Paula Gama: Razuk preso: como influencer usava licença da Paraíba para sortear carros

A defesa do youtuber afirma que os sorteios estavam regularizados. E, de fato, havia uma autorização pública envolvida: produtos divulgados como Razuk Backstage eram operados por uma empresa credenciada pela Loteria do Estado da Paraíba, a Lotep.

Para a Polícia Civil, porém, essa estrutura era usada para dar aparência de legalidade a rifas irregulares. A discussão passa por uma pergunta que há anos acompanha o mercado de sorteios promovidos por influenciadores: é possível transformar uma rifa de carro em uma operação legal apenas mudando a maneira como ela é apresentada?

Para a SPA (Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda), a resposta é não.

Em resposta ao UOL Carros, a SPA afirma que rifas - operações em que são vendidos bilhetes, números ou cotas para que o comprador concorra a um prêmio - são proibidas no Brasil e configuram contravenção penal. A exceção prevista na legislação é para sorteios de entidades filantrópicas, submetidos a regras específicas.

Ou seja: segundo a secretaria, uma pessoa não pode simplesmente colocar um carro na internet, dividir o valor do sorteio em milhares ou milhões de números e vender essas cotas ao público.

Defesa diz que sorteios eram legais

A defesa de Eduardo e Rafael Razuk nega que a estrutura tivesse sido montada apenas para dar aparência de regularidade às rifas.

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Em contato com o UOL Carros, os advogados Tiago Bunning e Heitor Matos afirmaram que os sorteios eram legalizados.

"Ainda não temos acesso a investigação e à decisão judicial, mas podemos antecipar que os sorteios realizados são legais. A operação respeita todo o regramento específico do setor, não havendo qualquer irregularidade. Após ter acesso ao procedimento, podemos prestar novos esclarecimentos", afirmam os advogados.

Razuk promovia rifas há mais de 5 anos

Garagem onde os carros do Razuk foram apreendidos tinha 22 carros
Garagem onde os carros do Razuk foram apreendidos tinha 22 carros Imagem: Reprodução

Essa não é a primeira operação policial contra influenciadores que faturam com sorteios de carros, dinheiro e outros bens. O próprio UOL Carros acompanha esse mercado desde 2020 e já mostrou diferentes tentativas de adaptar as rifas às regras brasileiras. Razuk estava entre os influenciadores acompanhados por nossa reportagem desde aquela época.

Em 2021, por exemplo, ele promoveu o sorteio de um Ford Mustang que poderia arrecadar R$ 1 milhão. Naquele período, Razuk chegou a abrir empresas e utilizar os resultados da Loteria Federal como referência para definir os vencedores. Isso, porém, não transformava automaticamente a venda de cotas em uma operação autorizada.

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Outros influenciadores adotaram estratégia diferente. Em vez de vender diretamente um "número da sorte", passaram a comercializar produtos de baixo valor, como adesivos, que davam ao comprador números para participar dos sorteios.

A lógica era tentar enquadrar a operação como uma promoção comercial: o consumidor estaria, em tese, comprando um produto e recebendo gratuitamente a chance de concorrer a um prêmio.

O Ministério da Fazenda já havia alertado, porém, que vender um produto apenas como pretexto para cobrar pela participação no sorteio poderia configurar desvirtuamento da promoção. Se o adesivo não fosse de fato o objeto de interesse do consumidor e servisse apenas para entregar o número da sorte, a operação poderia continuar sendo tratada como uma rifa disfarçada. Foi nesse cenário que apareceu uma nova alternativa para os sorteios divulgados por Razuk.

Como a Paraíba entrou na história

Razuk foi preso no Mato Grosso do Sul
Razuk foi preso no Mato Grosso do Sul Imagem: Reprodução

Segundo a Polícia Civil, a partir de 2025 o grupo ligado a Razuk mudou sua forma de atuação. Depois de operações contra influenciadores que faziam rifas em diferentes estados, os investigados teriam passado a buscar mecanismos para, de acordo com a Polícia Civil do Mato Grosso do Sul, dar aparência de regularidade aos sorteios.

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Conforme as investigações, a estrutura passava por uma empresa do Rio de Janeiro e por outra da Paraíba. De acordo com o delegado Pedro Henrique Pilar Cunha, a empresa fluminense fazia a intermediação entre influenciadores e uma empresa paraibana que tinha autorização da Lotep. Para a investigação, essa autorização passou a ser usada para respaldar formalmente os sorteios divulgados nas redes sociais de Razuk.

"Eles propiciavam um ar de legalidade às rifas ilegais e, ao mesmo tempo, promoviam uma sofisticação da lavagem de dinheiro obtida com essas rifas", afirma o delegado.

A empresa paraibana é a FM Agenciamento Publicitário & Intermediação de Negócios. A própria Lotep confirmou ao UOL Carros que autorizou a FM a operar produtos lotéricos denominados Razuk Backstage. Segundo a autarquia, porém, a autorização não havia sido concedida diretamente a Eduardo Razuk.

Perante a Lotep, o influenciador aparecia apenas como divulgador. A FM era a empresa responsável pela operação e pela comercialização do produto. Essa distinção é importante para entender a tese de legalidade.

O sorteio deixava de ser apresentado formalmente como uma "rifa de Eduardo Razuk" e passava a aparecer como um produto de uma empresa autorizada por uma loteria estadual, com Razuk atuando na divulgação para seus milhões de seguidores.

Lotep diz que não identificou irregularidades

Eduardo Razuk construiu um galpão em Campo Grande (MS)para guardar sua coleção de carros de luxo; muitos foram sorteados em rifas
Eduardo Razuk construiu um galpão em Campo Grande (MS)para guardar sua coleção de carros de luxo; muitos foram sorteados em rifas Imagem: Reprodução
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Em dezembro de 2025, o estado da Paraíba alterou sua lei de loterias e passou a permitir a venda de produtos lotéricos pela internet.

Na prática, pode-se vender um produto muito parecido com as chamadas rifas, no qual compra-se um bilhete para participar de um sorteio. A norma também diz que a aposta pode ser considerada feita na Paraíba mesmo quando o apostador está em outro estado.

O texto autoriza a comercialização virtual pela Lotep ou por seus delegatários "ainda que o apostador se encontre ou realize a aposta em outra unidade da Federação". A publicidade dos produtos também não ficaria limitada ao território paraibano. Essa é a base usada pela defesa de Razuk para sustentar que os sorteios eram legais.

Questionada pelo UOL Carros, a Lotep afirma que as autorizações seguem a Lei Estadual 12.703/2023 e suas alterações e que os termos emitidos pela autarquia "estão amparados pela legislação".

A Lotep também diz que fiscalizou produtos ligados ao Razuk Backstage e não encontrou irregularidades nas campanhas ou na apuração dos resultados.

Segundo a autarquia, os sorteios usaram números da Loteria Federal, e a lista de participantes e números concorrentes foi divulgada antes da apuração. Informações sobre bilhetes vendidos, arrecadação, prestação de contas e entrega dos prêmios, afirma a Lotep, estão nos processos administrativos.

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Autorização local, sorteios nacionais

É aí que surge outro problema para a tese de que os sorteios estavam regularizados. A Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda afirma ao UOL Carros que uma autorização de loteria estadual não pode ser usada, por si só, para vender produtos lotéricos a consumidores espalhados pelo país.

Segundo a SPA, a Lei 13.756/2018 limita a exploração das loterias estaduais ao território do próprio estado.

"Os limites territoriais dos produtos comercializados e dos resultados das loterias devem ficar restritos ao estado da autorização, quer os produtos sejam físicos ou digitais", afirmou a secretaria.

Para o órgão federal, nem mesmo a internet elimina essa fronteira. A SPA afirmou que o simples fato de o site poder ser acessado em qualquer lugar do Brasil ou de a empresa responsável estar sediada em um determinado estado não transforma uma autorização estadual em uma licença nacional.

Isso coloca a interpretação federal em choque com a regra aprovada pela Paraíba no fim de 2025, que considera realizada dentro do estado até uma aposta virtual feita por alguém localizado em outra unidade da Federação.

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É também um dos principais pontos levantados pela investigação contra o modelo usado no caso Razuk: os sorteios eram divulgados e comercializados em escala nacional, enquanto a autorização que lhes dava respaldo vinha de uma loteria estadual.

Questionada especificamente sobre a autorização da Paraíba, a defesa alega os dispositivos da legislação estadual que permitem a comercialização virtual mesmo quando o apostador está em outra unidade da Federação e autorizam publicidade fora do território paraibano.

Enquanto as investigações prosseguem, Razuk permanece preso preventivamente. A Justiça negou nesta semana pedido da defesa para que ele respondesse ao processo em liberdade.

Reportagem

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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