta olhar para a lista de produtos compilada pelo INE para perceber que há muitos com subidas acima dos 5%. A CNN Portugal foi à procura deles, a começar pelo peixe.
Quando é seco, salgado, em salmoura ou fumado, a subida foi de quase 23%. Já se for vivo, fresco, refrigerado ou congelado, o aumento roçou os 10%.
Também as bebidas à base de cacau, as bagas frescas, a margarina e preparações similares e as leguminosas frescas ou refrigeradas viram os preços disparar mais de 5%.
Isto é na parte nas compras para comer. Porque depois há toda uma gama de produtos e serviços a registar evoluções na mesma escala: tudo o que tem a ver com habitação, rendas e manutenção de edifícios, serviços de transporte de mercadoria e correspondência, bem como custos com escolas e creches.
E também o lazer sai mais caro: nos restaurantes e alojamentos a subida supera os 6%, as entradas em eventos desportivos aumentaram 5,3%, ir ao cinema ou teatro ficou 15% mais caro. Nas consolas e jogos de vídeo, há uma variação acima dos 10%.
Cêntimo a cêntimo, euro a euro, o orçamento das famílias portuguesas é engolido pela subida do custo de vida.