Racionalizamos para não ferir nosso narcisismo - 21/09/2026 - Vera Iaconelli - Folha

A análise é um processo no qual você paga para alguém escutar aquilo que você mesmo fala, mas não escuta. Se fazemos uso desse expediente, é porque, em alguma medida, sabemos que precisamos, mas tememos nos ouvir. Freud deu o nome de resistência à força em nós que não quer saber sobre quem somos.

Afinal, dá tanto trabalho construir a imagem de si que chamamos de eu que é de se esperar que resistamos a confrontá-la. Momentos em que nosso retrato destoa da ideia que temos de nós promovem feridas narcísicas.

Quando chegamos ao analista falando "eu isso, eu aquilo", desejamos que ele confirme que o inferno são os outros, enquanto tentamos descobrir como nos livrar do sofrimento. Abusamos do truque de supor não termos nada a ver com aquilo de que nos queixamos e sermos apenas vítimas da má-fé alheia.

Para manter a fachada, usamos um mecanismo de defesa conhecido: a racionalização. Trata-se de uma retórica aparentemente lógica, mas que só serve para justificar o injustificável. A análise é um processo de sair desse armário, momento no qual assumimos, pelo menos para nós mesmos, nosso desejo e nossas limitações reais. A escolha do que fazer com essas duras descobertas é do freguês; analista não dá palpite.

O perfil do brasileiro apontado por Felipe Nunes na última pesquisa Quaest de intenção de voto tem esse caráter de chá revelação para quem ainda não admite suas reais motivações eleitorais. Os dados mostram que brancos de renda mais alta, principalmente do Sul e do Sudeste, tendem a ver com menos mérito a ascensão dos mais pobres quando não percebem melhora equivalente na própria situação. É aí que o dado encontra uma possível interpretação: a diminuição da desigualdade social pode causar um efeito rebote, não um alívio, em quem se identifica com a classe alta.

O retrato é feio e já foi revelado por autores como Esther Solano, Camila Rocha, Pablo Ortellado e Jessé Souza. A classe média pende em direção à elite, virando as costas para os desassistidos, pois sente que perdeu espaços outrora exclusivos. Também se ressente de ver que, mesmo com o aumento da renda, essa não correspondeu à sua aspiração de consumo, impulsionada pela miragem das redes (anti)sociais.

É aí que entra a racionalização. Não se trata necessariamente de alguém que pensa "sou mesquinho e ganancioso, mas vou inventar uma desculpa melhor". O mecanismo é inconsciente e funciona justamente para que não seja preciso saber disso.

Para preservar uma imagem aceitável de si, encontram-se razões nobres para desejos embaraçosos. O discurso religioso pode então conviver sem grande conflito com a lógica da "farinha pouca, meu pirão primeiro", sendo o pirão algum bem de consumo. Sair do Mapa da Fome, por exemplo, acaba por sensibilizar pouco o cristão que tem três refeições garantidas por dia e não está no clima de repartir o pão.

Se pelo menos assumissem suas motivações, talvez aceitassem a irracionalidade de contribuir para a insegurança, a desigualdade e a pobreza que dizem querer combater.

Também nos poupariam de conviver com retóricas nauseantes de bom-mocismo e as decorrentes demonstrações de violência que nem os mecanismos de defesa foram capazes de conter.

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