Burnham nomeia Healey para as Finanças e traz de volta Haigh e Rayner. Governo rompe com era de Starmer

Para que não restem dúvidas de que o novo Governo trabalhista não é uma continuação do anterior, Andy Burnham traçou mais uma linha entre a sua equipa e o do seu antecessor. Apresentou, nesta segunda-feira, a composição do novo Executivo britânico, depois de ter tomado posse como primeiro-ministro e trouxe novidades. A remodelação é marcada pelo afastamento de vários ministros da equipa de Keir Starmer, pelo regresso de antigos governantes e pela promoção de aliados de Burnham para algumas das pastas mais importantes.

A principal surpresa é a nomeação de John Healey para ministro das Finanças, numa escolha interpretada como um sinal de que o novo Governo pretende “quebrar o ciclo”, aumentando o investimento na Defesa sem abandonar o compromisso com a estabilidade orçamental. Healey regressa, assim, ao Governo pouco mais de um mês depois de se ter demitido da tutela do Ministério da Defesa, alegando que o Tesouro se recusava a disponibilizar os recursos necessários para reforçar as capacidades militares do país.

Agora, será precisamente Healey a substituir Rachel Reeves no Tesouro. A escolha, de acordo com o The Telegraph, foi bem recebida por responsáveis militares, que viam o antigo ministro da Defesa como um dos principais defensores do aumento da despesa no setor. O novo titular das Finanças terá, no entanto, de compatibilizar esse objetivo com as prioridades económicas anunciadas por Burnham, que incluem maior investimento público, reindustrialização, descentralização e o cumprimento das regras orçamentais do Partido Trabalhista.

Sem planos concretos, Andy Burnham chega ao Governo com uma promessa: “Quebrar o ciclo”

Outra das mudanças de maior relevo acontece na diplomacia britânica. Ed Miliband deixa o Ministério do Ambiente para assumir a pasta dos Negócios Estrangeiros, substituindo Yvette Cooper, que passa a tutelar a Saúde.

A relação entre o recém-nomeado Miliband e a administração de Donald Trump é marcada por uma profunda tensão diplomática e ideológica. A Casa Branca manifestou grande preocupação com a sua nomeação, após Miliband ter irritado Washington ao assinar um acordo climático com a Califórnia à revelia do governo federal, bloquear o uso de bases britânicas para ataques norte-americanos contra o Irão e defender o fim das licenças de petróleo no Mar do Norte, uma política energética que Trump classificou publicamente como “estúpida“.

Trump critica acordo de energia limpa entre governador da Califórnia e Reino Unido

Wes Streeting é, por seu turno, o novo ministro da Defesa, depois de ter apoiado Burnham na corrida à liderança trabalhista após desistir da sua própria candidatura. Jonathan Reynolds regressa ao Ministério da Economia, cargo que já tinha desempenhado no início do Governo de Starmer, enquanto Miatta Fahnbulleh sucede a Miliband na pasta da Neutralidade Carbónica e Energia. Lucy Powell passa a liderar o Ministério da Educação, substituindo Bridget Phillipson, que continuará no Conselho de Ministros apenas como ministra das Mulheres e da Igualdade.

O novo Executivo de Burnham fica igualmente marcado pelo regresso de várias figuras que tinham abandonado a liderança de Starmer. Louise Haigh volta ao Conselho de Ministros como ministra de Estado e chanceler do Ducado de Lancaster, tornando-se uma das principais responsáveis pela coordenação política do Executivo. A antiga ministra dos Transportes tinha deixado o Governo em 2024, após ter sido conhecida uma condenação por fraude relacionada com uma falsa participação do roubo de um telemóvel.

Reino Unido. Ex-ministra que se demitiu por fraude será o braço-direito de Andy Burnham

Angela Rayner regressa, por sua vez, ao Ministério da Habitação, pasta que ocupou no início da legislatura de Starmer antes de sair na sequência da polémica relacionada com o pagamento do imposto de selo na compra de uma casa. Burnham recupera, assim, uma das figuras mais influentes da ala esquerda do Partido Trabalhista.

Entre as restantes nomeações, Angela Eagle assume o Ministério do Ambiente, Alex Norris passa a liderar a Justiça, Ellie Reeves torna-se procuradora-geral, Stephen Kinnock é o novo ministro para o País de Gales e Chris Bryant substitui Hilary Benn na Irlanda do Norte.

Uma das novidades do Executivo é a criação de um ministério dedicado à Inteligência Artificial. A pasta será ocupada por Kanishka Narayan, que passa a integrar o Conselho de Ministros com a missão de coordenar a estratégia britânica para o desenvolvimento da inteligência artificial e a sua aplicação na economia e nos serviços públicos.

Apesar da remodelação, Burnham optou por manter alguns ministros nas respetivas funções. Shabana Mahmood continua à frente da Administração Interna, apesar de ter sido apontada como uma das principais candidatas às Finanças. Permanecem igualmente Pat McFadden, no Trabalho e Pensões, Lisa Nandy, na Cultura, Douglas Alexander, como ministro para a Escócia, e Heidi Alexander, nos Transportes. Matthew Pennycook mantém-se como secretário de Estado da Habitação.

As mudanças representam uma clara rutura com a equipa de Keir Starmer. Rachel Reeves abandona as Finanças, David Lammy deixa a Justiça, Dan Jarvis sai da Defesa, Peter Kyle deixa a Economia, Liz Kendall abandona a Ciência, Lord Hermer deixa o cargo de procurador-geral e Darren Jones sai das Relações Intergovernamentais. Também deixam o Governo Hilary Benn, que era responsável pela Irlanda do Norte, Emma Reynolds, até agora no Ambiente, e Jo Stevens, que tutelava o País de Gales.

A remodelação reforça a influência dos aliados de Burnham no Governo e reduz significativamente o peso político da ala mais próxima de Keir Starmer, que perde várias das principais pastas do Executivo. Ao mesmo tempo, o novo primeiro-ministro recupera antigos ministros que tinham saído em circunstâncias polémicas e promove os que o apoiaram na corrida pela liderança trabalhista.

No primeiro discurso em Downing Street, Burnham prometeu que o seu Governo será um “ponto de viragem” para o Reino Unido, assente num novo modelo económico, maior investimento público e medidas para aliviar o custo de vida. Entre as primeiras prioridades anunciadas estão um plano de 340 milhões de libras (cerca de 400 milhões de euros) para combater a situação das pessoas sem-abrigo, cortes nos impostos sobre consumo de energia e eletricidade e nos bilhetes de transportes públicos.