Robôs humanoides: a nova frente de batalha entre EUA e China

A medida, justificada diante de "riscos inaceitáveis" à segurança nacional, foi interpretada como analistas como sinal de que os EUA temem ter sua liderança tecnológica ameaçada por Pequim. O gigante asiático respondeu por 85% dos usos de robôs humanoides em 2025, segundo o banco britânico Barclays.

O argumento da Comissão Federal de Comunicações (FCC) dos EUA é que os robôs "coletam dados que poderiam ser explorados por agentes mal-intencionados para vigiar americanos, ampliar as capacidades de serviços de inteligência estrangeiros ou assumir remotamente o controle dos robôs".

Em junho, o Pentágono já havia incluído a Unitree e outras grandes empresas chinesas de tecnologia em uma lista de companhias acusadas de vínculos com as Forças Armadas chinesas. Seus robôs já foram utilizados em exercícios militares.

Quão séria é a ameaça dos robôs chineses à segurança dos EUA?

Autoridades americanas alertam que robôs humanoides e quadrúpedes chineses podem coletar dados detalhados de localização e informações pessoais, ser controlados remotamente e representar riscos para infraestruturas críticas americanas. As preocupações específicas se concentram no potencial uso duplo dos robôs, tanto para fins civis quanto militares.

Pesquisadores já demonstraram que robôs da Unitree apresentam falhas de segurança que permitem que invasores assumam o controle por meio de um comando de voz e, em seguida, utilizem um robô para controlar outros.

Continua após a publicidade

Washington também teme que uma grande quantidade de robôs chineses de baixo custo possa fornecer dados do mundo real para sistemas chineses de inteligência artificial, que vêm alcançando rapidamente seus concorrentes americanos.

A ameaça, porém, permanece em grande parte teórica, já que a maioria dos robôs humanoides comerciais ainda está em estágios iniciais de desenvolvimento.

A China rejeitou as acusações, insistindo que os EUA estão usando a segurança nacional como pretexto para o protecionismo e para restringir sua tecnologia.

Dias depois do anúncio da Casa Branca, o país respondeu com a imposição de fiscalizações sobre a exportação de drones aos EUA e proibindo negócios com seis entidades americanas.

Ação de Trump vai impulsionar a indústria americana de robôs?

O governo de Donald Trump nunca escondeu seu desejo de apoiar a indústria doméstica de robótica dos EUA, que, por sua vez, sustenta a expansão da infraestrutura de IA do país, avaliada em quase 1 trilhão de dólares.

Continua após a publicidade

Segundo observadores do setor, Trump quer garantir que empresas como Figure AI, Tesla Optimus e Agility Robotics sejam protegidas dos fabricantes chineses de grande escala, cujos robôs frequentemente custam metade do preço, ou menos, dos concorrentes americanos.

Washington já impôs restrições semelhantes a drones e painéis solares chineses e atualmente aplica uma tarifa de 100% sobre veículos elétricos chineses.

A medida é amplamente vista como uma tentativa de Trump de ganhar tempo, depois de ter sido surpreendido pela rapidez com que a China expandiu sua produção de robôs.

Segundo a empresa de pesquisa tecnológica Omdia, a China tem seis empresas entre as dez primeiras colocadas do setor de robótica. Essas companhias venderam quase 11,6 mil robôs humanoides em 2025, contra apenas algumas centenas de empresas americanas.

Em março, o Bank of America projetou cerca de 90 mil unidades embarcadas até o final deste ano.

Os EUA são amplamente considerados mais fortes no desenvolvimento do "cérebro" dos robôs, por meio de IA avançada, enquanto a China lidera na produção em massa de robôs mais baratos, com corpos que se movimentam melhor graças a atuadores de alto desempenho, ou músculos robóticos.

Continua após a publicidade

Rush Doshi, do think tank americano Conselho de Relações Exteriores (CFR), descreveu o veto da Casa Branca como "uma das ações mais significativas já tomadas em apoio ao ecossistema de robótica dos EUA".

CEO da fabricante de braços robóticos Standard Bots, Evan Beard diz que o governo Trump está enviando uma mensagem "inequívoca" à China.

"A robótica é uma tecnologia que os Estados Unidos precisam liderar e dominar, e robôs subsidiados por governos estrangeiros não terão permissão para dominar injustamente a robótica americana...", escreveu Beard na rede X.

Críticos, porém, acreditam que a proibição pode desacelerar a inovação em IA nos EUA, já que pesquisadores atualmente se beneficiam da possibilidade de realizar testes em robôs chineses de baixo custo.

"Restrições podem reduzir a exposição a riscos de segurança, mas, por si só, não criam um ecossistema doméstico competitivo", disse Georg Stieler, consultor da indústria de robótica, via X.

E há também quem ache que a proibição pode levar Pequim a "restringir ainda mais as vendas de terras raras para empresas americanas e [...] o acesso de companhias americanas, como Tesla e Nvidia, ao mercado chinês", como argumentou Marc Einstein, diretor de pesquisas da Counterpoint Research, ao canal americano de TV CNBC.

Continua após a publicidade

Mercado de robôs humanoides é promissor

O Barclays estima que o mercado, atualmente avaliado entre 2 e 3 bilhões de dólares (R$ 10,2 bilhões a R$ 15,3 bilhões), poderá chegar a 200 bilhões de dólares até 2035 no cenário mais otimista (R$ 1 trilhão), caso sejam alcançados avanços no cérebro, na força física e nas baterias dos robôs.

Elon Musk, o homem mais rico do mundo, é ainda mais otimista. Ele aposta que o Optimus, da Tesla, pode se tornar "o maior produto de todos os tempos", com vendas de longo prazo potencialmente alcançando 10 trilhões de dólares (R$ 51 trilhões).

Em larga escala, ele acredita que os robôs, atualmente vendidos por cerca de 100 mil dólares, poderão eventualmente custar entre 20 mil e 30 mil dólares por unidade, tornando-se baratos o suficiente para fábricas, armazéns e, posteriormente, residências.

Combinando a previsão do Barclays com a meta de preços de Musk, isso apontaria para a venda de aproximadamente 7 a 10 milhões de robôs humanoides por ano até 2035.

No curto prazo, espera-se que os humanoides assumam tarefas repetitivas e fisicamente exigentes em armazéns e fábricas. Mais adiante, poderão expandir sua atuação para áreas como saúde, assistência a idosos e trabalhos domésticos.

Defenda a verdade

Publicidade